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O manifesto tecnofascista da Palantir e os novos senhores da guerra

Uma das empresas tech mais influentes no governo de Donald Trump acaba de anunciar uma nova Guerra Fria movida por IAs. Estaremos com eles nesse trem desgovernado?

O manifesto tecnofascista da Palantir e os novos senhores da guerra
O manifesto tecnofascista da Palantir e os novos senhores da guerra
Alex Karp, CEO da Palantir, fala durante o DealBook Summit do New York Times, em Nova York (3.dez.2025) (Foto: Michael M. Santiago/Getty Images/AFP)
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Na última coluna, levantei uma questão ainda não resolvida sobre qual seria, afinal, um modelo sustentável para a indústria da IA que fizesse jus ao tamanho da aposta e do capital fictício já injetado num novo tipo de bolha cujas reais consequências só conheceremos na prática. Naquele texto, destaquei um cenário possível, entrevisto em enunciados recentes de Sam Altman, no sentido de produzir demanda por inteligência sintética através do downgrading ou “emburrecimento” dos usuários humanos.

Mencionei de passagem uma estratégia paralela, de atrelar cada vez mais o destino dessa indústria com o da própria hegemonia global dos EUA, fazendo da bolha das IAs “grande demais para estourar”. Mas ainda que essa indústria se torne um pilar existencial da economia e da política norte-americana, a bolha não só não irá desaparecer, como continuará crescendo. Como ela seria, afinal, consumida?

Em postagem recente na rede social X, a Palantir, empresa de IA, dados e vigilância altamente influente no segundo governo de Donald Trump, sugere a retomada de uma solução clássica para esse tipo de impasse: a guerra. A relação entre guerra e rápida ascensão tecnológica foi desenvolvida por Walter Benjamin numa resenha de 1930 sobre o militar alemão pioneiro do pensamento aceleracionista, Ernst Jünger. Vislumbrando sinais de uma nova guerra no horizonte, Benjamin associou a escalada bélico à “lacuna entre o poder gigantesco da tecnologia e a iluminação moral mínima que ela traz”. Entendida como uma insurgência da técnica, a guerra possibilita destruir infraestruturas pregressas para abrir espaço para novas tecnologias, ainda que sem uso social enraizado.

O manifesto da Palantir parece apontar exatamente nessa direção – inclusive pelo espectro do fascismo ascendente característico do momento em que Benjamin e Jünger escreviam. O texto traz uma síntese dos argumentos de um livro recente publicado pelo CEO Alex Karp e outro executivo da empresa, Nicholas Zamiska, A República Tecnológica. Redigida no melhor estilo chatbot – argumentos em lista, retórica persuasiva e pouca substância –, a postagem traz um diagnóstico fatalista da atual conjuntura histórica, avançando propostas condizentes com o aceleracionismo neoreacionário do fundador da Palantir, Peter Thiel.

Anunciando o fim do soft power e a aurora de uma geopolítica da guerra permanente, o manifesto encoraja os Estados Unidos a reinstituírem o alistamento obrigatório, e Alemanha e Japão a superarem a “castração” militar implementada após a Segunda Guerra. Segundo eles, o Ocidente não pode se furtar a escalar sua infraestrutura tecnológica de guerra, pois seus “adversários” o farão. Na estrutura de dissuasão nessa nova Guerra Fria, saem as ogivas nucleares, entram as IAs – e o poder de controle e decisão passa dos humanos para as máquinas.

Nos últimos dos 22 pontos, o manifesto assume tons mais sombrios, de cunho abertamente antidemocrático e, no limite, neofascista. Queixando-se do escrutínio que sofrem figuras públicas (no caso, eles) e da “intolerância religiosa” por parte das elites políticas ocidentais (uma provável referência ao nacionalismo cristão), conclui afirmando que “algumas culturas” (adivinhem quais) produzem avanços e maravilhas, enquanto outras teriam permanecido “disfuncionais e regressivas”. No fim, conclamam à resistência contra “a tentação rasa de um pluralismo vazio” em prol do fortalecimento das “culturas nacionais”.

O manifesto é mais um passo em direção à radicalização das big techs, já expressa nas posições pessoais de grandes oligarcas como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos. Mas o fundador da Palantir, Peter Thiel, foi pioneiro. Apoiador de Donald Trump já em sua primeira eleição, momento em que a maioria ainda hesitava, defende há décadas a incompatibilidade entre liberdade e democracia, bem como a substituição de suas instituições por meios tecnológicos. Adepto de ideologias transumanistas, Thiel tem, recentemente, rodado o mundo proferindo palestras secretas sobre o Anticristo bíblico, associando-o a figuras como Greta Thunberg e, no limite, qualquer um que se oponha à expansão irrefreável das IAs.

A recusa de qualquer contraponto e controle sobre suas ações, assim como de qualquer tipo de responsabilização (que é então delegada para as máquinas e para os “adversários”), levanta uma enorme bandeira vermelha que deveria preocupar a todos, pois tratam-se de padrões típicos de espirais de radicalização. O ponto final de todo e qualquer processo desse tipo é um descontrole em direção à violência extrema contra outros, mas também auto-infligida, como ocorreu com o nazi-fascismo nos anos 1940.

Thiel e os novos senhores da guerra pretendem nos arrastar a todos para conflitos que eles estão fantasiando e incitando, buscando acomodar uma monstruosa bolha tecnológica que eles inflaram enquanto faturavam bilhões, para viabilizar uma tecnologia que ninguém pediu. Na mitologia de Senhor dos Anéis, palantír foi o nome dado por Tolkien para esferas de cristal capazes de ver o passado e o futuro, e comunicar via longas distâncias. Elas podiam, contudo, ser manipuladas por agentes poderosos, como fez Sauron na escalada da guerra pelo anel.

Thiel, Karp e outros têm plena consciência do papel que eles desempenham nessa saga, enquanto muitos de nós continuam sendo levados por suas ficções como se fossem realidade.

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