Gaia, ano 6.500 d.P.: a destruição como ‘criação’

Ecofeminismo alertam para a destruição do patriarcado ao ecossistema do planeta, que agoniza

Pantanal. Foto: Christiano Antonucci – Secom – MT

Pantanal. Foto: Christiano Antonucci – Secom – MT

Justiça,Sororidade em Pauta

Dizem que instantes antes de morrermos assistimos a toda a nossa vida como a um filme transmitido em ‘flashes’. Fiquei me perguntando a que filme nossa Mãe Terra, que agoniza, estará assistindo nesse momento.

O filme, que tem 13,7 bilhões de anos de duração, por certo, não poderia ser resumido nessas poucas linhas, mas acho que não faltariam as seguintes cenas:

BigBan. Formação da Terra. Surgimento da vida primordial. Bactérias começam a produzir oxigênio: o início da fotossíntese. Acumulação de oxigênio na atmosfera e início dos sumidouros químicos, notadamente de ferro e carbono há 2,3 bilhões de anos. Explosão cambriana da biodiversidade. Extinção dos dinossauros. Primeiros hominídeos há 2 milhões de anos. Controle do fogo pelo homem. Surgimento da arte humana e o culto à deusa-mãe e à fertilidade. Vênus de Willendorf há 37 mil anos. Invenção da agricultura e domesticação de animais. Fundição dos metais.

Surge o homem guerreiro sobre cavalos, empunhando armas brancas: atacavam, saqueavam, matavam, escravizavam, dominavam os povos pacíficos e seus territórios: eis o início do patriarcado há aproximadamente 6,5 mil anos. Na mitologia clássica, o Deus do Sol Apolo mata Python, a dragão-fêmea que guardava o Templo de Delphos (ventre em grego) então santuário da Deusa Gaia, a Mãe-Terra há 4,5 mil anos. O filósofo Heráclito declara: “a guerra é o pai de todas as coisas” há 2,5 mil.

O Ano 0 (zero) dos homens ocidentais é marcado pelo nascimento do filho do “Pai” criador. Cruzadas, Inquisição, Caça às bruxas: estima-se que 100 mil mulheres foram queimadas por seus conhecimentos alquímicos, sobre as plantas e ervas medicinais. O Renascimento, o humanismo. Grandes navegações e conquistas inter-continentais de territórios, dominação de povos “selvagens não-civilizados”. Desmatamentos “além mar”. Escravidão institucionalizada. Iluminismo, nascedouro do capitalismo e da ciência moderna, sexista, racionalista, empírica, reducionista e mecanista, com Descartes e Bacon, “conhecimento é poder e dominação sobre a natureza” há 400 anos.

Revoluções Industrial e Francesa. Igualdade, liberdade, fraternidade, mas apenas para burgueses e homens. Maquinização da produção em massa. Divisão classista e sexual do trabalho. Invisibilização e aprofundamento da desvalorização dos trabalhos reprodutivos e de cuidado exercido por mulheres. Explosão demográfica. Desigualdades sociais crescentes. Surge a indústria do petróleo há 170 anos. Duas grandes guerras mundias. Criação de bombas atômicas. A Indústria química desenvolvida para a Segunda Guerra Mundial é amplamente utilizada na agricultura no pós-guerra há 70 anos. Globalização. Explode o desperdício e o consumo de energia e de produtos industriais supérfluos e descartáveis. A agricultura de monoculturas mecanizadas, à base de venenos químicos e organismos geneticamente modificados, com sementes privatizadas e estéreis, domina o planeta.

Hoje a Terra está com febre, já aqueceu 1ºC acima dos níveis pré-industriais. Entramos, por causas antrópicas, na oitava grande extinção em massa de espécies animais. A maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, está prestes a entrar em processo irreversível de savanização. O nível do mar está subindo. Eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Há uma saturação de resíduos plásticos e químicos por todo o planeta. As violências se multiplicam em todos os níveis. A superexploração ultrapassou os limites de resiliência da Mãe-Natureza. A concentração de renda é recorde e as desigualdades sociais são abissais. Todas as minorias contra-hegêmonicas ao patriarcado masculino, branco, rico, heterossexual e destruidor, são oprimidas e esmagadas: mulheres, negros e negras, indígenas, pobres, população LGBTQIA+, animais e a própria Terra, têm negados os seus direitos de existir, e de existir com dignidade.

