CartaCapital
Globo protagoniza mais um vexame em entrevista com Lula
Renata Vasconcelos e César Tralli participaram de ação eleitoral da emissora
Não é preciso ser um especialista em comunicação para concluir que a entrevista do presidente Lula, candidato à reeleição, pelo Jornal Nacional, é pura ação eleitoral da TV Globo. Está na cara. É um padrão.
As tentativas de manipulação da opinião pública por essa empresa de comunicação se repetem a cada eleição. É quando também a emissora expõe, ao vivo e a cores, a adesão incondicional exigida dos seus profissionais às escolhas políticas da empresa. E a submissão deles a elas – com o prejuízo da imparcialidade desejada numa programação destinada a apresentar todos os candidatos presidenciais ao seu público.
Na quinta-feira 27, os apresentadores César Tralli e Renata Vasconcelos emprestaram seus rostos e suas indignações ensaiadas a uma ofensiva da empresa para a qual trabalham contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva – que, queiram ou não, é o maior estadista brasileiro desse século; desejem ou não, um presidente da República com mandato conferido pela maioria absoluta da população em 2022, portanto digno de algum respeito.
Numa entrevista que pareceu uma inquirição, ficou tão evidente a superioridade de Lula em relação aos outros candidatos de um dígito nas pesquisas entrevistados anteriormente, e em relação aos próprios entrevistadores, que fica difícil escolher se o mais constrangedor foi o desconhecimento de ambos em relação aos temas levantados ou o esforço, quase uma disputa entre eles, de mostrar quem seria mais ofensivo ao entrevistado. Não raro, não era apenas um deles batendo boca com o presidente, mas os dois, em coro.
Para um profissional de imprensa, é uma vergonha alheia assistir a uma entrevista em que dois jornalistas-apresentadores, César Tralli e Renata Vasconcelos, competem pela palavra de agravo ao entrevistado, para mostrar ao patrão quem presta o melhor serviço à escolha eleitoral da emissora que os emprega; em que ambos, claramente, estão cumprindo a ordem de tentar acuar o entrevistado e discutem com ele, ao invés de perguntar; onde é evidente o pouco preparo e a débil consistência intelectual para realizar essa tarefa.
É uma vergonha maior ainda a má-fé. Junto à superficialidade, ambas têm acompanhado um número cada vez maior de jornalistas da emissora que se referem, por exemplo, às denúncias fabricadas pelo então juiz de primeira instância Sérgio Moro, na Operação Lava Jato – que reinou na mídia entre 2015 e 2020 – como acusações comprovadas. O Supremo Tribunal Federal inocentou Lula de todas elas.
Para alguns de seus profissionais – aliás, os mais exaltados quando falam do presidente – a decisão do STF não foi quanto ao mérito das acusações, mas à tecnicidade dos processos julgados em primeira instância. É mentira. Lula foi inocentado. Nada se provou contra ele.
Os dois apresentadores do Jornal Nacional seguiram a trilha de Malu Gaspar, a jornalista que, até hoje, arrola denúncias fabricadas pela força-tarefa de Curitiba como se fossem a palavra final da Justiça. A colunista deve guardar o Power Point de Deltan Dallagnol na sua mesa de cabeceira.
Nem todos foram dóceis
O jornalista Francisco Wianey Pinheiro, o “Pinheirinho”, faleceu em 2 de junho último. Armando Nogueira se foi em 2010. Vejam bem, aqui ninguém mudou de assunto. Ambos tiveram um papel muito importante na profissionalização do jornalismo da Globo, e nem por isso jogaram fora a ética profissional. Foram o lado bom da força no segundo episódio de tentativa de manipulação da política pela TV Globo.
O primeiro foi em 1982, quando a população escolhia pelo voto direto, pela primeira vez desde o início da ditadura de 1964, os governadores de Estado. A Globo embarcou na divulgação de uma apuração de votos manipulada pela empresa Proconsult, do Rio, criada por militares para contar os votos nulos como votos para Moreira Franco, o candidato que rivalizava com Leonel Brizola.
A rádio Jornal do Brasil bancou uma apuração paralela, a fraude foi exposta à luz do dia e foi feita uma recontagem. Brizola, o então inimigo número um dos militares que teimavam em não deixar o poder, foi consagrado vencedor. A Globo teve que recuar e pedir desculpas.
O segundo episódio foi uma ação que se tornou pública, porque Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, e Pinheirinho, então editor do Jornal Hoje, a trouxeram a público.
Nas primeiras eleições presidenciais do Brasil pós-ditadura, em 1989, Pinheirinho foi o responsável por editar o debate entre os dois candidatos ao segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello, para o Jornal Hoje, da TV Globo. A edição que foi ao ar à tarde, cuidadosíssima, deu tempo milimetricamente cronometrado aos dois candidatos, e espaço para os melhores e piores momentos de ambos no debate.
Entre as 13h30, hora em que foi encerrado o jornal, e as 19h30, horário de fechamento do Jornal Nacional, a ilha de edição teve um movimento inusitado. O editor de Política, Ronald Carvalho, saia e voltava com novas ordens de alterações na edição feita por Pinheirinho, até tornar a segunda versão da matéria sobre o debate uma peça publicitária do candidato Collor. Francisco Tabasco, que fez a edição das imagens, relatou posteriormente que o trabalho não era apenas de cortar tempo de Lula, mas tinha “substituição de respostas”, “tirar uma resposta e deixar outra”.
O interessante da história é que Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, acusou, de público, um dos diretores da Globo, Alberico de Souza Cruz, e Ronald Carvalho, editor de Política, de ter deformado a edição feita por Pinheirinho, e que isso teria sido feito à sua revelia. Mais tarde, o editor Octavio Tostes, que executou as ordens, contou que Carvalho deu ordens expressas a ele para fazer uma edição “com o pior de Lula e o melhor de Collor”.
“Não havia da parte de Ronald e do Alberico qualquer preocupação com a isenção (…). Eu fiz a edição seguindo as ordens dele [Ronald] e Alberico. A edição manchou a história da Globo e, em escala menor, mas gravíssima no plano individual, é uma nódoa na minha carreira”.
As declarações em aspas foram retiradas do artigo “A mais polêmica edição do Jornal Nacional”, de Alexander Goulart, publicada pelo Observatório da Imprensa em 19 de fevereiro de 2008.
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