Ameríndias, camponesas e orixás: a colheita da palavra (em) nós

Na cata das sementes, algumas somos ameríndias, outras somos camponesas, muitas somos orixás, todas tornamo-nos mulheres a cada dia

Mulheres camponesas viajam mais de 40 horas de ônibus para a Marcha das Margaridas, em Brasília. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Mulheres camponesas viajam mais de 40 horas de ônibus para a Marcha das Margaridas, em Brasília. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

CartaCapital,Justiça,Opinião,Sororidade em Pauta

Há dias que ando a me perguntar como alinhavar palavras que estejam livres o suficiente para representar os vários nós que, em devir, entrelaçam as mãos da coluna Sororidade em Pauta. O exercício me tem levado às águas e delas volto sempre abastecida.

Entre as idas e vindas, elementos da terra ocupam as minhas mãos. Seguro a terra na esperança de torná-la produtiva e, coletivamente, podermos celebrar a colheita dos nossos nós.

Na cata das sementes, algumas somos ameríndias, outras somos camponesas, muitas somos orixás, todas tornamo-nos mulheres a cada dia.

Nós.

Enquanto as águas permanecem presas em mim, para circularem no tempo de Oxum, filha de Yemanjá, abro cuidadosamente minhas mãos e disponho a terra seca aos pés das ameríndias alto-xinguanas.

 

É Yamurikumã[1]! A terra se abastece da energia daquelas mulheres. Yamurikumã é o momento que permite a elas ocupar o pátio da aldeia todas munidas dos instrumentos que apenas homens alto-xinguanos podem utilizar em épocas ordinárias. Elas celebram e cantam sobre a terra. Em seguida, mergulham na terra, de aldeia em aldeia, quebrando as estruturas ordinárias de gênero daquelas comunidades. Atravessam a terra. A terra, da qual me apropriei, mas que sempre foi delas. A terra que peguei, mas que guarda o sangue delas. 

Mulheres camponesas viajam mais de 40 horas de ônibus para a Marcha das Margaridas, em Brasília. Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A cada Yamurikumã, elas preparam a terra que é delas, mas que ocupo em minhas mãos.

Sigo o fluxo e alcanço o tempo das águas.

Encontro Mulheres de Axé. Vejo que Oxum preparou o terreiro e os nós de axé irrigam nossos caminhos: caminhos partidos de África (A). A cada terreiro, Áfricas. Juntas (J) (re)partidas. Sinto os lamentos da Diáspora (D) e eles são indispensáveis à fertilidade da terra que trago nas mãos.

 “(…) aprendemos com as nossas Abás (anciãs) e assim continuaremos a manter a tradição e o respeito por todas e todos que estiveram aqui antes de nós, mantiveram a nossa tradição e fertilizaram a terra para que hoje pudéssemos semear com fartura esses belos relatos de vida (…) captar e interpretar as diversas emoções destas mulheres que carregam em seus rostos as expressões de vida plena. Seja de amor, de sorriso, de luta, de sofrimento, de mãe, mas, antes de qualquer coisa e para toda a existência neste plano, expressão de mulher, Mulher de Axé! (…) Estas mulheres e suas antecessoras representam a (re)construção familiar, cultural, econômica e social do povo negro, a continuidade das nossas tradições pós-tráfico negreiro, a certeza de que nenhum absurdo, por maior que seja, será capaz de apagar a dimensão material e imaterial que garante a nossa existência.” REZENDE, Marcos (Org.).  Mulheres de Axé. Salvador: Kawo-Kabiyesile, 2013, p. 20-21.

Lavagem do Bonfim, em Salvador, ocorreu em meados de janeiro. Foto: Ascom Setur

Entristeço, mas sigo. Não conheço preparo, semeadura e colheita que não incluam o trabalho, a espera e o sofrimento.

Desloco-me às águas de Oxum, pois sua força vital inclui ruptura e rasgo. Rio filho do Mar. Oxum filha de Yemanjá.

Levada ao som dos batuques do cortejo, caminho sorora e sonora ao encontro das águas do rio, o filho do mar.

A terra em minhas mãos alcança a fertilidade de Oxum, filha de Yemanjá. Carrego-as comigo. São mãe e filha que, mesmo em terra deportada, firmaram sua prole em terreiros para preservarem os nós e garantirem os caminhos.

Realizo que o alinhavo das palavras produtivas está em construção.

Yamurikumã preparou o solo carregado entre meus dedos e com Oxum chegou água. Terra preparada e irrigada. Daí em diante as Margaridas passariam a trabalhar no meu eito, semeando essa terra que invadi com as mãos.

