BNegão: “Estamos voltando à Idade Média, mas com tecnologia”

Músico, que desenvolve projeto sobre obra de Dorival Caymmi, vê 'tintura de nazismo forte' no Brasil

BNegão (Foto: Andrea Possamai/Divulgação)

BNegão (Foto: Andrea Possamai/Divulgação)

Cultura

BNegão desenvolve um trabalho intimista de interpretação da canção praieira de Dorival Caymmi. O projeto, iniciado ano passado, contrapõe ao que em geral realiza em seus grupos, seja no Planet Hemp seja no Seletores de Frequência.

“Tudo muito diferente. Um show de voz e violão (ele e o violonista Bernardo Bosisio). Tem que estar 110% focado. Foi um dos mais difíceis e ao mesmo tempo prazeirosos e transcendentes que já fiz. Essas canções praieiras fazem parte de meu coração desde os 15, 16 anos”, diz.

O músico reconhece a energia na música do baiano faz tempo e que ele não tinha ainda colocado para fora. Por outro lado, reforça o aspecto múltiplo do trabalho de BNegão, que desde de seu contundente álbum Enxugando Gelo (2003) com o grupo Seletores de Frequência vem mostrando diversidade além do rap.

“Tem milhões de coisas para fazer. Fiz uns 30%. Faço a música que está no coração, sem ligar o que as pessoas vão pensar. Não vou esperar outra encarnação para fazer as paradas que tenho que fazer. Tenho interesse em alquimias musicais, em vários estilos.”

No próximo trabalho que pretende lançar, entre abril e maio, BNegão adianta que terá rock, samba, reggae, Ratos de Porão, pagodão, música de baile. “Quem ficar esperando que eu faça a linha porque é a regra, vai ficar esperando.”

Momento sinistro

Com relação ao momento político e social do Brasil, BNegão diz não saber onde tudo vai parar. Ou se vai parar. “Tem várias opções. O país se enfiar numa escuridão, o Brasil reagir a isso ou o mundo acaba e recomeça de novo, porque o mundo também está todo problemático.”

Ele já criou até uma justificativa extranatural do que ocorre: “Parece que um monte de espíritos sinistros, inquisidores e criaturas afins ficaram estacionados numa zona fantasma no planeta e resolveram encarnar tudo agora. Estamos voltando para Idade Média, mas com tecnologia”.

O vocalista e compositor é também conhecido pelo ativismo político e diz querer continuar incomodando essas “forças sinistras e opressoras” que circulam por aí.

“O que der para iluminar eu vou iluminar, o que der para modificar eu vou modificar, o que der para incomodar eu vou incomodar. A gente sabe que precisa chegar junto, contra essa tentativa de colocar o Estado de exceção, com fascismo crescendo brutalmente, com tintura de nazismo forte.”

Videoclipe

O primeiro clipe do olhar de BNegão para a obra de Dorival Caymmi saiu recentemente. O vídeo foi gravado com a música Morena do Mar.

A escolha da composição se deu pela representatividade a respeito da beleza e dos mistérios do mar, e pelo fato de o arranjo ser diferente da versão original, de acordo com o material divulgado pelo rapper. Um documentário sairá em breve sobre a relação de BNegão com a obra de Dorival Caymmi.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Compartilhar postagem