Essa digressão panorâmica deixa bem claro que o tempo de Gaia não é o nosso, e que a dominação, a competição, a exploração, os binarismos com valores opostos e hierárquicos, bases estruturais do sistema de dominação patriarcal (mulher x homem; cultura x natureza; razão x emoção; corpo x espírito etc.) vêm se instrumentalizando e se sofisticando, durante a era patriarcal, através de seus catalisadores históricos e cumulativos: mitologia (a guerra pelo inconsciente coletivo), religião (a guerra pela crença), ciência moderna (a guerra pelo conhecimento e domínio da natureza) e capitalismo globalizado (a guerra por dinheiro).

Assim, ao invés de dividirmos a cronologia ocidental em “a.C.” e “d.C.”, seria mais adequado nomearmos em “a.P” e “d.P.” (antes e depois do patriarcalismo) cujo marco divisório é o surgimento do homem-guerreiro saqueador e dominador de povos, homens e mulheres pacífico(a)s e territórios. Este o marco histórico real que nos divide entre: pelo menos 30 mil anos de sociedades pacíficas cultuadoras à vida, ao sagrado imanente e corporificado ligado ao princípio feminino, à abundância, à fertilidade, à interconexão e à interdependência entre todos os seres e a natureza (a.P.) e, de outro, 6,5 mil anos de violência e culto à guerra, ao sagrado masculino coroado criador transcendental, à competição, à dominação, à escravidão, ao saqueio, à exploração, ao extrativismo, à fragmentação, aos binarismos, às hierarquias opressoras, à destruição como criação (d.P.).

Metade da população humana – formada pelas mulheres – não protagonizou esse pesadelo de Gaia dos anos “d.P”. Ao contrário, as mulheres foram vítimas centrais dessa estrutura opressora. E, enquanto os homens guerreavam, saqueavam, dominavam territórios, povos, raças, etnias, mulheres, animais, florestas, espécies não-humanas, minérios da Mãe Terra em larga escala…, as mulheres cuidavam de outros seres humanos, de animais, das sementes, da agricultura de subsistência, da natureza, da reprodução e manutenção da vida.

Assim, não importa se essencialistas, que reputam existir uma ligação imanente e essencial entre mulher e natureza, ou se construtivistasque reputam haver uma ligação socio-culturalmente construída entre mulher e natureza; o certo é que todas as ecofeministas alertam que 1º) o paradigma de dominação (seja da mulher, seja dos animais, seja da natureza, seja de quaisquer opressões) é sempre o mesmo: o patriarcado que se desenvolveu e se impôs, não por sua superioridade intelectual, mas na lógica e prática da violência, da competição e da guerra; e, 2º) Só o pensamento complexo, integral, multidimensional, multifuncional, cooperativo, coletivo, pautado na ética do cuidado valorizado, poderá salvar o planeta, e o ‘know how’ para isso quem desenvolveu  e manteve nos últimos 6.500 anos foram as mulheres.

A era geológica do antropoceno é, na verdade, a era do antropoandroceno. Sem as mulheres, não salvaremos o planeta.


Para saber mais: Aula “Ecofeminismo: o que é isso?”:

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É Juíza de Direito em São Vicente/SP e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia), de cujo Conselho de Administração foi Secretária entre 2011 e 2012. É Mestra em Direitos Difusos e Coletivos pela Universidade Metropolitana de Santos. É professora de Direito das Famílias e Direito Ambiental na Universidade Católica de Santos. É membra diretora da Aprodab-Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil e associada do IDPV-Instituto O Direito por um Planeta Verde. Sonha com a solidariedade, a igualdade e o respeito entre todos os seres viventes sobre a Terra, em harmonia, incluindo homens e mulheres, animais e a própria Gaia viva.

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