Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Livro de Zuza Homem de Mello protege a genialidade de João Gilberto

Biografia lançada na última sexta 5 foi escrita pelo pesquisador e coloca a perfeição do cantor acima das idiossincrasias

Foto: Divulgação
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A aguardada biografia de Zuza Homem de Mello sobre João Gilberto foi lançada na última sexta 5, com uma defesa contundente de um dos maiores pesquisadores da música brasileira sobre a obra e a relevância de João Gilberto à música.

Zuza não conseguiu ver o livro diagramado, embora o tenha terminado de escrever quatro dias antes de morrer, em 4 de outubro de 2020, quase quinze meses depois de seu biografado. A biografia de nome Amoroso (Companhia das Letras) amplia e aprofunda um ensaio em forma de livro lançado pelo autor sobre João Gilberto em 2001.

A nova obra ocupa espaço importante de entendimento da perfeição musical buscada (e realizada) pelo baiano de Juazeiro. Zuza pontua em vários momentos do livro a maneira peculiar com que João e seu violão, que eram uma coisa só, executavam seu trabalho e embeveciam plateias mundo afora.

Os ensaios intermináveis testando acordes em locais em que a acústica fosse favorável, como no banheiro, já eram frequentes antes mesmo de tornar-se conhecido com o primeiro disco Chega de Saudade (1958).

O autor da biografia desvenda um intérprete de samba, indo muito além do que acabou sendo rotulado: pai da Bossa Nova. João Gilberto se desvencilhou da pecha de bossa-novista assim que pôde, e foi acentuar de maneira diferente as notas musicais, dando outra divisão rítmica com seu violão, principalmente a sambas – até anteriores às composições que Tom Jobim e Vinicius de Moraes fizeram e culminaram com a Bossa Nova.

Também não quer dizer que o baiano deixou de inserir no seu repertório os clássicos Desafinado, Garota de Ipanema, Retrato em Branco Preto, Corcovado… Isso ele o fez a vida inteira. Mas João amava os sambas de Dorival Caymmi, Geraldo Pereira, Ary Barroso, Noel Rosa e por aí vai.

É interessante observar como os grupos vocais da época influenciaram João Gilberto. E como deles procurou o minimalismo para produção de uma versão musical ao seu jeito, absolutamente única.

Comportamento

As idiossincrasias do artista são apresentadas nos relatos que Zuza faz dos shows de João aqui e no exterior, mas o protege colocando a sua genialidade bem acima dessas questões. De exigências à falta de pontualidade em shows, a aceitação do comportamento do artista em nome de sua exuberante capacidade musical sobre o palco estendia-se também, na maioria das vezes, a organizadores de shows e plateias, como o livro relata.

Em turnê do cantor no Japão, o ingresso já informava de possível atraso do espetáculo, mas também proibia aplausos por mais de 15 minutos – foi naquele país que João Gilberto recebeu a mais longa louvação em toda sua vida: 25 minutos.

Amoroso, apesar de completo e organizado, é mais uma obra de entendimento sobre o mais genial músico brasileiro da segunda metade do século XX. O livro de Luiz Galvão, lançado em julho deste ano e resenhado pela CartaCapital, apesar de ser um perfil do ex-músico dos Novos Baianos baseado no seu convívio com o conterrâneo de Juazeiro, dá outras nuances e facetas a João Gilberto.

Assim como o fez Paulo Cesar de Araújo, em O Réu e o Rei (2014), livro em que detalhou o processo que sofreu de Roberto Carlos ao publicar a biografia não autorizada do cantor capixaba. Na obra, Araújo dedica quase um terço do trabalho à amizade que manteve com João ao procurá-lo para entrevistar sobre Roberto Carlos para o livro que acabou proibido – como se sabe, o Rei tinha elevada admiração musical pelo músico baiano.

O livro de Zuza não entra em detalhes sobre a vida amorosa do cantor com Asdrud, Miúcha, a moçambicana Maria do Céu e Claudia Faissol. Sobre Miúcha, irmã de Chico Buarque, o livro revela um amor eterno de João e seu sofrimento com a morte dela no final de 2018. Já Claudia Faissol, embora sem profundidade, é apresentada como uma personagem controversa na vida do cantor com quem teve uma filha quando ela ainda era casada com outro homem.

No fim da vida, com dívidas e pendenga judicial de pedido de indenização e direitos com gravadora de seu trabalho fundamental no início de carreira, morreu numa situação angustiante e indigna para um músico brasileiro admirado no mundo, por quem conhece e gosta de música.

Com Amoroso, Zuza Homem de Mello mantém viva – ainda que o autor não esteja mais conosco – a necessidade de saber, acima de tudo, quem foi João Gilberto para a música brasileira. A contribuição foi inestimável. O livro relata isso com clareza e louvor.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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