Racismo, machismo e LGBTfobia são marcadores de saúde que produzem vulnerabilidades

Trabalhar com a população de mulheres negras e/ou lésbicas é trabalhar com o tema da violência

Foto: Agência Brasil

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Em homenagem a Conceição Evaristo, a gente combinamos de não morrer.
Precisávamos também que eles tivessem combinado de não nos matar.
Eu sei que eles não estão apenas lá fora.
Não vi quando se instalaram, mas eu os sinto mexer bem na espinha dorsal
de todos os meus traumas.
São eles que morrem a gente, apesar do que a gente combinamos.

(O mundo é meu trauma, Jota Mombaça, 2017)

Considerando que o racismo e o machismo são uma realidade no Brasil e que a LGBTfobia é uma expressão do machismo, existiria essa mulher que nunca sofreu violência pelo simples fato de ser negra e/ou lésbica no contexto brasileiro?

Considerando que as mulheres e negrxs são maioria nesse País, mas também que o racismo, o machismo e a LGBTfobia produzem sofrimentos psíquicos, adoecem e matam, podemos falar em democracia social?

Como psicóloga e psicoterapeuta, atuei em diferentes contextos (ensino, pesquisa, extensão, ONG e, especialmente no momento atual, na clínica), mas sempre realizando um trabalho voltado para populações socialmente marginalizadas (mulheres, dissidentes sexuais, negrxs) e vivendo em contextos precários e marcadas por sofrimento e adoecimento de diversas ordens.

Diferente de uma visão que pensa o sujeito a partir de uma essência e que busca uma causa nele próprio que justifique o efeito (que, para o campo psicológico, pode ser o sofrimento, o sintoma, a doença, o diagnóstico), aposto na visão de adoecimento que se localiza não no sujeito, porque não há cisão entre sujeito e objeto, mas no mundo e nas intersecções que se dão dessa interação e que incluem a produção do(s) trauma(s). E, assim sendo, nosso trauma é: colonial, imperialista, escravocrata e genocida. Sofrimento este ético e político, na medida em que se refere à experiência diária de dor (e resistência) frente o lugar social de ser tratada como subalterno, sem valor, inferior.

A/O branca/o presume que a negra é um animal. O homem presume que a mulher é submissa. O/a heterossexual presume que qualquer expressão de sexualidade que fuja da cisheteronormatividade é abjeta. Na necessidade de se defender, caracteriza a Outra. A Outra será o objeto de projeção de tudo aquilo que nem mesmo ela/e suporta em si. O negativo de seu próprio eu, a sombra, simbolizados no inconsciente coletivo.

Marcadores sociais da diferença não existem a priori. Não há descontinuidade entre corpos racializados, sexuados, generificados, sexualizados e as categorias de raça, sexo, gênero ou orientação sexual. Existe uma ficção materializada em corpos e processos de subjetivações. Porque a ferida do trauma não é (só) simbólica. É também material e materializável, ainda que pela via do sintoma, do sofrimento, da precariedade da vida. Por isso, faz-se necessário um olhar mais amplo sobre a construção social da saúde-doença, do encontro com a Outra, ou do mundo como trauma, como afirma Jota Mombaça. Mas, também, da neurose social fundante de sociedades estruturadas no colonialismo e que mantém estreitas relações com o adoecimento em nível pessoal.

Isso não implica ignorar sofrimentos produzidos no mundo indiferenciado e originalmente caótico da bebê, do mundo que durante parte inicial da vida se resume à família e depois se estende para a comunidade, a escola, o trabalho. Mas, também, do mundo sem fronteiras geográficas possível cada vez mais, e mais cedo, pela tecnologia. Somos biologicamente seres sociais. Somos socialmente ciborgues. Qual seja, o mundo também mantém estreitas relações com as doenças da contemporaneidade, processos de aniquilamento e extermínio de populações.

Para falar de saúde, não precisamos focar em doença. Até porque, são partes de um mesmo processo. Não existe A doença, na ausência da saúde. Nem A saúde, na ausência da doença. Existe uma série de fatores e vulnerabilidades que implicam, necessariamente, considerar classe, território, raça, identidade de gênero, orientação sexual, geração, e o que mais se fizer necessário e importante. E tornam-se relevantes a partir do momento que produzem agravos. Importam porque são marcadores de saúde. Racismo, machismo e LGBTfobia são marcadores de saúde que produzem vulnerabilidades. Há, entre o eu e mundo, uma trama mais complexa que as relações de causa-efeito, sujeito-objeto, saúde-doença.

Como profissionais de saúde, reproduzimos violências sempre que negamos a outra falar por si. Ao negar as marcas coloniais estruturais do país. Ao defender o mito da democracia racial. Ao negar a política estatal de embranquecimento. A cultura do estupro. A pedagogia da sexualidade. Ao defender que somos todos e todas iguais. Que temos acessos iguais. Que somos subjetivadass em nossos corpos de acordo com os mesmos pressupostos, edipianos ou não, mas em sua massiva maioria centrados na ideia de uma família nuclear, branca e cisheteronormativa.

Se eu acredito na democracia racial, como eu vou acolher uma pessoa vítima de racismo sem reproduzir racismo também no espaço que deveria ser de cuidado? Se eu acho que só há sexo quando há penetração, como eu vou entender a experiência de uma sapatão? Se para sermos reconhecidas como pessoas precisamos ser classificadas em um sexo binário ao nascer (feminino/masculino), como reconheço a humanidade das pessoas trans, das não-binárias? Ou qualquer pessoa que crie sua própria ficção?

Essas violências chegam no espaço da clínica como ansiedade, depressão, auto-ódio, baixa autoestima, autoagressividade, automutilação, pensamento e ideação suicida, dentre outros. Há ainda as que nem chegam no espaço do cuidado, pois a clínica ainda é particularmente elitista, mas se fazem presentes nos subempregos, nas habitações precárias, nas estatísticas de genocídio da juventude negra (seja para a polícia ou para o tráfico de drogas), no encarceramento em massa (nas prisões, mas também em manicômios), na violência obstétrica, no aborto clandestino. Há muitas formas de morrer em vida.

E, ainda que não se resuma a isto, promover saúde passa por nomear as violências sofridas. Cuidado também é acessar informação, acessar serviços de saúde de qualidade, qualidade de vida, defender direitos, evitar intervenções desnecessárias, dar suporte. É um compromisso ético-político frente as assimetrias e desigualdades que estreitam os laços entre marcadores sociais da diferença e processos traumáticos que marcam os corpos, os afetos, as subjetividades.

Afinal, sua atuação – pessoal, profissional e social –, está a serviço de quê? E de quem? Apesar do que a gente combinamos, precisam parar de nos matar!

 

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Psicóloga e mestra em Psicologia pela UFPE, especialista em Psicologia Junguiana pelo IDE (em formação), psicoterapeuta e sócia-fundadora da Entrelaços.

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