Feminismo para as 99%: uma homenagem ao dia de Teresa de Benguela

Feminismo somente será para 99% se for fundamentalmente antirracista

Marcha das Mulheres negras em Brasília. Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

Marcha das Mulheres negras em Brasília. Foto: Marcelo Casal Jr/Agência Brasil

CartaCapital,Justiça,Sororidade em Pauta

“(…) 

Dia vinte e cinco de julho

É o dia de lembrar

De Tereza de Benguela

Que heroína a reinar

Foi durante a sua vida

Sem jamais silenciar

Que exemplo inspirador

Que mulher tão imponente

Foi Tereza de Benguela

Uma deusa para a gente

Que até hoje não desiste

Dessa luta pertinente” 

– trecho do cordel Tereza de Benguela de Jarid Arraes

25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra! 

É meu dever advertir aos leitores, contudo, antes que iniciem a leitura desse texto, que não sou uma mulher de pele preta. 

Digo isso porque você pode se perguntar – e com toda a razão – o que faz uma mulher branca ocupando esse precioso lugar de fala no dia da mulher negra?

Relação colonial é aquela relação antagônica segundo a qual “[a] presença do outro me impede de ser totalmente eu mesmo. A relação não surge de identidades plenas, mas da impossibilidade da constituição das mesmas” (Laclau e Mou e, 1985, p. 125)

É preciso esclarecer, assim, que esta colunista, nem de longe, pretende ser a voz que intercede pelo colonizado a fim de que se lhe garanta sua identidade plena. Filia-mo, outrossim, a Spivak – que critica a intelectualidade que pretende falar em seu nome – e reverencio Lélia Gonzalez e Djamila Ribeiro (com o seu já clássico “O que é lugar de fala?”), quando dizem que as mulheres negras não aceitarão mais mediadores ou intervencionistas que falem por elas, mas que, sim!, elas escreverão a história em primeira pessoa. 

Mulheres negras durante o Movimento por Direitos Civis

E tomo consciência, antes do mais, de que “nenhum ato de resistência pode ocorrer  em nome do subalterno sem que esse ato seja imbricado no discurso hegemônico” (Almeida, 2010, p. 12). Subalterno é o termo tomado de empréstimo de Antonio Gramsci pelo movimento pós-colonialista para significar classe ou grupo desagregado e oprimido pelas classes dominantes, e por estas tornadas historicamente invisíveis  e cuja voz não pode ser ouvida.

Sou ciente, assim, de que sou uma mulher branca, loira, de olhos azuis, classe média, que viveu e cresceu com privilégios num Brasil ‘pós’-colonial, e que qualquer fala minha estará inexoravelmente imbricada no discurso hegemônico.

É muito difícil olhar para isso! Por comodismo que seja… ou por covardia mesmo. E é por isso mesmo que, corajosamente, permiti-me pedir licença, com muito respeito, para escrever nesse espaço nesse dia 25 de julho.

Porque o dia da mulher negra só poderá ser realmente comemorado quando todas as outras mulheres, não negras, reconhecerem suas responsabilidades, e estiverem dispostas a sangrar junto com elas na luta pela verdadeira igualdade.

Muito embora, devo admitir, esta colunista sempre tenha se entendido, quase ingenuamente, como uma “branca de alma negra” e já tenha ouvido isso de mulheres negras (com indisfarçável orgulho), começo, assim, por reconhecer que esse delírio é apenas mais uma das usurpações culturais, históricas e espirituais do sistema branquitude no qual estou mergulhada desde que nasci.

A verdadeira e única ‘inveja branca’ que existe! é aquela – que de positiva não tem nada – que os brancos têm da potência, da inteligência, da alegria, da força, da energia radiante e da beleza dos pretos, e que, muito provavelmente – estou certa disso, em verdade! -, está na base de toda a opressão e dominação exercidas pelas brancas e brancos recalcados por séculos. 

