Escolaridade e voto: o retorno de uma velha falácia

A relação entre escolaridade e preferência eleitoral precisa ser destronada dos reinos das mistificações

Escolaridade e voto: o retorno de uma velha falácia

CartaCapital

Tenho assistido à repercussão de uma sondagem de intenções de voto que remete a uma curiosa e antiga polêmica que precisa ser destronada dos reinos das mistificações: a relação entre escolaridade e predileção eleitoral. Ou, como prefere a maioria, entre educação e voto.

Isto porque, segundo pesquisa da empresa Quaest publicada nesta semana, a preferência por Jair Bolsonaro cresce conforme o nível de escolaridade do eleitorado aumenta. Do fundamental incompleto para o superior completo, o atual presidente salta de 17% para 33% das intenções de voto para 2022, ainda que perca em todas as faixas de escolaridade para  Lula .

Em 2018, segundo dados de pequisas do Eseb organizados por Jairo Nicolau em seu livro O Brasil Dobrou à Direita, a coisa foi ainda mais expressiva: embora Jair Bolsonaro tenha conquistado a predileção dos eleitores nos três níveis de escolaridade (fundamental, médio e superior), a menor discrepância entre ele e seu adversário Fernando Haddad se deu, justamente, no nível de menor escolaridade. Nadou de braçada entre eleitores com ensino médio e superior, tendo alcançado, neste último nível, 60% dos votos no segundo turno.

Por mais que existam contatos e influências mútuas, política e educação são coisas distintas

Qual o diagnóstico comum? O de que temos, flagrantemente, um problema com a educação que afeta o voto. Fosse ela de melhor qualidade, um sujeito como Jair Bolsonaro nunca seria eleito. Muito menos deveria crescer em apoio para 2022 conforme o nível de escolaridade do eleitorado aumenta. Não há dúvidas de que os bolsonaristas também possuem uma versão parecida do mesmo diagnóstico. Algo como: se a educação brasileira prestasse, Lula nunca estaria desbancando o capitão para a próxima eleição. E vejam o paradoxo: a educação no Brasil só piorou (e muito!) desde 2018. Os antibolsonaristas, então, deveriam ceder, por força da lógica de seu diagnóstico, à versão bolsonarista, certo? Afinal, Lula tem amplo favoritismo, arranhando o céu das intenções de voto.

O problema está no fato de que esses diagnósticos partem de uma premissa equivocada: a de que se a educação dos outros (sempre eles) fosse melhor, suas visões de mundo, prioridades, crenças, valores e, claro, predileções eleitorais, seriam, se não idênticos ou similares aos meus, ao menos compatíveis. Sustentados por uma premissa falsa, esses diagnósticos servem tanto para compreender a realidade quanto a cloroquina serve para tratar a Covid-19.

Não se trata aqui de reduzir a importância da formação educacional. Ao contrário. Trata-se de fazer distinções necessárias para que a educação não se converta, ainda mais, num hocus pocus que sempre é acionado para explicar opiniões, escolhas e comportamentos divergentes dos nossos. Por mais que existam contatos e influências mútuas, política e educação são coisas distintas.

Conceber uma ideia de que a educação é ou deveria ser vetor de direcionamento ideológico que descamba em certas escolhas eleitorais e desviam de outras é dar à condição da formação escolar um caráter proselitista e não de emancipação da liberdade de consciência, do livre pensar.  Não é exatamente nisto que o olavismo do bolsonarismo pretende converter a educação? Acusar doutrinação justamente para poder doutrinar?

Altos ou baixos níveis de escolaridade não determinam o voto em Jair Bolsonaro ou em Lula, nem o apoio ao fascismo ou à democracia, muito menos à defesa dos Direitos Humanos ou ao combate às desigualdades sociais. Muito menos ainda determinada os níveis de adesão aos fatos objetivos, demonstrações e evidências científicas. Os exemplos estão à disposição de qualquer um à distância de uma ou duas pesquisas básicas no Google no contexto da pandemia ou fora dela.

Educação não é uma varinha de condão que faz a política ser o que queremos e dar os resultados que almejamos, incluindo os resultados eleitorais. Educação pode dar “a régua e o compasso”, mas as linhas e formas que serão produzidas por quem manipula esses instrumentos variam num quase infinito de variáveis em que a escolaridade passa a largo de ser uma determinante.

 

Escolhas políticas e eleitorais são complexas e  envolvem muitas variáveis, mas  são gestadas num só campo: não é o da educação, mas o da política. Não são estáticas, mas dinâmicas. Trata-se das visões de mundo, opiniões, convicções e inclinações ideológicas, preferências partidárias, senso de prioridades e cálculos pragmáticos que são construídos, mantidos ou modificados, independentemente do nível de escolaridade do eleitor. Trata-se da disputa por “mentes e corações” por meio do convencimento e da persuasão. Da organização e do engajamento.

Alguns podem questionar essas considerações para argumentar a favor da tese de que o nível de escolaridade aumenta conforme a renda e, logo, a expressão do voto por nível educacional seria uma expressão de classe. No entanto, independentemente dessa verdade inquestionável e de nosso sistema velado de castas, percebam que se isso fosse verdadeiro, Jair Bolsonaro nunca teria sido eleito em 2018, afinal, ganhou em todos os níveis de educação. Outra verdade inquestionável.

Se estivesse escrevendo essa coluna, provavelmente o ex-assessor de Bill Clinton terminaria esse texto escrevendo: It’s politics, stupid!

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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