CartaCapital
Senhor da guerra
O presidente dos EUA abandona o figurino de “promotor da paz”
Ilegal em todos os níveis possíveis, a guerra iniciada pelos EUA contra o Irã tem o potencial de ser o fato que vai definir a presidência de Donald Trump e a própria posição norte-americana no mundo. Ao violar a Constituição norte-americana por não ter pedido autorização do Congresso e em completo desrespeito à Carta das Nações Unidas, o republicano abriu o que pode ser o ato pelo qual seu mandato será lembrado.
Em termos domésticos, Trump gerou uma crise profunda em sua base mais radical, com a explosão de vozes ultraconservadoras alertando que a ofensiva vai na contramão de sua promessa de campanha de acabar com o envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”. O republicano, agora, terá de provar que não será um envolvimento militar como tantas outras guerras que ele mesmo criticou. Determinante, porém, será a duração do conflito.
A ausência ainda de uma resposta clara sobre os objetivos dos ataques também deixa os republicanos preocupados com o impacto nas eleições legislativas de novembro. Todas as primeiras pesquisas revelam que a maioria dos eleitores não quer a guerra. Entre os democratas, a taxa chega a 76%.
O governo Trump ainda não descobriu como convencer a opinião pública sobre o ataque ao Irã e o tempo está se esgotando. Por enquanto, o discurso é o da negação. O Irã não é o Iraque. O Irã não é uma guerra sem fim. O Irã não é uma guerra de escolha. Sua aposta mais arriscada é também um marco definidor de sua política externa. Nos primeiros meses do governo, Trump insistiu em um slogan, “a paz pela força”. Por meses, percorreu diferentes continentes fazendo ameaças para obter o que queria. Muitos cederam, outros negociaram. Mas, no Irã, o colapso do diálogo não resultou numa rendição imediata do regime dos aiatolás.
O conflito redesenha potencialmente a relação entre Pequim e Washington. Hoje, pelo Estreito de Ormuz passa 40% do petróleo que abastece o crescimento da economia chinesa. O fechamento dessa passagem estratégica e, eventualmente, um controle por parte dos EUA representam um abalo profundo no PIB chinês. Não por acaso, Pequim se apressou a emitir um alerta de que vai “proteger” seus interesses na região e fez um apelo para a preservação das rotas marítimas.
Para além da China, a decisão de Trump tem o condão de definir o destino da economia mundial. No centro da crise está justamente uma das rotas mais fundamentais do comércio globalizado. Em 2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo passaram pelo Estreito de Ormuz por dia, segundo estimativas da Administração de Informação Energética dos EUA. Pelo canal de apenas 55 quilômetros transitam quase duas vezes tudo o que o Brasil exporta por ano. Não se trata apenas da produção do Irã. Ali está o caminho para escoar os produtos vendidos por Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Fechar o Estreito significa bloquear 3 mil navios que trafegam pela área mensalmente. A produção agrícola global, inclusive a brasileira, também depende do trajeto por Ormuz. O fertilizante nitrogenado, produzido a partir do gás natural, transformou-se num dos produtos mais estratégicos para metade da produção mundial de alimentos. O Oriente Médio representa hoje entre 40% e 50% do abastecimento desse fertilizante e quase todas as exportações precisam transitar pelo Estreito. Se o petróleo é a artéria da economia global, Ormuz pode ser crítico para o combate à fome no mundo.
A base republicana está insatisfeita e a maioria dos eleitores do país é contra os ataques ao Irã
A decisão de Trump ainda coloca a Europa numa encruzilhada. Rapidamente, Alemanha e França anunciaram apoio irrestrito aos ataques contra Teerã. A opção da Espanha de se negar, no entanto, a emprestar suas bases para aviões norte-americanos instalou um mal-estar. O presidente dos EUA ameaça suspender o comércio com os espanhóis, donos da quarta maior economia da Europa. O ato é ilegal, segundo as regras internacionais do comércio, e poderiam ser questionadas na Organização Mundial do Comércio. Mas não há nada, nem nas leis ou nas instituições, capaz de deter o “imperador”. O Irã, portanto, testará a Europa e sua posição no mundo, assim como o que ainda resta do direito internacional.
O que ninguém sabe dizer é o desfecho do conflito. Os primeiros sinais apontam que os planos não saíram exatamente como se esperava e Trump passou a preparar a opinião pública dos EUA para um conflito que pode se prolongar, inclusive com a morte de soldados norte-americanos. Ao fazer emergir pesadelos do passado, as imagens de consulados e embaixadas em chamas pela região revelam que a ideia de infalibilidade é apenas mais um dos mitos cultivados pela Casa Branca. Os milhares de norte-americanos presos em Dubai ou em Doha também servem de alerta para os riscos da decisão, assim como a dificuldade em se estabelecer um controle sobre o Estreito de Ormuz.
Em 2002, durante a Guerra do Golfo, quase 30 milhões de panfletos foram despejados por aviões dos EUA sobre a população iraquiana. Neles, Washington pedia que o povo rompesse com Saddam Hussein, numa campanha psicológica destinada a desestabilizar e derrotar as forças opositoras. Eram “armas de persuasão em massa”. Ao longo dos meses seguintes, iraquianos ainda viram cair dos céus “passes de rendição”, alguns dos quais foram desenhados como notas de 25 dinares coloridas para atrair a atenção dos soldados. No Afeganistão, panfletos do tamanho de notas de dólar anunciavam uma recompensa de 5 milhões por informações sobre a localização de líderes talibãs e aliados da Al-Qaeda. Vinte anos depois, a mensagem aos iranianos não chegou por papéis atirados de aviões, mas pelas redes sociais, com o apelo à população para tomar as ruas e depor o próprio governo. Sem sucesso até o momento.
Na Casa Branca, os fracassos no Iraque, Afeganistão e Vietnã assombram mediadores, militares e assessores, profundamente frustrados diante da incapacidade de convencer Trump a respeito dos riscos do novo conflito. Todos sabem que uma declaração de guerra é a declaração de que a “realidade” agora está oficialmente “em jogo”. Assim como o mandato do republicano. •
Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Senhor da guerra’
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