Antes apoiadores do bolsonarismo, artistas descobrem a censura

As madalenas arrependidas Maitê Proença e Marcelo Madureira se deparam com a claque bolsonarista autoritária e anticríticas

Antes apoiadores do bolsonarismo, artistas descobrem a censura

Cultura,Sociedade

A imagem da atriz Maitê Proença segurando uma faixa de protesto pela orla de Ipanema, ao lado dos cantores Criolo e Caetano Veloso, brandindo slogans contra as queimadas criminosas (e estimuladas pelo próprio governo federal) na Amazônia, parecia uma espécie de piada da internet, um mashup de imagens que algum gaiato tinha feito, uma montagem cômica. Mas era verdade, Maitê estava realmente lá. “O que está acontecendo é muito perigoso, porque não tem volta”, disse a atriz, fingindo não ter ouvido direito a pergunta do repórter: “Bolsonaro ameaça a natureza do Brasil?”

A atriz, de notórias posições antiprogressistas, tinha ficado célebre no fim do ano passado ao defender enfaticamente a eleição do ex-capitão. “O Bolsonaro não ganhou porque ele quer a volta da tortura, as mulheres ganhando menos ou os homossexuais encarcerados. Ele ganhou porque foi autêntico. O homem comum quer segurança, emprego e comida na mesa, ele abriu mão dos direitos humanos para ter isso. Eu não vou atirar pedras, é o que temos. O povo quis assim. Vamos torcer, gente. Pelo amor de Deus.”

Mudou Deus, mudou Maitê ou mudou Bolsonaro? A suspeita é de que nenhum dos três tenha se transformado, mas o instinto de sobrevivência da atriz certamente antecipou seu salto do barco do emergente pesadelo autoritário  do ex-capitão, considerado inimigo da Humanidade por algumas das maiores nações do planeta. O que chama atenção é que há um festival de artistas abandonando os delírios do capitão: Lobão, Ney Matogrosso, Danilo Gentili, Marcelo Madureira.

A passeata de Ipanema foi organizada pela empresária Paula Lavigne, que ficou furiosa com um boneco gigante do presidente Lula, uma reivindicação da liberdade do maior preso político da nossa história. Paula mandou retirar o boneco. “Esses artistas são meus!”, teria dito. Muitas vezes o sujeito acorda, mas o sono permanece: Paula parece não compreender que a prisão arbitrária de Lula é justamente o ponto central de toda a política de retrocesso que acomete o Brasil neste momento.

A claque bolsonarista não suporta críticas. Principalmente de antigos aliados

O humorista Marcelo Madureira, por sinal, aprendeu no domingo, da pior maneira possível, que uma democracia é um ambiente diferente daquele de um regime autoritário. Adepto de primeira hora das brigadas antipetistas, o ex-Casseta foi a uma manifestação pró-Lava Jato na Praia de Copacabana, no Rio. Achou que estava diante de um público acostumado às opiniões contraditórias e ensaiou algumas críticas ao candidato em quem votou para presidente. Estava redondamente enganado. Além de ter o microfone cortado, saiu vaiado e escoltado pela polícia até um táxi. Após ser expulso do protesto, passou a clamar pelo impeachment de Bolsonaro.

O mais irônico é que Madureira também segue sem entender nada, como explicitava no seu discurso que enfureceu os bolsominions. “Votei no Bolsonaro e vou criticar todas as vezes que for necessário. Como justificar uma aliança do Jair Bolsonaro com o Gilmar Mendes para acabar com a Operação Lava Jato? É isso que está acontecendo”, falou.

Cria cuervos. Maitê agora se protege no meio dos democratas. A Madureira, resta a proteção da polícia

Ney Matogrosso, que fez um discurso conciliador quando Bolsonaro venceu (“Que acalme o coração e faça um bom governo”), reconhece a natureza autoritária desta gestão, mas segue a ressaltar que ela foi eleita democraticamente. “Portanto, não podemos questioná-lo como questionávamos o outro. Realmente é um retrocesso mesmo”, disse ao portal UOL. “Hoje em dia, existe muito mais preconceito do que existia naquela época.” Ney diz não temer o autoritarismo: “Acho que a gente não pode se submeter a isso. Quando você admite que tem medo, está enfraquecido diante do quadro”, afirmou.

Alguns artistas “arrependidos”, órfãos de seus avatares políticos, trafegam ainda em ambientes controlados, mantendo um pé aqui e o outro lá. O ator Carlos Vereza, bolsonarista de primeira hora, falando à agência EFE, em Madri, disse o seguinte: “Bolsonaro está levando mal a gestão cultural por preconceito de seus assessores, não dele”. Difícil entender o que Vereza quis dizer com isso, mas certamente os assessores que ele julga culpados também não aguentam mais a escalada de episódios de censura e preconceito que emanam do Palácio do Planalto.

O Secretário Nacional de Cultura, Henrique Pires, deixou o cargo denunciando ingerência indevida da Presidência na cultura e na liberdade de expressão. Pires revelou que um edital de temática LGBT para tevês públicas fora objeto de censura no Ministério da Cidadania. “O Supremo Tribunal Federal em junho decidiu que discriminação de orientação sexual tem o mesmo peso de racismo. A solução jurídica foi esticar isso. O que está havendo é uma caça a um segmento da sociedade”, denunciou Pires. O Ministério da Cidadania rebateu e disse que o tinha demitido por não estar cumprindo bem suas funções, mas o ex-secretário foi sucinto ao explicar que,  se fosse verdade, a exoneração teria saído no Diário Oficial.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Editor de Cultura de CartaCapital.

Compartilhar postagem