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A vida sob o verniz

Carolina Markowicz, premiada nos festivais de Roma e Toronto, olha para a sociedade com sarcasmo e compaixão

Premiadas. Pedágio, em cartaz nos cinemas, é estrelado pela atriz Maeve Jinkings (à esq.). Carolina (acima) filmou o longa-metragem em Cubatão (SP). – Imagem: Biônica Filmes/Luxbox e Globofilmes e Carlyle Routh
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Durante a adolescência, em Bragança Paulista, no interior de São Paulo, Carolina Markowicz carregava em si o desejo de contar histórias. Fazer isso por meio de filmes estava, porém, longe do seu horizonte. O cinema, para ela, era a reunião familiar, aos domingos, com todos vendo filmes juntos. Uma das sessões marcantes foi a de Império do Sol (1987), de Steven Spielberg.

“Já hoje só penso em cinema”, diz, rindo, e mais resignada que orgulhosa, no início da conversa com CartaCapital, na semana anterior à estreia de Pedágio. Premiada, há dois meses, na categoria “talento emergente” do Festival Internacional Toronto (TIFF), no Canadá, e apontada, em festivais e na mídia, como grande revelação recente do cinema brasileiro, Carolina, de 40 anos, tem experimentado, no lançamento de Pedágio, um novo lugar dentro do mundo do cinema autoral.

“É um momento de desfrute”, diz, tão econômica na fala quanto nos roteiros que escreve. “Ouvir o que as pessoas acharam é, muitas vezes, tocante. O reconhecimento também. Mas tem ainda uma tensão nisso tudo: as entrevistas, os eventos… É menos divertido do que parece.”

Cameron Bailey, CEO do TIFF, definiu-a como “uma das diretoras mais destemidas de sua geração”, com “um futuro empolgante à sua frente”. Pedágio, antes de chegar às salas brasileiras, nesta quinta-feira 30, passou pelos festivais internacionais de San Sebastián, Vancouver, ­Bordeaux, Toronto e Roma – onde ganhou o troféu de melhor filme. Do Festival do Rio, em outubro, saiu com quatro prêmios.

Neste momento em que o cinema brasileiro tenta se reconstruir, aqui mesmo, reconquistando o público perdido desde 2020, e internacionalmente, voltando a figurar em seleções de festivais importantes, a trajetória de ­Carolina é não apenas significativa, mas também elucidativa das regras do jogo no cinema independente – que, mesmo sendo arte, não deixa de ser mercado.

Formada em comunicação social pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-SP), Carolina começou a vida profissional em uma agência de publicidade, como redatora. Em 2007, decidiu, com uma amiga, dirigir um curta-metragem sobre as prostitutas idosas da Praça da Luz, no Centro de São Paulo.

Embora feito de forma totalmente amadora, 69 – Praça da Luz foi selecionado para festivais brasileiros e internacionais e, de alguns deles, como Festival do Rio e Mix Brasil, saiu premiado. “Essa receptividade despertou em mim a vontade de continuar fazendo filmes”, diz.

Outros sete anos se passariam até que viesse o segundo curta-metragem, ­Edifício Tatuapé Mahal (2014), viabilizado com o Prêmio Estímulo, do governo paulista. O filme, narrado por um boneco daquelas maquetes de prédios em construção, daria início à sua relação com o TIFF e, efetivamente, lhe abriria as portas do circuito internacional. Seus quatro curtas-metragens seguintes viajaram por dezenas de festivais e Carolina foi, de lá para cá, selecionada para os mais concorridos laboratórios criativos do mundo, como a ­Berlinale Talents e o TIFF Filmmaker Lab.

O Órfão (2018), sobre um menino devolvido por diferentes pais adotivos que não aceitavam seus modos femininos, foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores de Cannes e recebeu a Queer Palm. À altura, ela já estava trabalhando no primeiro longa-metragem, Carvão (2022).

“A ideia de cura gay faz parte da distopia em que vivemos”, diz ela, sobre o seu filme

“De repente, não era mais eu, com meu caderninho, tentando vender meus projetos e ideias. Vinha gente me perguntar se eu não tinha projetos para apresentar. Senti, ali, que alguma coisa tinha mudado”, conta. Uma dessas pessoas era ­Karen Castanho, sócia da Biônica Filmes, que acabou por produzir Pedágio, atraindo para o projeto a Globo Filmes, a Paramount Pictures e a distribuidora Paris – conhecida pelos sucessos de público. No momento, ela tem engatilhados dois outros projetos – um no Brasil, outro fora.

Pedágio, um filme de marca autoral e, ao mesmo tempo, direto e emotivo, tem como tema central a cura gay e, como cenário, a cidade de Cubatão, onde Suellen (vivida com brilho por Maeve Jinkings) trabalha como cobradora de pedágio. Assim como acontecia em Carvão, a trama envolve a prática de um delito por “­pessoas de bem”. O propósito de Suellen, aqui, é conseguir financiar a “cura” do filho, prometida por um pastor estrangeiro.

“A ideia de cura gay faz parte da distopia que vivemos. Os caras, no Congresso Nacional, professam as coisas mais absurdas. São coisas ridículas, que a gente ouve e não sabe se ri ou se chora. Mas eles estão lá, foram eleitos”, diz. Em entrevistas fora do Brasil ela costuma dar como exemplo do contexto brasileiro a declaração da ex-ministra Damares Alves, da pasta da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, de que a princesa Elsa, do filme Frozen, era lésbica e por isso vivia só.

A ideia de distopia é espelhada esteticamente pela paisagem de Cubatão – que se torna, no longa-metragem, uma cidade estranhamente bonita. “Cubatão tem uma placa em que se lê: ‘Cidade símbolo da ecologia’. E a placa está derretida”, descreve.

O olhar de Carolina, tanto como diretora quanto como roteirista, é frequentemente definido como ácido e sarcástico. Mas ele carrega também um quê de compaixão. E o que é mais difícil: não só pelas vítimas, mas por aqueles que, à sombra de suas vidas públicas, cometem delitos e atos de violência, tendo como salvo-conduto a religião ou certezas caducas.

“Nos laboratórios, me disseram muitas vezes que o importante era eu encontrar minha voz, independentemente do que achamos que o outro espera ou do que um festival quer, por exemplo”, reflete. “E tem de ser assim mesmo, senão é enlouquecedor.” Tem dado certo. •

Publicado na edição n° 1288 de CartaCapital, em 06 de dezembro de 2023.

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