Cultura

O que se esconde por trás do ‘Ordem e Progresso’?

Em filme, diretor pernambucano Marcelo Pedroso pensa o novo status do brasileiro e a imagem que temos do País e de nós mesmos

Diretor constrói narrativa de associação livre em filme sem diálogos nem legendas
Diretor constrói narrativa de associação livre em filme sem diálogos nem legendas

O que se esconde por trás do “Ordem e Progresso” da bandeira parece ser o ponto de inquietação que levou o pernambucano Marcelo Pedroso a realizar Brasil S/A, seu primeiro longa de ficção e que faz parte da mostra Forum, da Berlinale 2015.

“No Nordeste estamos vivendo intensamente essa fase que vive Brasil. Esse boom começou a gerar imagens na minha cabeça, que tentavam se apoiar num ideário nacional associado a uma ideia de progresso, mas ao mesmo tempo queria introduzir uma linha de conflito nesse discurso oficial”, disse Pedroso à DW Brasil em Berlim.

Entre o arcaico e o moderno, o futuro e o presente, Pedroso constrói uma divertida colcha de retalhos, na qual diversos núcleos independentes brincam com a imagem que os brasileiros têm do país e de si mesmos.

Na construção de episódios, que vão ironicamente brincando com esse novo status do brasileiro, Pedroso começa a construir uma imagética e sonora narrativa de associação livre e sem a utilização da palavra. O filme não tem diálogos nem legendas.

A verticalização do Recife gerou uma das imagens que pontua o filme: uma grua no alto de um prédio, com uma bandeira incompleta, tremulando sobre o mar de prédios que se tornou a capital pernambucana. “Essas imagens são uma leitura da realidade. O filme traz algumas narrativas que vão tentando refletir e embaralhar um pouco esses sentidos. Pensar um pouco essa ideia de progresso”, afirma Pedroso.

Outra fascinação do diretor são as máquinas, que estão presentes em quase todos os núcleos do filme. Do caminhão-cegonha que carrega carros como se fosse um ônibus no começo do filme até um divertido balé de escavadeiras.

“Essas máquinas estão muito associadas a essa ideia de progresso, mas essas são imagens defasadas do progresso. Esse modelo de desenvolvimento, pautado pela indústria e pela produção, já está em desuso. Pensar que temos que chegar a um certo estado de desenvolvimento caminhando em direção a um ideal me deixa um pouco em crise”, confessa o diretor.

O filme também tematiza a vida dos cortadores de cana, associados a um ciclo importante na história do Brasil e que ainda tem peso na economia brasileira.

“É uma leitura muito alegórica do pais. A cana foi a primeira atividade econômica, que ainda persiste e se transforma no filme na mesma dimensão que a sociedade brasileira, que deixa de ser rural para se tornar metropolitana, assim como a base econômica deixa de ser agrícola para se tornar industrial. Várias alegorias que dizem respeito a um certo historicismo brasileiro”, diz Pedroso.

O diretor também brinca com a maneira que o governo vende o país para a população, através da máquina publicitária e dos chamados filmes institucionais. “Queria dialogar com o discurso oficial do país. Essas macronarrativas são uma tentativa de se apropriar desses signos e de confrontá-los. O país do futuro virou o país do presente. O filme tenta repercutir essas matrizes do discurso”, completa.

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