Maria Rita vê “show de horror” construído há anos por fake news

Cantora pensa em novo projeto de samba, mas 'prioridade é cuidar da saúde mental'

Maria Rita vê “show de horror” construído há anos por fake news. (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)

Maria Rita vê “show de horror” construído há anos por fake news. (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)

Cultura

Maria Rita gosta de subir ao palco e sempre fez muitos shows, mesmo com quase 20 anos de carreira e uma dezena de registros fonográficos. Mas o isolamento por conta da pandemia fez pensar em outras prioridades.

“Essa parada forçada não foi legal. No começo mexeu muito comigo, fiquei preocupada, principalmente com a minha equipe e a responsabilidade com eles”, diz.

Assim como vários artistas, shows, contratos assinados, projetos e patrocínios foram suspensos. “Acho que essa minha preocupação, de tentar entender essa pandemia, como eu caberia nessa realidade, como mãe, cidadã, cantora, artista, mulher, tomou uma proporção muito maior do que a minha preocupação de não estar no palco. Claro que sinto muita saudade, afinal sou uma rata de palco”.

A cantora conta que “não fazer show adoece”, mas a partir do momento que entendeu que a distância não tinha a ver com ela, por se tratar de algo que tomou o mundo, “consegui segurar a onda”.

Lives

Ela revela não ter tido ainda “surtos” de ausência de palco e os formatos de shows que estão surgindo, como os no drive-in (shows com público assistindo dentro de carro) tem dado para amenizar o cenário atual.

“O primeiro drive-in que fiz, num primeiro momento foi estranho, senti que o público também não sabia como se comportar, mas na terceira música todo mundo entendeu a dinâmica e fomos para cima. O ser humano precisa de arte, não dá para fingir que isso não acontece”.

Recorrendo as lives nesse período de isolamento por conta da pandemia do novo coronavírus, reconhece que é uma realidade que veio para ficar e acha absolutamente positiva, “que fique claro”, pois é um modelo das pessoas acessarem o artista.

“É muito difícil viver de música no nosso país, é sempre muito caro. Essa conta bate para alguém, para o artista ou para o contratante, ou os dois. Então, essa realidade de fazer live e ter a possibilidade de um público curioso e generoso de acessar essa arte, é muito bom”, afirma.

“Volto a dizer a ausência do calor humano é o desafio (nas lives). As primeiras que eu fiz eu senti vontade de explodir. Ainda não me adaptei cem por cento. Sinto falta de ver o público, as reações, o olhar, de ver a interação, mesmo as pessoas mais contemplativas que ficam assistindo. Mas a live veio mesmo pra ficar e a gente cai dentro (risos)”.

Samba

Nesse período em que muitos artistas estão em casa, fora da estrada, as ideias fluem e vários deles tem ido para o estúdio colocar em prática projetos fonográficos. Maria Rita, no entanto, tem sido mais cautelosa.

“Por enquanto não vou fazer nada. Para esse ano vou ficar absorvendo as porradas, as rasteiras, porque a gente está tentando se entender quanto indústria e categoria. Estamos aqui tentando entender o dinheiro, questões burocráticas, da live especialmente, de pagamento de direito autoral”.

Ela considera a conjuntura com enorme ponto de interrogação, que precisa ser melhor avaliada, tanto na condição de cantora como de empresária. “Não adianta eu lançar um novo disco sem saber o que vai acontecer daqui para frente. Mas eu tenho pensado em algumas coisas, de lançar novo projeto de samba, um pouco mais abrangente, mais complexo. Sinto que é isso que o meu público quer”.

Em seguida, emenda: “Mas no momento realmente coloquei isso em segundo ou terceiro plano. Minha prioridade é cuidar da minha saúde mental, que é uma sugestão que dou para todos os meus amigos, pessoas próximas, meus seguidores”.

Maria Rita entrou de cabeça no samba a partir de seu terceiro trabalho de carreira, lançado em 2007. A partir daí, desenvolveu trabalhos com o gênero e criou uma relação intensa com o meio, conhecido por avalizar seus pares somente depois de muitos anos de deferência e serviços prestados.

“A relação que eu tenho com o samba é de profundo respeito e admiração. Fico lisonjeada de perceber a receptividade positiva e carinhosa dos grandes sambistas e compositores, músicos, escolas de samba. De me entender como parte aliada e agregadora, sabe? Isso para mim é uma honra muito grande”.

 

“A falta de empatia, a falta de responsabilidade, aquela necessidade constante de deixar o umbigo falar mais alto. É uma parada que choca, me assusta profundamente”. (Foto: Daryan Dornelles/Divulgação)

 

Relata ela que pelo fato de vivido fora do Brasil dos 16 aos 24 anos, teve um entendimento intelectualizado do samba, de compreender o samba como resistência.

“Ser abraçada e bem quista é de um valor muito grande. É perceptível esse respeito e admiração. Essa relação fica muito natural e genuína, fica bonita, né? Me sinto mais completa no samba, é onde eu sou gaiata, maloqueira, ultra feminina, ultra feminista, ultra cidadã consciente, que grita, que roda. E eu sou isso tudo no dia-dia, entende? A partir disso, eu consigo me sentir relevante. Consigo me sentir mais fortalecida como artista”.

Pandemia e política

Além da preocupação com o segmento musical, fora dele e de forma geral, vê escancarar o que vem observando há alguns anos: “a falta de empatia, a falta de responsabilidade, aquela necessidade constante de deixar o umbigo falar mais alto. É uma parada que choca, me assusta profundamente”.

E diz se sentir perturbada em sair de carro no Rio de Janeiro e ver bares e lotados “a ponto de parecer sábado de carnaval”, onde às vezes nem consegue passar.

“Estamos em plena pandemia. Assusta-me a forma de como alguns líderes se comportam e conduzem a sociedade, mas acho por outro lado que é essa peneira que faz com que a gente se proteja. Que aí a gente vê mesmo com quem está lidando”.

Também cita preocupação com as “consequências no psicológico coletivo, que o isolamento como esse vai surtir, principalmente nas crianças e adolescentes”. Com um filho de 16 anos e uma menina de 8, em conversa com mães de amigos deles, teme “como fazer todo esse período estranho ter saldo positivo”.

Na política, destaca que o período conturbado “é um movimento global” e não só privilégio nosso.

“Mas é um show de horror. É de uma atrocidade, crueldade, de uma ignorância que chega uma hora que eu me sinto sem ar. De não conseguir nem argumentar. Eu falo brincando, mas sinto que perco a inteligência. Não consigo argumentar. É choque em cima de choque. Acho que isso também é estratégico, justamente para isso, para gente enfraquecer, ficar sem conseguir raciocinar e aí, é na fraqueza que eles ganham”.

Para Maria Rita, o momento no Brasil segue polarizado: “O país está dividido em dois e não vejo uma solução nem uma luz no fim do túnel, pelo menos não tão cedo. Essa situação atual que estamos vivendo, vem sendo construído há muitos anos e tem a força da internet, das fake news. Têm regras de um jogo que eles escreveram e não passaram o manual para frente ou que a gente estaria com outro manual na mão”.

Ainda comparando a um jogo, cita não saber se comportar em um “tabuleiro estranho, de peças estranhas, tudo estranho”.

A cantora Maria Rita é essa profusão musical e de palavras do tempo em que vive: “Mas a gente respira fundo, acorda de manhã, mata dois ou três leões por dia, né? Por que cair é que não dá!”

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Post Tags
Compartilhar postagem