CartaCapital
Diplomacia/ Refúgio de golpistas
Os EUA expulsam o delegado da PF que atuou na prisão de Ramagem
Condenado a 16 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, Alexandre Ramagem não foi detido nos EUA por acaso, por uma “infração leve de trânsito”, como alardeou o influenciador bolsonarista Paulo Figueiredo. Conforme a Polícia Federal havia informado desde o início, houve, de fato, uma “cooperação policial internacional” para a prisão do ex-deputado foragido. O governo Trump agora alega, porém, ter sido induzido ao erro pelo delegado Marcelo Ivo de Carvalho, adido da corporação brasileira em Miami.
Em um comunicado divulgado pelo Departamento de Estado, o governo norte-americano alegou que o oficial brasileiro tentou “manipular” o sistema de imigração, “contornando pedidos formais de extradição” e “estendendo perseguições políticas ao território dos EUA”. O delegado, que atuava como oficial de ligação no Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE), foi expulso do país e será substituído por Tatiana Alves Torres.
Na terça-feira 21, durante uma viagem oficial à Alemanha, o presidente Lula disse que estava se inteirando sobre o episódio, mas não descartava uma retaliação: “Se houve um abuso norte-americano com relação ao nosso policial, vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil. Não tem conversa”. No dia seguinte, a promessa foi cumprida. Por “reciprocidade”, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, retirou as credenciais diplomáticas de um agente de imigração dos EUA que atua no Brasil.
Fantoche bolsonarista
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, enviou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República e ao gabinete do colega Alexandre de Moraes contra Romeu Zema, pedindo sua inclusão no inquérito das fake news. A medida ocorre após o ex-governador mineiro, pré-candidato do Novo à Presidência da República, publicar um vídeo com fantoches insinuando favorecimento ao ministro Dias Toffoli em troca de hospedagem no resort Tayayá, que pertenceu à família do magistrado e foi vendido a uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, do Banco Master. Zema conseguiu o que queria: apenas na terça-feira 21, ganhou 100 mil seguidores no Instagram e reativou a mobilização bolsonarista contra o STF. Mais difícil será convencer esse novo público de que ele, não Flávio Bolsonaro, é o melhor nome para representar a extrema-direita nas eleições deste ano.
Rio de Janeiro/ Nas mãos do Supremo
Douglas Ruas vai comandar a Alerj, e governo segue sub judicE
O deputado representará o campo bolsonarista no pleito de outubro – Imagem: Thiago Lontra/Alerj
O deputado estadual Douglas Ruas (PL) foi eleito, na sexta-feira 17, para presidir a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Foram 44 votos favoráveis e uma abstenção, enquanto outros 25 parlamentares se retiraram da sessão em protesto. Em sua maioria aliados ao ex-prefeito Eduardo Paes, pré-candidato ao governo fluminense e provável adversário de Ruas em outubro, eles se opunham ao voto aberto, previsto no regimento da Alerj.
O comando do Palácio da Guanabara continua, porém, sub judice. Embora Ruas tenha ingressado formalmente na linha sucessória, o Supremo Tribunal Federal determinou a permanência do desembargador Ricardo Couto, presidente do Tribunal de Justiça do Rio, como governador interino até a realização da eleição suplementar para o chamado “governo-tampão”, cujas regras ainda não foram definidas pela Corte.
O julgamento foi interrompido em 9 de abril por um pedido de vista de Flávio Dino, quando o placar registrava 4 votos favoráveis e 1 contrário a uma eleição indireta. Outros cinco ministros devem votar. Para tornar o cenário ainda mais incerto, o PDT ingressou com outra ação no STF para anular a escolha do novo presidente da Alerj. A sigla pede um novo pleito, desta vez com voto secreto.
Irã/ Cala a boca, Magda
O regime dos aiatolás zomba dos recuos de Donald Trump
Na guerra do bullying, o presidente dos EUA é o maior perdedor – Imagem: Redes Sociais
Anda cada vez mais difícil encontrar alguém no planeta que leve a sério as ameaças de Donald Trump. Na quarta-feira 22, após o presidente dos Estados Unidos anunciar uma extensão unilateral do cessar-fogo, o Irã divulgou um vídeo produzido por meio de Inteligência Artificial que termina com a seguinte mensagem: “Trump, shut up”. O regime dos aiatolás ainda não decidiu se voltará às mesas de negociação com os Estados Unidos intermediadas pelo Paquistão. A “guerra fria” no Estreito de Ormuz continua. Navios norte-americanos continuam a bloquear a saída, enquanto os iranianos anunciam a captura de embarcações na região. Enquanto isso, a popularidade do republicano continua no fundo do poço. Segundo a mais recente pesquisa Reuters/Ipsos, 62% dos norte-americanos desaprovam o desempenho de Trump. E só 26% o consideram um indivíduo “equilibrado”. Os ataques ao Irã e ao papa Leão XIV provocam rachas na base do MAGA. O apresentador Tucker Carlson, antigo entusiasta, penitenciou-se por apoiar o magnata. “Peço desculpas por ter enganado as pessoas. Não foi intencional.”
Cigarro proibido
O Parlamento britânico acaba de tomar uma decisão extrema e inédita. Os deputados aprovaram uma lei para proibir, de forma permanente, a venda de tabaco e cigarros eletrônicos para nascidos a partir de 2008. A intenção é criar uma regra de transição e estimular o surgimento de “uma geração livre do cigarro”. Por ano, o serviço nacional de saúde gasta 3 bilhões de libras, o equivalente a em torno de 19 bilhões de reais, com o tratamento de males derivados do fumo. São 400 mil internações e 64 mil mortes. A entrada em vigor depende da sanção do rei Charles III.
Peru/ Decisão no tapetão
Adversário de Fujimori no segundo turno só será conhecido em maio
Aliaga denuncia “fraude”. Sánchez é a esperança da esquerda do país – Imagem: Ernesto Benavides/AFP
Ex-prefeito de Lima, apelidado de “Bolsonaro peruano”, Rafael López Aliaga estava certo de que seria o adversário de Keiko Fujimori no segundo turno, marcado para 7 de junho. Até agora, as urnas teimam, no entanto, em contrariá-lo. Em uma eleição cuja lentidão da apuração espanta, o candidato de esquerda, Roberto Sánchez, ex-ministro do presidente deposto e preso Pedro Castillo, leva uma ligeira vantagem, cerca de 14 mil votos, sobre Aliaga. Fujimori, herdeira do pai ditador, alcançou 17% e garantiu sua vaga na próxima volta. Inconformado com o resultado, o ex-prefeito da capital apelou ao falso argumento comum aos perdedores da extrema-direita. Aliaga “denuncia” suposta fraude na contagem e chegou até a oferecer uma recompensa para quem trouxesse provas do roubo. A autoridade eleitoral, pressionada, decidiu então reanalisar cerca de 15 mil atas contestadas, trabalho a ser concluído, se nada mais atrapalhar, em meados do próximo mês. A disputa presidencial peruana registrou um recorde de candidaturas: 35.
Publicado na edição n° 1410 de CartaCapital, em 29 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A Semana’
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