Cultura

Manoel Herzog, Cubatão e o cemitério dos vivos

Repleta de chaves e labirintos hermenêuticos e metalinguísticos, “A jaca do cemitério é mais doce” embaralha realidade e ficção

Herzoga cresceu em Cubatão
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Em seu novo romance, “A jaca do cemitério é mais doce” (Editora Alfaguara), o escritor santista Manoel Herzog nos leva a Cubatão.

A cidade de aura turva e apocalíptica parecia, na década de 1980, despontar, tragicamente, como a síntese do que poderíamos chamar de realismo fantástico: quem descia até a Baixada Santista atravessava uma Cubatão repleta de indústrias petroquímicas com suas chaminés a expelir labaredas fosforescentes – verdadeiros pescoços metálicos e longilíneos que mais pareciam dedos em riste apontados para um céu invariavelmente plúmbeo e nublado.

E que dizer do cheiro nauseante? (A antessala da asfixia.) E como poderíamos nos esquecer das fotos de fetos paridos (e/ou abortados) com má-formação? Fetos bicéfalos, fetos polidáctilos, anfíbios gestados pelas mutações da Tchernobil à brasileira.

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(Nesse sentido, a imagem de uma jaca bem doce parida entre os túmulos de um cemitério como que dá o tom, a priori, para o realismo fantástico da obra. A jaca do cemitério é mais doce: eis a mensagem do outdoor radioativo de uma petroquímica bem ao lado da placa municipal, fosforescente como um vagalume, em que se lê “Bem-vindos a Cubatão”.)

Em meio a essa atmosfera radicalmente insalubre, o narrador de Herzog, uma voz essencialmente dúbia, quiçá um familiar do protagonista ou seu alter ego, nos apresenta a história do proletário Santiago Hernández, rapaz descolado e pé de valsa (ou melhor, pé de samba) que logo se apaixona pela “volúvel” Natércia.

(Assim como Bentinho, o narrador possessivo de Dom Casmurro, de Machado de Assis, o narrador de Herzog e Santiago parecem unânimes e cúmplices em retratar Natércia com olhos de cigana oblíqua e dissimulada.

O momento em que Santiago se apaixona por Natércia é emblemático, prosa célere e imagética de Herzog apruma os ouvidos, polifonicamente, para trazer à tona a ambiência e os trejeitos de classe das personagens.

A prosa malandra apruma as mãos e se eriça para deslizar pelo corpo curvilíneo da personagem: “Terem dançado, Natércia de costas rebolando em sua pelve e um aperto mais carinhoso na barriga dela, consentido, fez com que Santiago os julgasse ligados amorosamente desde ali. Finda a dança, quando foram ao bar da quadra achando um descaminho entre o banheiro e as caixas de cerveja, dominou-a enfiando mãos onde podia; dali do samba levou-a num motel barato. Era louco por aquela mulher, tanto que fantasiou; o que ela talvez considerasse um encontro furtivo, ficar com um sambista de subúrbio, encher de inveja as colegas, pra Santiago pegou conotação de namoro. Eu dancei com você, divina dama, com o coração queimando em chama”.

Os itálicos no texto original dão o tom para a modulação da voz narrativa a entoar o samba Divina Dama, de autoria do compositor Cartola.

“Não quis ligar logo na noite seguinte, esperou duas, mas acabou ligando, convidando a acompanhar no baile da Sociedade Humanitária. Levou flores e bombons”.

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Apesar do furor, a paixão de Santiago e Natércia tem um curto verão: acossado pelas mesmas dúvidas que angustiavam seu irmão machadiano Bentinho (cujo sobrenome, por sinal, era Santiago), o protagonista de Herzog começa a matutar que é preciso dar cabo de Natércia e Vivaldo, o ex-policial picareta e pé de valsa que só faz tirar Natércia para sambar.

Na Companhia Brasileira de Alquimia, petroquímica em que Santiago trabalha, todos o maldizem pelas costas, cabe ao poeta e colega de labuta Germano Quaresma revelar a Santiago que Natércia de fato está pondo chifres em sua cabeça de cavalo.

[Repleta de chaves e labirintos hermenêuticos e metalinguísticos, a obra de Herzog embaralha realidade e ficção: Companhia Brasileira de Alquimia e Germano Quaresma são, respectivamente, o título de um romance (CBA, Editora Patuá, 2013) e o pseudônimo do próprio escritor. Ora, se o conteúdo do romance já era dúbio, a forma da narrativa faz com que desconfiemos, a priori, da maneira pela qual a estória foi estruturada. Ao narrador não-confiável soma-se, então, a categoria do autor cúmplice.]

Mas teria Santiago encomendado, de fato, o assassinato de Vivaldo? Será mesmo que o protagonista, acossado pela traição, chegou a enterrar Natércia em seu guarda-roupa e passou a extrair do cadáver amado o chorume de sua saudade?

Enquanto a leitura de “A jaca do cemitério é mais doce” multiplica o pão da dúvida como forma e conteúdo enigmáticos, a prosa de Manoel Herzog entrelaça as estórias de Santiago, Natércia, Vivaldo e Germano Quaresma à história da ocupação e da contaminação dolosas de Cubatão, como se, para que a jaca mutante se tornasse mais doce entre os túmulos, fosse preciso compor um romance de deformação cujo subtítulo bem poderia ser “O cemitério dos vivos”.

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