(…) Margaridas somos todas nós, que ainda não fazemos parte do que se chama de cidadania. Margarida é desabrochar pra alguma coisa. Você já prestou atenção numa margarida? Viu ela desabrochando? Então acho que todas nós somos margaridas quando estamos buscando os solos férteis, a cidadania (Ângela, coordenadora sindical regional Salgado/Pará, 2011) (…). De um modo geral, o termo ‘Margarida’ pode ser atribuído a toda mulher que se identifique com a luta das mulheres, seja a luta por direitos, por cidadania, seja a luta por espaços de poder.” AGUIAR, Vilenia Venancio Porto. Somos todas Margaridas: um estudo sobre o processo de constituição das mulheres do campo e da floresta como sujeito político. Campinas: UNICAMP/IFHC (tese de doutoramento), 2015, p. 254-255.

Eu invasora, de palavras invadida. Elas, Margaridas, deslocadas das várias frentes de trabalho dos muitos Brasis, mais uma vez trabalhariam em terras que não eram suas, terras que ocuparam minhas mãos. Marcharam, invadiram e semearam, garantindo a colheita dos nós.

Seguiram e me deixaram prestes a encontrar os muitos nós que habitavam em mim a cada vez que habito a Sororidade em Pauta. Encontrá-los me ansiava, pois, a partir desse encontro, esperava não só escrever, mas reconhecer e abraçar os nós fora de mim.

E o tempo fez a colheita.

No mês de Oxum, no ano de 2019, reuniu-se um bom punhado de nós.

Éramos xinguanas ameríndias, filhas de orixás, margaridas camponesas. Partidas de muitas saídas, projetávamos diferentes chegadas e estávamos ali representadas num bom bocado de mulheres consororizadas.

Foi lançada a obra coletiva: Sororidade em Pauta.

Link para o livro Sororidade em Pauta (Editora Letramento)

A esperança equilibrista tomou seu assento. Estava ao lado de todas nós. Dentro de cada nó, sentavam-se Oxum e sua mãe, Xinguanas e Margaridas. Lotação esgotada. Fantasmas que por vezes aparecem entre nós e o papel tiveram dificuldade em encontrar lugares vagos[2].

Nas falas daquele belo número de nós, um elo comum: mulheres para democracia, em referência à Associação Juízes para Democracia (AJD), a partir de onde começaram a se entrelaçar as primeiras nós e por onde nossos caminhos seguem se bifurcando e se cruzando, dando conta dos nós que habitamos. A AJD, sem dúvida, habita em nós, também em construção dinâmica de nós e, por isso mesmo, sendo estrela destacada à qual orbitamos…

Na escrita dos nós, uma construção iniciada do lugar de cada nó, muitas mulheres projetadas em nós e os vários caminhos que trilhamos e trilharemos.

É sabido que a caminhada não é traçada sem bifurcações, sem paralelas, sem desvios e sem atalhos. Mas a diversidade das ameríndias, das orixás, das camponesas, de todas as mulheres que habitam em nós, garante, sem dúvida, que a caminhada é sem fronteiras.

Semeada a terra que ocupou minhas mãos com as sementes de todas nós, de perto ou de longe, não tenho dúvida, seguirei irmanada e imantada aos nós da coluna, vértebras do coletivo Sororidade em Pauta.

Somos nós livres, inclusive para seguirmos caminhadas distintas, mas, ainda assim, não nos é dada a escolha de partir sem levar ou de ficar sem reter nós de quem partiu.

Nós ausentes estarão sempre presentes. Dentre nós, Liéje Aparecida de Souza Gouvêia presente!

Nós de terras invadidas, de Áfricas partidas, de florestas dizimadas, de camponesas aJuntadas por Diásporas vividas.

Nós, palavras colhidas.


