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Direita se une para tentar evitar vitória do MAS na Bolívia

Cresce o temor de fraude e repressão às vésperas da votação de domingo

Arce
Arce, apontam pesquisas, tem chance de ganhar no domingo 18. Foto: Redes Sociais Arce, apontam pesquisas, tem chance de ganhar no domingo 18. Foto: Redes Sociais
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Após sucessivos adiamentos, a eleição presidencial na Bolívia acontecerá, tudo indica, neste domingo 18. Desde o golpe que derrubou o então presidente Evo Morales em novembro do ano passado e anulou os resultados das urnas, o país mergulhou em profunda instabilidade social, crise sanitária e perdas econômicas, cenário que coloca novamente o Movimento ao Socialismo, representado pelo economista Luis Arce, ministro da Economia do governo Morales, em vantagem nas pesquisas. Algumas delas indicam a possibilidade de uma vitória de Arce no primeiro turno.

 

Na primeira eleição em mais de 20 anos sem a presença de Morales, refugiado na Argentina e impedido pela justiça eleitoral de disputar uma vaga ao Senado, os bolivianos encaram clima inédito de apreensão em relação ao desfecho da apuração. “Não é uma campanha em condições democráticas, há um golpe de Estado prolongado e pode haver fraude. O governo ameaçou reprimir quem contestar o resultado e fascistas paramilitares se rearmaram. A radicalização do grupo da presidente Jeanine Áñez e dos candidatos Carlos Mesa e Fernando Camacho nos trouxe a essa situação”, afirma o analista político Gabriel Villalba.

Lideranças do MAS e de movimentos sociais concordam com a análise e solicitaram a presença de observadores e organizações internacionais a fim de exigir transparência no processo eleitoral. A jornalista brasileira Vanessa Oliveira fará parte de uma missão composta por comunicadores de vários países da América Latina e Europa que acompanharão a votação em três cidades: La Paz, Santa Cruz e Cochabamba. “A Bolívia vive momentos de grande violência objetiva e política. A preocupação não é apenas com o clima no dia da votação, mas com a transparência da apuração dos votos. Há poucos dias das eleições, o presidente do tribunal eleitoral anunciou que as sessões não enviarão mais fotos com os resultados, como era feito. Além disso, um toque de recolher foi imposto para alguns dias após a eleição. Ambas as decisões têm sido vistas como prenúncio de fraudes e tendem a ampliar a tensão no dia 18”, diz a brasileira.

A Bolívia vive momentos de grande violência objetiva e política. A preocupação não é apenas com o clima no dia da votação, mas com a transparência da apuração dos votos, diz a jornalista brasileira Vanessa Oliveira

Apesar da gravidade do momento, os atos de campanha liderados por “Lucho”, apelido de Arce, impressionam pela magnitude, mesmo em locais antimasistas como Santa Cruz, cidade escolhida para o lançamento da candidatura. A prefeita de Vinto, Patricia Arce, cuja imagem percorreu o mundo ao ser vítima de violência de grupos extremistas durante o golpe contra Morales, concorre a uma vaga ao Senado por Cochabamba, numa direta demonstração da resistência encarnada pelo campo popular. “Muita coisa mudou na Bolívia desde a primeira vez em que Evo assumiu em 2006. Quinhentos anos de repressão não se modificam em 15, 20 anos, mas havia um caminho de conquistas de direitos, interrompido para que o projeto de um Estado plurinacional não vingue”, analisa Moema Viezzer, escritora do célebre livro Se Me Deixam Falar, no qual a líder mineira Domitila Chungara relata sua trajetória de vida. 

Até pouco antes da metade do ano, quem mais preocupava o ex-presidente Carlos Mesa não era Arce, mas Áñez, presidente autoproclamada que aparecia como opção do eleitorado de oposição a Morales. A má gestão durante a pandemia, com sucessivas trocas de ministros e falta de equipamentos e testes, além de reiteradas denúncias de corrupção em compras estatais, derrubaram as chances da senadora. Até 13 de outubro, a Bolívia contava 8.351 mortes e 139 mil contágios por coronavírus.

A queda na avaliação somou-se à pressão política e aos bloqueios que paralisaram o país por dias durante o mês de agosto, exigindo a realização das eleições e desistência de Áñez, confirmada em setembro. “A culpa pelo que aconteceu na pandemia cabe aos ex-governantes que foram incompetentes para implementar um sistema único de saúde, não a Áñez. Entretanto, ficou insustentável manter a candidatura e o jeito agora é apostar em Mesa”, resigna-se Abigail Brito, que migrará seu voto para o concorrente com mais possibilidade de evitar o retorno do MAS.

Outro a desistir da eleição na reta final foi o ex-presidente Tuto Quiroga. O voto anti-MAS unificado é a esperança de Mesa de levar a disputa ao segundo turno e tentar derrotar Arce. Para tanto, ele precisa que o ex-ministro de Morales não alcance 50% dos votos nem some 40%, com vantagem de 10 pontos porcentuais sobre o segundo colocado. Uma das estratégias tem sido plantar supostas acusações de corrupção contra o ex-presidente e o MAS. Não só. Correu pelo país uma acusação de pedofilia contra Morales. Arce, por sua vez, fia-se em quase duas décadas de “milagre econômico”, quando a Bolívia cresceu em média 5% ao ano.

O empresário Fernando Camacho, versão boliviana de Luciano Hang, não se somou aos esforços da direita. Camacho, o “Macho”, apela ao reacionarismo religioso para superar Mesa e disputar com Arce no segundo turno. Herdeiro de uma família influente, tornou-se figura nacional ao negociar com policiais e setores do Exército a derrubar Morales. Quando o golpe se consumou, “Macho” entrou no Palácio Quemados, em La Paz, com uma bíblia nas mãos. “Camacho ainda precisa comer muita poeira na política, seria surpreendente se chegasse a um segundo turno. Sua rejeição em regiões como Oruro e El Alto é altíssima. A maioria o considera racista. Mesa, embora essencialmente igual em termos de propostas e ideologia, apresenta-se como um moderado”, compara o estudante Wilder Sandin.

A pressão dos EUA também pesa. E vem de outras fontes além de Washington. De olho na exploração do lítio, recurso estratégico para a indústria de tecnologia, o bilionário Elon Musk afirmou sem pudores estar pronto para financiar quantos golpes forem necessários na Bolívia para ter acesso às abundantes reservas do país. 

Há pouco menos de um ano, a Bolívia trocava uma década e meia de estabilidade por um cenário de crise com a expansão de grupos paramilitares que perseguem dirigentes políticos, autoridades e integrantes do Judiciário considerados “comunistas”.  Em 2019, o voto do boliviano literalmente virou cinza. A chama golpista ainda não se apagou.

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