Cultura
Estética do excesso e do artifício
Serial Kelly, do diretor alagoano René Guerra, escapa da prisão realista do cinema e da televisão brasileiros para mergulhar em um país anômalo e cruel
O título de Serial Kelly, filme do alagoano René Guerra em cartaz desde a quinta-feira 24, sugere uma paródia com produções sobre assassinos em série. A trama acompanha Kelly, cantora que se apresenta em puteiros e praças de alimentação de shoppings, viajando numa Kombi que lhe serve de carro-casa.
Ela não mata por prazer ou lazer, como os psicopatas clássicos. O crime é, para ela, o meio para escapar do jugo de homens exploradores, chantagistas e abusadores.
Esse primeiro aspecto da personagem aproxima Serial Kelly das narrativas feministas, recurso que o cinema contemporâneo tem usado e abusado para representar a reconfiguração da escala de valores. O roteiro de René Guerra e de Marcelo Caetano não segue, porém, o formato simplório das tramas cujo objetivo se resume em transmitir mensagens.
O cinema que o diretor alagoano vinha gestando desde seus curtas-metragens dialoga com a estética do excesso e da saturação. O formato longa oferece mais possibilidades que Guerra explora sem medo de exagerar.
Dentre elas, a sobreposição de gêneros é a mais carnuda. A trama de Serial Kelly evoca a dinâmica do filme policial, com perseguições, uma caçada comandada por uma delegada e uma sequência de ação que dispara e encerra a narrativa.
Esses códigos, no entanto, nunca surgem limpos, puros. Eles são embaralhados com situações burlescas típicas da comédia ou recuperam procedimentos dos woman’s films, gênero gestado na Hollywood dos anos 1940 e dos road movies. A estrada é o fio que a personagem percorre enquanto caça quem a traiu, foge da lei e tem encontros com personagens extravagantes ou marginalizados.
A viagem é tanto uma forma de enfrentar os demônios que se apropriaram do País quanto uma odisseia em busca de uma camada quase oculta da cultura popular, a dos sentimentos exacerbados na música brega, a da moda que desrespeita limites do bom ou do mau gosto.
O excesso aparece também na visualidade de Serial Kelly, a começar pelos figurinos, o gestual e o próprio corpo da protagonista, interpretada pela cantora paraense Gaby Amarantos. Em vez de demandar uma atuação convencional da cantora não atriz, Guerra obtém dela uma interpretação que acentua o artifício, como num show de travestis em que tudo é assumidamente simulação, caricatura.
Desse modo, Serial Kelly escapa da prisão realista do cinema e da televisão brasileiros para mergulhar em um país quase desconhecido, anômalo, mas não menos verdadeiro. •
PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1236 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE NOVEMBRO DE 2022.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Estética do excesso e do artifício”
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