A Avenida Paulista tomada pelo Brasil das minorias

Uma intelectual, uma escritora e quatro artistas negras ocupam o corredor cultural da avenida mais famosa de São Paulo

Créditos: EBC

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Cultura

Criada na Cohab Fernão Dias, Zona Norte de São Paulo, Bianca Santana, cocuradora da Ocupação Sueli Carneiro, em cartaz no Itaú Cultural até 31 de outubro, começou a frequentar a Avenida Paulista ao entrar na faculdade Cásper Líbero, em 2003. Alguns anos depois, ela viraria professora da instituição e seria, naquele momento, a única negra a dar aulas ali.

Certo dia, durante uma palestra na periferia da cidade, Bianca contou trabalhar na Avenida Paulista, número 900, e pediu aos ouvintes que dissessem, com sinceridade, o que, ao vê-la, imaginariam ser a sua função naquele endereço. “Alguns ficaram constrangidos; outros disseram que pensariam que eu era faxineira ou, no máximo, auxiliar de escritório”, diz, procurando dar materialidade ao significado da presença dela mesma, e de outras mulheres negras, em três exposições do corredor cultural da Avenida Paulista.

A filósofa e escritora Sueli Carneiro é celebrada no número 149, perto do Metrô Paraíso. Na outra ponta, no número 2.424, ao lado do Metrô Consolação, a escritora Carolina Maria de Jesus (1914-1977) tem a trajetória revisitada numa mostra aberta no sábado 25 no Instituto Moreira Salles (IMS). Entre os dois espaços, no Museu de Arte de São Paulo (Masp), Lucia Laguna e Rosana Paulino ocupam os cavaletes de Lina Bo Bardi enquanto Maria Auxiliadora (1935-1974) e Madalena Santos Reinbolt (1919-1977) estão contempladas no espaço dedicado às doações recentemente recebidas pelo museu. Por trás de cada mostra, estão também curadoras negras.

Amanda Carneiro, curadora-assistente do Masp, conta que foi em 2018, na exposição Sonia Gomes: Ainda Assim Me Levanto, que houve, pela primeira vez, no museu uma dobradinha de artista e curadora negras. “A mim parece que mais do que motivo de orgulho, esse ineditismo é motivo de vergonha”, pontua, antes de aprofundar sua reflexão sobre o que chama de discriminação positiva.

Amanda, ao mesmo tempo que não desvaloriza o significado e a importância dessas presenças, chama atenção para o olhar de excepcionalidade e para o recorte racial. “Quando as exposições da Paulista eram sobre homens brancos, o olhar era sempre sobre o trabalho de cada um deles”, diz. No Masp, o recorte existe, mas com a perspectiva de superá-lo. Rosana Paulino, colocada na primeira fileira da exposição Acervo em Transformação, está no mesmo patamar de exibição de célebres representantes da arte europeia do século XIX. Rosana, assim como as demais artistas hoje expostas ali, faz parte do acervo. E isso não quer dizer pouco.

As mostras do Itaú Cultural, do IMS e do Masp espelham e, ao mesmo tempo, enfrentam o racismo

“O que estava fora do cânone sempre esteve inserido em exposições temporárias ou temáticas. Mas o acervo é aquilo que fica”, diz Amanda, fazendo questão de lembrar que a presença de Maria Auxiliadora na coleção do Masp antecede o atual movimento de busca por um equilíbrio de gênero e raça. “Mas isso agora se transformou numa política do museu.”

Tanto Maria Auxiliadora quanto Madalena Santos Reinbolt podem ser vistas também no IMS, com duas belíssimas obras – uma pintura e uma tapeçaria – que evocam a vida doméstica, num diálogo direto não apenas entre elas próprias, mas com Carolina Maria de Jesus. O encontro não é nem aleatório nem pode ser entendido como coincidência.

Na exposição do IMS, a trajetória de Carolina Maria de Jesus é recuperada em livros, manuscritos, fotografias, objetos e ainda por meio do diálogo com artistas que, na compreensão da curadoria, tiveram a recepção de suas obras muito marcada pela origem social. “São artistas cuja produção, por sua origem, teve a complexidade diminuída ou foi considerada menos nobre”, diz a historiadora Raquel Barreto, que assina a curadoria com o antropólogo Hélio Menezes, ambos negros.

A ideia para a mostra Carolina Maria de Jesus: Um Brasil para os Brasileiros, que integra a programação expandida da 34ª Bienal e segue em cartaz até janeiro de 2022, nasceu dos manuscritos da autora, guardados no IMS. “Toda a compreensão da Carolina passa muito pelo Quarto de Despejo, um livro que não deixa de ser publicado desde a década de 1960. Carolina publicou 13 livros em vida, mas o que ela escrevia como romancista ou poeta não interessava. Nesse sentido, recuperar a letra dela, materialmente falando, é muito significativo”, observa Raquel.

