A Nápoles de Elena Ferrante

Cultura

Os romances do/a artista misterioso/a provocaram um boom turístico na cidade italiana, redimindo o lugar de sua reputação duvidosa

                                                                                                                          Istockphoto

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Nápoles é uma personagem no texto de Ferrante, tanto quanto Lenu e Lila

Por Lisa O’Kelly

Como muitos turistas em Nápoles, eu só havia estado lá a caminho de outros lugares. Durante anos a cidade teve a reputação de suja, perigosa e superlotada de veículos: por que no mundo alguém a escolheria para visitar? 

Mas isso mudou. Nápoles está se tornando um destino turístico especial, graças em parte à enorme popularidade da enigmática escritora Elena Ferrante. E, com o problema de coleta de lixo resolvido e novas restrições ao tráfego no Centro, a cidade exibe sua melhor aparência em muitas décadas.

Ferrante, que escreve sob pseudônimo, é a mais importante sensação literária que surgiu na Itália na última geração.

Seu quarteto de novelas napolitanas vendeu mais de 5,5 milhões de exemplares em todo o mundo. The New York Times observou que o entusiasmo pelos romances é tão intenso que está sendo descrito “em termos epidemiológicos, fazendo o fenômeno quase parecer uma doença infecciosa”.

E a febre Ferrante não vai baixar, provavelmente, tão cedo: uma adaptação ítalo-americana do primeiro livro, A Amiga Genial, está a caminho. A filmagem começa em Nápoles nesta primavera. O objetivo final é adaptar as quatro novelas em 32 episódios.

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Conheci tardiamente os livros, levada a pegar o primeiro volume pela comoção em torno do repórter italiano Claudio Gatti, que causou polêmica ao desmascarar a suposta verdadeira identidade de Ferrante. Não preciso dizer que adorei A Amiga Genial e devorei os outros três, tomada pelo rico retrato feito pela autora da vidas dura e da intensa amizade das protagonistas – Elena e Raffaella (que se chamam entre si de Lenu e Lila) –, que crescem em um bairro pobre e violento com um pano de fundo de vendettas da máfia e o turbilhão político e social dos anos 1960 e 1970.

Nápoles é uma personagem no texto de Ferrante, tanto quanto Lenu e Lila. Suas “ruas escuras cheias de perigo, trânsito desregrado, calçadas quebradas, poças gigantes… esgotos entupidos” percorrem um caminho profundo em nossa imaginação. Assim você termina as novelas napolitanas não apenas com um suspiro de pena, mas um desejo insistente de conhecer a cidade pessoalmente.

“As pessoas começaram a perguntar aos hotéis e agentes de turismo da região: ‘Como podemos encontrar os locais dos romances?’”, diz Caterina dei Vivo, do Progetto Museo, um grupo napolitano dedicado à preservação do patrimônio cultural. “Elas queriam ver o stradone, o Vomero, o Rettifilo, o Corso Umberto.”

O Progetto Museo rapidamente lançou uma Excursão Ferrante no início do ano, e várias outros o seguiram desde então.

Decidi combinar minha viagem com algumas noites em Sorrento. Um pitoresco amontoado de casas vermelho-escuras e hotéis ocre pendurados na borda da Baía de Nápoles, a cidade funciona como base não só para visitas à cidade – a cerca de 50 minutos de barco, ou uma hora de trem –, mas também para a trilha costeira de Amalfi (o “caminho dos deuses”), as cidades nas encostas da Campânia e também as ilhas de Capri e Ischia. Pompeia e Herculano estão a curto trajeto de trem.

Fui recebida ao descer do barco de Sorrento pela qualificada Caterina, uma napolitana com doutorado em preservação do patrimônio cultural. Juntamente com as duas outras pessoas de nosso grupo, eu estava ansiosa para visitar o bairro de trabalhadores onde Lenu e Lila cresceram: o Rione Luzzatti, no sul da cidade. Ficamos frustrados, pois Caterina não quis nos levar lá. Hoje ocupado principalmente por moradias sociais, ele tem uma reputação de criminalidade, e seria “triste demais e deprimente” para nós.

Então partimos para a cidade velha, onde nossa primeira escala foi o Corso Umberto, localmente conhecido como Rettifilo.

