Cultura

Bolivarianos da América, uni-vos!

Só assim garantiremos Neymar, Suárez e Messi no mesmo ataque para a Copa de 2018

O trio Messi, Neymar e Suárez é coisa nossa, e não da Catalunha
O trio Messi, Neymar e Suárez é coisa nossa, e não da Catalunha

Em caixa alta e pontos de exclamação (centenas deles), uma leitora me alerta sobre os planos do ex-presidente Lula de transformar a América do Sul e seus povos bolivarianos numa grande e única nação. “É O SONHO DELE!!!!!!!”.

Não entendo de sonhos, nem dos meus nem de terceiros, mas entendo de futebol e, enquanto a leitora tentava me puxar para a realidade, via a Alemanha marcar um novo gol ao me lembrar de cada nome convocado pelo Dunga para a Copa América.

O alerta veio em boa hora. Sem ainda digerir os 7 a 1, assistia com uma inveja resignada ao passeio do Barcelona sobre o Bayern de Munique no Camp Nou e, graças ao técnico Luis Henrique, passei a acreditar que, de fato, um outro mundo era possível. Esse outro mundo tinha Messi, Neymar e Suárez – e esse time não era o Barcelona. A união dos povos sul-americanos nos daria não apenas o melhor ataque do mundo, mas também o segundo, o terceiro e o quarto.

Sem perceber, passei uma tarde brincando de escalar a seleção bolivariana com diferentes combinações. Alexis Sanchez, Tevez e Huiguaín. Que tal? Ou Guerrero, Willian e Aguero? Cavani, James Rodrigues e Falcão Garcia? D’Alessandro, Nilmar e Lisandro López (não, pera). Isso sem contar Vidal, Mascherano, Di Maria…

A fusão de todos os povos entraria em campo com NOVE (grifo meu!!!) títulos mundiais – entre eles o da tão sonhada Copa de 50, como já anotou o Antônio Prata, nosso cronista camisa 10. Seríamos o Real Madrid do mundo.

No que a leitora respondeu: “MATHEUS ABRE OS OLHOS A VIDA NÃO PODE SE RESUMIR A FUTEBOL!!!!!”

Verdade. Aqui na Terra precisamos também do samba, do choro, do roquenról e da cachaça. Mas uma boa ideia mesmo para segurar esse rojão seria ampliar os horizontes etílicos para o Malbec, o Cabertet, o Tannat e o tango. Quem sabe a devoção a Carlos Gardel não nos inspire a resgatar do esquecimento nossos próprios monstros do rádio: Francisco Alves, Orlando Silva, Vicente Celestino.

Em nossos porres cornísticos por uma cabeça, buscaríamos esquecer na bebida aquela ingrata entre goles de vinho e cerveja sem milho da Paceña e da Patricia  E, quando a fome apertasse, ninguém precisaria do Tony Ramos para ser convencido a comer carne embalada – teríamos as melhores, e o garoto propaganda onipresente seria o Ricardo Darin.

A fusão de nossos cinemas nos pouparia meses de debates sobre por que não conseguimos fazer filmes como nossos vizinhos. A Globo Filmes e suas luzes claras e brilhantes das salas de jantar que jamais tivemos seriam aposentadas no dia seguinte. A nova nação largaria com dois Oscar e quatro prêmios Nobel de literatura.

Nas escolas, trocaríamos O Guarani por Cem Anos de Solidão – e a família Buendia diria mais sobre nosso povo do que as aventuras do índio Peri. Com a literatura, poderíamos oficializar o portunhol como língua oficial. Ou aprender, na marra e na necessidade, a evitar embaraços com falsos cognatos quando perguntamos aos portenhos onde podemos pegar “el busón”.

Ainda na gastronomia, substituiríamos a truta salmonada pelo verdadeiro salmão chileno. Ganharíamos uma saída para o Pacífico e a balança comercial explodiria em exportação, o PIB praticamente duplicaria e, com 17 819 100 quilômetros quadrados, superaríamos a Rússia como o maior país do mundo. Com um voo doméstico, desembarcaríamos nos Andes antes de chegar ao litoral ou a Campos do Jordão. 

Para alegria da nossa leitora, o sonho de Lula, que naquele instante também era o meu, começou a fazer água. Não por imaginar que, perto do peronismo o PMDB seria o menos confuso dos partidos. O plano virou água quando voltei ao pretexto inicial: o futebol. O dia que começou em Champions League terminava em Libertadores, que passaria a ser a Copa do Brasil dos times locais. Haveria vantagens: com a coleção de títulos, o Boca Júnior nos censuraria qualquer dita soberania construída com pouca coisa.

O duro seria organizar tudo num certame de pontos corridos. No Bolivarianão 2016, seria complicado jogar em turno e retorno entre Caracas e Buenos Aires. Meu time, o Palmeiras, já não se animaria a lutar para ficar entre os sete primeiros colocados, mas nas 30 primeiras posições. Não teria chances de sobrevivência.

Na mesma noite, ao ver o estrago de um time médio do Paraguai sobre nosso maior (e melhor) rival, decidi abortar qualquer fusão de sonhos ou fronteiras: posso suportar a truta salmonada, mas não sobreviveria a um novo rebaixamento. Que nossas panelas nos protejam de qualquer delírio bolivariano. Fora, Lula!

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