‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ trata das violências às mulheres

O melodrama mais que feminista foi o filme de abertura do Festival Cine Ceará. A história ocorre no Rio de Janeiro dos anos 1940 e 1950

‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’ trata das violências às mulheres

Cultura

Um filme sobre mulheres, com mulheres, de arguta sensibilidade feminina, mas dirigido primordialmente aos homens. Que certamente ficarão incomodados, intranquilos, agoniados, e alguns se sentirão acossados nas poltronas do cinema. A Vida Invisível de Eurídice Gusmão, de Karim Aïnouz, que abre o festival Cine Ceará (de 30 de agosto a 6 de setembro), fala da vida invisível de milhões de mulheres que são vítimas, cotidianamente, de todo tipo de violência física, emocional, familiar, sexual, social.

Parece um filme duro, sem afeto, mas é exatamente o contrário. É possível dizer, com certo exagero, que é uma espécie de Orgulho e Preconceito do morro, por tratar de tema tão doloroso com a delicadeza dos saraus de clube, dos recitais no Municipal, das festas ingênuas de lança-perfume e corsos pelas ruas. Como se fosse um filme de época, só que sua verdadeira intenção é de amarrar pontas soltas, aproximar fendas temporais.

As irmãs Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) são as personagens centrais do filme. Criadas em uma atmosfera de pasmaceira cortesã por um casal de portugueses, elas têm inclinações diferentes: Eurídice tem talento para a música, corteja um destino de concertista em Viena;  Guida quer viver a vida plena, amores fabulosos de romances, festas sem fim, aventuras rocambolescas. Elas são, em essência, a mesma: uma é o que a outra quer ser, secretamente. Por isso, seus anseios jamais se encontram, porque não há como realizá-los em um mundo que se especializou em podá-los. Eurídice é um pouco como a Félicité, de Flaubert, atravessando o seu destino sem abdicar de sua pureza.

A naturalidade das violências todas que a mulher sofre é examinada com um olhar astuto por Karim Aïnouz. O diretor sabe que uma noiva que seja violentada pelo próprio noivo na noite de núpcias não será um drama que mobilizará as consciências. “Ela estava ali para isso, não?”, dirão alguns circunstantes. É uma das cenas mais angustiantes do filme. A mulher de classe média encontra-se com a mulher de cortiço, a mulher de amores dançantes encontra-se com sua capacidade materna, a mulher calada encontra-se com a mulher que se emancipa, com a mulher que quer ser dona do seu destino. Melodrama existencial, o filme  encaminha-se para um desfecho que parece de reportagem de programa de tevê de variedades, de domingo, mas desemboca em um final sempre incompleto.

O filme é baseado no romance homônimo de 2016, da então estreante Martha Batalha. Recifense, mas criada no Rio de Janeiro, a autora desenvolve com sutileza a vida limitada de Eurídice, uma mulher que vira dona de casa, mãe e esposa, provocando uma profunda reflexão sobre as escolhas que não lhe foram permitidas tomar. Porque Eurídice, vejam vocês, era uma mulher brilhante. Se lhe dessem cálculos elaborados, ela projetaria pontes. Se lhe dessem um laboratório, ela inventaria vacinas. Se lhe dessem páginas brancas, ela escreveria clássicos. Mas o que lhe deram foram cuecas sujas, que Eurídice lavou muito rápido e muito bem, sentando-se em seguida no sofá, olhando as unhas e pensando no que deveria pensar, escreve Martha Batalha.

As irmãs Eurídice e Guida são, em essência, uma só: uma é o que a outra quer ser

No cinema, A Vida Invisível de Eurídice Gusmão é também um filme sobre o Rio de Janeiro, sobre certa passagem de uma cidade idílica, ainda solidária e humana, para um Rio de desabamento ético, moral, sentimental. Tal passagem é examinada entre os anos 1940 e 1950, mas alcança a nossa época, desmembrada de seu glamour, de seus anseios do passado. Cearense, Karim Aïnouz revisita a atmosfera de nascimento do morro que Marcel Camus tinha percorrido, em Orfeu Negro (1959), e chega a um resultado quase sociológico, quando morro e asfalto começam a se confundir. É um acurado exame da deterioração gradativa da ética, das precondições do humanismo.

O ritmo do filme contrasta com as tensões que constrói. As explosões são internalizadas, dependem de um trabalho fundamental dos atores, garimpadas pelo diretor com notável paciência em esgares nervosos e ambientes claustrofóbicos. Em vez de gastar os tubos com glamourosas reconstituições de época, optou por revisitar a célula fundamental do desenvolvimento das opressões: as famílias, a casa, a cozinha, a sala de estar. O espectador vê-se transportado para a realidade vintage com exíguos elementos: o velho ônibus, o navio ancorado, as malas, o piano de cauda, os cortes de cabelo e os penteados.

O filme revisita a célula fundamental das opressões: as famílias e as casas

O filme venceu a mostra Un Certain Regard (Um Certo Olhar), do último Festival de Cannes, um dos mais importantes do mundo. É um prêmio mais do que merecido: o certo olhar que o diretor Karim Aïnouz lança sobre o universo feminino é talvez um dos mais delicados que o cinema brasileiro dedicou a essa dimensão da experiência humana.

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