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Duas mães, duas vidas

A partir dos relatos de um sequestro, Brenda Navarro mergulha no abismo social e racial mexicano

Duas mães, duas vidas
Duas mães, duas vidas
Imagem: Idália Ríos/Universidade de Guadalajara
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Casas Vazias, de Brenda ­Navarro, estrutura-se a partir de duas perspectivas que expõem, de forma contundente, questões de classe e raça. O romance de estreia da autora mexicana residente em Madri começa com o desaparecimento de um menino de 3 anos em um parquinho infantil da Cidade do México.

Essa história será narrada por duas personagens: a mãe biológica e a sequestradora. Em ambos os relatos, a culpa e a violência estão presentes. O primeiro relato a dar conta do sequestro de Daniel é narrado por sua mãe, uma mulher de classe média alta, casada com um catalão. Ela também cria a sobrinha do marido, a adolescente Nagore, cuja mãe foi assassinada pelo pai – e a relação dela com o pai é, obviamente, marcada pela tensão.

No capítulo seguinte, vem o ponto de vista da sequestradora, uma mulher da periferia da cidade que ganha a vida vendendo paletas de chocolate. Ela sempre quis ter um filho, mas nunca conseguiu. Para tentar manter o relacionamento com o companheiro abusivo, rapta o menino a quem dá o nome de Leonel.

CASAS VAZIAS. Brenda Navarro. Tradução Livia Deorsola. Dublinense (160 págs., 59,90 reais)

Com destreza, Brenda Navarro articula essas narrativas em primeira pessoa que expõem, nas vivências e na forma, as diferenças socioeconômicas em um México urbano e contemporâneo.

Os capítulos da mãe biológica são contados com clareza. Frases bem organizadas e elegantes compõem um pensamento articulado. Os segmentos da outra mulher são bastante diferentes: a narrativa é truncada, apresentada como um jorro de fala sem muita ordenação. Esses contrastes ficam evidentes até na maneira como os parágrafos são apresentados nas páginas.

As condições em que o menino vive são outro parâmetro para apontar as diferenças de classe das duas famílias. A primeira mãe, mesmo não sendo branca, está inserida num lugar de privilégios. “Ou você é rico ou é branco, não há matizes”, diz ela. A sequestradora, por outro lado, luta para sobreviver em seu mundo de violência e abusos – cometidos não apenas pelo companheiro – e parece, a cada momento, estar prestes a perder a sanidade.

A violência é, de toda forma, um denominador comum na vida dessas mães. Seja perpetrada por outros, seja por elas mesmas contra si, essa violência surge como reflexo de uma sociedade machista e punitivista. O assassinato da mãe de Nagore, inclusive, faz parte desse todo.

Além de uma radiografia da sociedade mexicana, Casas Vazias é um retrato profundo da maternidade e uma reflexão sobre o peso das escolhas – nossas e dos outros. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1234 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE NOVEMBRO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Duas mães, duas vidas “

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