Fato é que hoje ocupo, em verdade, esse espaço por uma questão fatídica de agenda da coluna. Quando me dei conta, era meu dia de escrever, e esse dia era nada mais, nada menos, que 25 de julho! Um confesso descuido sintomático quase imperdoável das colunistas em não entregar, com antecedência, a coluna do dia 25 de julho à Sorora Karen Luise Vilanova Batista de Souza Pinheiro. Ótima oportunidade de olharmos também para isso!

São, ainda, tão poucas as juízas negras… No último censo do CNJ (2018)  entre as mulheres magistradas, apenas 1,5% se considerava preta e 12,7%, pardas

Entre as sororas, temos a Karen. E Elinay, esta que sempre nos conta o quanto resistiu para admitir que era uma mulher negra.

Hoje essa coluna é da Karen, da Elinay e de todas as mulheres negras. 

Não falo por elas (jamais teria essa pretensão). Hoje falo para elas, e em homenagem a elas. Comemoro suas existências com reverência e profunda admiração!

Em 03 de junho de 2019, a sorora JUÍZA e NEGRA Karen Luise publicou brilhante artigo para esta coluna intitulado “Além do Espelho, de mãos dadas com minha irmã, referindo-se à análise de bell hooks sobre a relação histórica entre mulheres negras e brancas – colonialista, escravagista e hierárquica – assim como à necessidade das mulheres brancas tomarem consciência e abandonarem o olhar narcísico sobre si mesmas, dando lugar à concreta solidariedade feminista concitada por Bell Hooks, para superar verdadeiramente as diferenças coloniais.

Naquele ensejo, Karen nos fez um questionamento “sobre o quanto essa disposição de convivência entre irmãs ainda se traduz em um movimento irrefletido sobre as desigualdades entre as mulheres“.

Assim é que aceitei o desafio de uma sorora negra, no dia da mulher negra, a realizar esse exercício de refletir sobre as desigualdades entre as mulheres pretas e brancas e de tentar responder ao questionamento de Karen Luise. 

Sem dúvida o dia de hoje é o mais especial a um feminismo genuíno, um feminismo para as 99%, que assim só o será se for fundamentalmente antirracista. Porque se mulheres querem igualdade, devem começar arrumando a casa e garantindo o pertencimento com igualdade entre elas próprias, bem (cons)cientes de que, no Brasil, as diferenças de classe e de ocupação de espaços (inclusive entre as mulheres) partem de um fundamento racial.

São PauloSP 26 07 2018 Marcha das Mulheres Negras marca o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino Americana e Caribenha, na rua da Consolação, região central de São Paulo.Rovena Rosa/Ag Brasil

Cabe a nós, mulheres não negras, ainda, um papel crucial em questionar as contraproducentes “proclamações abstratas de sororidade global” que “transmitem a falsa impressão de homogeneidade”. Uma sororidade real pressupõe admitirmos que a opressão misógina assume diferentes formas, e que nos cabe associar essas diferentes formas no âmbito político por meio de um esforço consciente de construção da solidariedade.

Se minha irmã preta sofre mais violências e tem menos oportunidades que eu, só serei verdadeiramente sorora quando eu olhar para isso e lutar bravamente para que não haja quaisquer diferenças entre nós. Para isso as brancas devem “fazer escadinha com as próprias mãos” às mulheres negras, abrir espaço e valorizar o assento das rainhas negras nos espaços de poder. 

O desafio hercúleo, de todas nós, é superar o racismo estrutural e institucional. A participação política das mulheres negras é indispensável na construção de uma sociedade democrática. É urgente que mulheres negras ocupem os espaços de poder!

Eu, mulher branca, não serei antirracista apenas se abrir mão subjetivamente de minha supremacia branca histórica, orgulhando-me de “tratar bem” as mulheres negras, nem apenas por “não desconfiar” que uma mulher negra que mexe na bolsa dentro do mercado esteja furtando. Isso é óbvio! Não tínhamos sequer que estar debatendo essas pautas em pleno século XXI.