[1] Iamuricumã em sua versão tupi. Acerca dessas mulheres e do mito desse ritual feminino, citações etnográficas e míticas de Étienne Samain (1991) e Villas Boas (1970): “As mulheres saem dançando à frente de seus maridos, que lhes oferecem peixe, pedindo-lhes que o dêem de comer aos filhos. Mas elas recusam: ‘Comam vocês o peixe!’ Seguindo o tatu, enquanto os maridos tentam em vão pegá-las, elas saem em outra aldeia, cujo chefe diz a seu povo que não olhe as passantes. Mas uma mulher entreabre a porta e vendo-as, fica tonta, sai a juntar-se-lhes. Seguem-na muitas. O mesmo acontece em outra aldeia, e mais outra. O cheiro das que passam fascina também, provoca o mesmo efeito. As fugitivas adentram a floresta. (…) vão para muito longe, bandas de São Paulo. (…) As Iamuricumá continuam viajando, viajando sempre.  Caminham dia e noite sem parar. As crianças de braço foram jogadas nas lagoas e se transformaram em peixes. Até hoje as Iamuricumá caminham, sempre enfeitadas e cantando. Usam arco e flechas e não têm o seio direito para melhor manejar o arco” apud TRINDADE-SERRA, Ordep José. Um tumulto de asas. Apocalipse no Xingu: breve estudo de mitologia kamayurá. Salvador: EDUFBA, 2006, p. 178-179.
[2] Em 21 de janeiro de 1931, Virginia Woolf proferiu um discurso na Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, em Londres, que teve publicação póstuma em 1942, sob o título Profissões para mulheres e ali ela esclarece que para se tornar escritora empreendeu longa batalha até conseguir matar a mulher fantasma que se colocava entre ela escritora e o papel: “Os artigos têm de ser sobre alguma coisa. O meu, se bem me lembro, era sobre um romance de um homem famoso. E, quando eu estava escrevendo aquela resenha, descobri que, se fosse resenhar livros, ia ter de combater um certo fantasma. E o fantasma era uma mulher, e quando a conheci melhor, dei a ela o nome da heroína de um famoso poema, ‘O Anjo do Lar’. Era ela que costumava aparecer entre mim e o papel enquanto eu fazia as resenhas. Era ela que me incomodava, tomava meu tempo e me atormentava tanto que no fim matei essa mulher. Vocês, que são de uma geração mais jovem e mais feliz, talvez não tenham ouvido falar dela – talvez não saibam o que quero dizer com o Anjo do Lar. Vou tentar resumir. Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora. Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado, era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza – enrubescer era seu grande encanto. Naqueles dias – os últimos da rainha Vitória – toda casa tinha seu Anjo. E, quando fui escrever, topei com ela já nas primeiras palavras. Suas asas fizeram sombra na página; ouvi o farfalhar de suas saias no quarto. Quer dizer, na hora em que peguei a caneta para resenhar aquele romance de um homem famoso, ela logo apareceu atrás de mim e sussurrou: ‘Querida, você é uma moça. Está escrevendo sobre um livro que foi escrito por um homem. Seja afável; seja meiga; lisonjeie; engane; use todas as artes e manhas de nosso sexo. Nunca deixe ninguém perceber que você tem opinião própria. E principalmente seja pura’. E ela fez que ia guiar minha caneta. E agora eu conto a única ação minha em que vejo algum mérito próprio, embora na verdade o mérito seja de alguns excelentes antepassados que me deixaram um bom dinheiro – digamos, umas quinhentas libras anuais? –, e assim eu não precisava só do charme para viver. Fui para cima dela e agarrei-a pela garganta. Fiz de tudo para esganá-la. Minha desculpa, se tivesse de comparecer a um tribunal, seria legítima defesa. Se eu não a matasse, ela é que me mataria. Arrancaria o coração de minha escrita. Pois, na hora em que pus a caneta no papel, percebi que não dá para fazer nem mesmo uma resenha sem ter opinião própria, sem dizer o que a gente pensa ser verdade nas relações humanas, na moral, no sexo. E, segundo o Anjo do Lar, as mulheres não podem tratar de nenhuma dessas questões com liberdade e franqueza; se querem se dar bem, elas precisam agradar, precisam conciliar, precisam – falando sem rodeios – mentir. Assim, toda vez que eu percebia a sombra de sua asa ou o brilho de sua auréola em cima da página, eu pegava o tinteiro e atirava nela. Demorou para morrer. Sua natureza fictícia lhe foi de grande ajuda. É muito mais difícil matar um fantasma do que uma realidade. Quando eu achava que já tinha acabado com ela, sempre reaparecia sorrateira. No fim consegui, e me orgulho, mas a luta foi dura; levou muito tempo, que mais valia ter usado para aprender grego ou sair pelo mundo em busca de aventuras. Mas foi uma experiência real; foi uma experiência inevitável para todas as escritoras daquela época. Matar o Anjo do Lar fazia parte da atividade de uma escritora.” WOOLF, Virginia. Profissões para mulheres e outros artigos feministas. Porto Alegre: L&M POCKET, 2013, p. 03-04.

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É membra da AJD (Associação Juízes para a Democracia) e juíza do trabalho no TRT da 6ª Região. Foi agente de polícia, delegada e serventuária da justiça federal. Curiosa e precisando de poucas horas de sono para viver, vai deixar para dormir quando morrer. É casada com uma mulher que adora dormir. Mãe de Maria Beatriz, a Biatômica. Mestra em História Social pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Percebe que o capital rotula, pintando peles de cores e apelidando sexos de frágeis, mas acredita na paleta viva do arco-íris e na força da luta nada frágil do feminismo revolucionário para rearranjar a estrutura dinâmica de gênero e classe.

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