Carolina Maria de Jesus tornou-se conhecida em 1958, quando uma reportagem sobre ela foi publicada no jornal Folha da Noite. “O drama da favela escrito por uma favelada: Carolina Maria de Jesus faz um retrato sem retoque do mundo sórdido em que vive”, anunciava o jornal. O livro seria publicado dois anos depois e ganharia traduções em vários idiomas.

“Toda a imagem da Carolina foi construída a partir da personagem da favelada que escreve. Esse termo, favelada, desrespeitoso, era reforçado pelas fotos de uma mulher cabisbaixa, inibida diante da câmera. Um dos nossos desejos foi promover a circulação de outras imagens, dela sorrindo, dela arrumada”, explica a curadora. “Também a visualidade da mulher negra precisa ser compreendida de forma mais múltipla.”

Apesar de haver certa prevalência feminina na seleção dos artistas presentes da mostra do IMS, está lá, por exemplo, o sambista e pintor Heitor dos Prazeres (1898-1966), representado por meio de um quadro que retrata um casal negro na colheita. Entre os artistas contemporâneos, vê-se uma retomada, pelas artes visuais, do tema da habitação, tão central em Quarto de Despejo. Carolina dizia ser a favela “o recanto dos que não podem acompanhar o custo de vida”.

“Quantas mulheres negras trabalharam nos casarões da Paulista?”, pergunta Bianca Santana

Raquel, para explicar o percurso seguido pela curadoria, cita a teoria do “cânone pela margem”. “De que forma outras pessoas, de outras classes sociais, podem criar a poética que lhes é negada?”, pergunta ela, remetendo à frase em que Carolina diz ser a emoção um direito. “Ela narra o período pós-abolição e a gente vê, ainda hoje, que a situação da população negra é de extrema desigualdade. A literatura dela nos permite pensar o Brasil das minorias.”

Esse mesmo Brasil, que Carolina defendia precisar “ser dirigido por uma pessoa que já passou fome”, está presente, de forma a um só tempo teórica e espiritualizada, na trajetória de Sueli Carneiro, intelectual pioneira na luta contra o racismo no País. Sueli, doutora em educação pela Universidade de São Paulo e fundadora do Geledés, o Instituto da Mulher Negra, defende, desde os anos 1970, que o Estado brasileiro provê para a população branca a vida e para a população negra, a morte.

 

Outro olhar. No novo retrato da autora de Quarto de Despejo, Antonio Obá desfaz o estereótipo da “favelada que escreve”

“A Sueli, a partir de Foucault, construiu uma teoria sobre os dispositivos de racialidade que justificam o racismo no Brasil, e expõe todos os nossos não ditos”, define Bianca, que é também autora da biografia Continuo Preta – A Vida de Sueli Carneiro, recentemente lançada. Apesar de serem centrais para a discussão do racismo no Brasil, as teses de Sueli são apenas pinceladas na Ocupação. A ideia da exposição parece ser, sobretudo, a de capturar, de forma mais ampla, a existência dessa mulher que ama as plantas e segue o candomblé.

No centro do espaço está uma árvore na qual, no lugar de folhas, há escamas de peixe. É ao redor dessa árvore que se desenrolam a vida e o pensamento de Sueli. “A Ocupação é a celebração e a popularização da Sueli”, diz Bianca.

 

Imaginários. Sueli Carneiro envolta em flores na Ocupação do Itaú Cultural

É por isso, mas não só por isso, que a cocuradora se emociona quando ouve a pergunta sobre o significado dessa conjunção de exposições nas três maiores instituições culturais da Avenida Paulista. Bianca explica a vontade de chorar pela lembrança da avó, que não trabalhou na Paulista, como ela mesma, mas no Edifício Martinelli, no Centro da cidade.

“Minha avó tinha muito orgulho de trabalhar no Martinelli, limpando os lustres. Nos fins de semana, a gente pegava o ônibus e ia até lá ver o prédio, do lado de fora”, recorda. Adolescente, como aluna do Liceu de Artes e Ofícios, Bianca voltou ao Martinelli para conhecer a arquitetura do prédio. Ficou sinceramente surpresa ao descobrir que não havia ali sombra da história da avó.

 

Imaginários. A obra de Maria Auxiliadora recentemente adquirida pelo Masp

“Essas presenças na Avenida Paulista me emocionam porque a história contada do Martinelli, ou dos casarões da Paulista, não passa pelos trabalhadores desses lugares. Você imagina quantas mulheres negras trabalharam nos casarões e depois nos prédios da Paulista?”, pergunta. “Mas essas pessoas não existem nem na história dos lugares nem no nosso imaginário. Por isso, celebrar essas mulheres é, para mim, celebrar a nossa ancestralidade.”

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1177 DE CARTACAPITAL, EM 30 DE SETEMBRO DE 2021.
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