Essa é a rua principal que conecta o rione (distrito administrativo ) com a cidade, onde Lenu e Lila começaram a sair com amigos – com consequências desastrosas certa noite quando os irmãos Solara provocaram uma briga terrível com alguns meninos detestáveis de uma escola particular.

Também é o local das lojas de noivas visitadas por Lila com 16 anos enquanto se preparava para seu casamento elegante com Stefano Carracci. Todas as vitrines estão cheias de rendas brancas e vestidos para madrinhas, multicoloridos.

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Os quatro livros de Elena Ferrante levam seus personagens a passear pelos contrastes de Nápoles, dos becos sombrios…

Viramos à esquerda no bairro da universidade, onde Lenu encontrou seu primeiro emprego em uma livraria e Nino, o amor de sua vida, trabalhava como palestrante de esquerda. Como nos livros, os teatros das palestras são pintados com slogans radicais – uma “lotta dura” (slogan político dos anos 60, hoje mais associado ao futebol) aqui, uma foice e martelo acolá, e estudantes entregando panfletos revolucionários aos passantes.

A parada seguinte é a Via dei Tribunale, onde Lenu frequentou reuniões políticas com seus amigos das Brigadas Vermelhas.

Paramos em uma doceira tradicional como a dirigida pelos irmãos Solara nos romances para um café com sfogliatella, doce de massa folhada em forma de concha, original de Nápoles, cheio de creme de baunilha, canela e ricota perfumada com laranja.

centro da cidade parece maravilhosamente não modernizado, com suas ruas escuras e estreitas pingando água das roupas desbotadas, maços de pimenta vermelha pendurados na frente de cada casa e loja. As paredes estão enterradas sob camadas de cartazes, adesivos, grafite e sujeira. Motonetas passam zunindo, buzinas tocam e freios de caminhões chiam.

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…Às ruas gulosas e à Galleria Umberto, do século XIX

Fico impressionada pela ausência de redes como Starbucks e McDonald’s. Caterina diz que as multinacionais sabem que não podem concorrer com a comida de rua de Nápoles: pizza frita, croquetes de batata, flores de abobrinha empanadas, anchovas fritas e muçarela frita são vendidos em cada esquina em cones de papel pardo – cuoppo – por alguns euros cada um. O cheiroso café napolitano também.

A leste da reta infindável da Spac-canapoli, que corta o centro, revelando seu legado romano, as ruas alargam-se e a Via Toledo, uma das principais artérias comerciais da cidade, nos leva para fora da antiga Nápoles.

É aqui que os irmãos Solara desfilavam seu Fiat 1100 durante a passeggiata noturna em A Amiga Genial.

Ela passa pela elegante cúpula de vidro da Galleria Umberto, do século XIX – onde Tom Ripley e Dickie Greenleaf passeavam em O Talentoso Ripley – , rumo à Piazza Trieste e Trento, onde fica a Ópera da San Carlo e o Gran Caffè Gambrinus, uma instituição de Nápoles fundada em 1860, que Lenu e suas filhas visitam com Gigliola em História da Menina Perdida. A imponente biblioteca nacional, onde ela pesquisa a história da cidade perto do final do livro, fica na mesma piazza.

Dali é uma caminhada curta pela rica Via Chiaia até a elegante Piazza dei Martiri, onde se situa a loja de calçados dos irmãos Solara e onde Lila pendurou uma foto gigantesca e desfigurada dela mesma com o vestido de noiva e mais tarde teve um caso com Nino.

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Na Baía de Nápoles, o portão de entrada para o “caminho dos deuses”

Olhando nas vitrines da bela loja Salvatore Ferragamo, você pode imaginar ver Lila lá dentro, ou talvez seja Alfonso, seu amigo gay enrustido. A cidade se abre aqui para o mar e você percebe que não avistou o Mediterrâneo desde a manhã. Como Lenu muitas vezes reflete, a antiga Nápoles fica de costas para a água, pensativa e voltada para dentro.

Da Villa Comunale, um dos poucos espaços verdes da cidade, você pode vislumbrar a Via Tasso, onde Lenu alugou um apartamento quando estava com Nino, e também a moderna Vomero, onde a adolescente Lenu participou de uma festa elegante dada por seu professor e se admirou com a primeira visão de outro mundo, o da burguesia.

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