Não!

Serei antirracista – e portanto, verdadeiramente feminista – apenas se der um salto qualitativo de consciência para, além da minha subjetividade antirracista, eu lutar e sangrar objetivamente ao lado das mulheres negras nas negociações de seu lugar de pertencimento na sociedade e nas superestruturas econômicas, de poder e institucionais. 

Abram-se alas para as mulheres pretas cientistas, escritoras, musicistas, líderes comunitárias, comerciantes, empresárias, executivas, detentoras de meios de produção, prefeitas (muitas mais!), vereadoras (muitas mais!), ministras de Estado, governadoras (muitas mais!), Presidentas da República, deputadas (muitas mais!), delegadas de polícia (muitas mais!) promotoras de justiça (muitas mais!), defensoras públicas (muitas mais!), juízas (muitas mais!). 

 

Parafraseando a deputada estadual paulista Erica Malunguinho, são as mulheres negras que de forma profunda vão desconstruir as violências estruturais, porque sempre as viveram e as conhecem profundamente, e têm tecnologia social e ancestral para isso.

E na sociedade civil, caberá às mulheres brancas e negras tecerem, juntas, redes de solidariedade, afeto e economia, em oposição à necropolítica e ao patriarcado. E às mulheres brancas caberá prestigiar e respeitar as redes entre as mulheres negras.

Sim querida Karen Luise! Cabe a nós mulheres brancas trabalharmos arduamente para olharmos além do espelho de Narciso… Muitas de nós já estão trabalhando para isso, e queremos dizer que vemos você, vemos Elinay Melo, vemos Erica Malunguinho, Talíria Petroni, Djamila Ribeiro, Sueli Carneiro, Conceição Evaristo, Ana Maria Gonçalves, Grada Kilomba, Mariene de Castro, Leci Brandão, Antonieta de Barros, Aqualtune, Tereza de Benguela, Theodosina Rosário Ribeiro, Benedita da Silva, Jurema Batista, Chiquinha Gonzaga, Ruth de Souza, Elisa Lucinda, Maria Felipa, Maria Conceição Nazaré (Mãe Menininha de Gantois), Luiza Mahin, Marielle, Lélia Gonzalez, Dandara dos Palmares, Carolina Maria de Jesus, Mariluce Moura, Elza Soares, Mãe Stella de Oxóssi, Dona Nininha, Joselita, Luana, Luiza Lustosa e Isa Rave, e taaaaantas outras super mulheres (e meninas) negras de ontem, hoje e sempre, reconhecidas ou anônimas em suas lutas diárias… 

Que o compromisso de solidariedade das mulheres brancas seja lutar lado a lado com as negras para que vençamos todas as formas de opressão, e para que as mulheres negras reinem altivas e se multipliquem na magistratura e em todos os espaços de poder, decisão, construção social e política e de influência artística, filosófica, intelectual e espiritual, reintegradas na posse dos espaços que lhes pertencem e foram historicamente usurpados, para seguirmos de mãos dadas na busca incessante pela plena, concreta e verdadeira igualdade entre todas as mulheres e entre mulheres e homens. 

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É Juíza de Direito em São Vicente/SP e membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia), de cujo Conselho de Administração foi Secretária entre 2011 e 2012. É Mestra em Direitos Difusos e Coletivos pela Universidade Metropolitana de Santos. É professora de Direito das Famílias e Direito Ambiental na Universidade Católica de Santos. É membra diretora da Aprodab-Associação dos Professores de Direito Ambiental do Brasil e associada do IDPV-Instituto O Direito por um Planeta Verde. Sonha com a solidariedade, a igualdade e o respeito entre todos os seres viventes sobre a Terra, em harmonia, incluindo homens e mulheres, animais e a própria Gaia viva.

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