Questão de gosto: o racismo, a homofobia e a gordofobia nos aplicativos de relacionamento

Sob o pretexto de que é questão de gosto, muitos não percebem que podem estar escancarando seus preconceitos camuflados de 'preferências'

Aplicativo Grindr. 
Foto: Shutterstock

Aplicativo Grindr. Foto: Shutterstock

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Os aplicativos de relacionamento já ocupam um quadradinho no celular da maioria dos solteiros (e casados!) na era digital. A estrutura dos perfis que preenchem a tela desses programas é bastante curiosa: em uma vitrine você precisa deixar expostas suas melhores fotos, no melhor ângulo, se possível cortando a cabeça para parecer discreto e fora do meio, configurando uma galeria de mulas-sem-cabeça de corpos sarados, bronzeados e másculos.

Em poucas linhas, é preciso deixar claro sua posição favorita na cama, que pode ser resumida em emoticons de verduras e frutas ou setinhas cujo vetor indica o quão ativo, passivo ou versátil você é. 

Para não perder tempo com conversas indesejadas, você já elabora seu filtro com as suas preferências: alto, baixo, musculoso, magro, gordo, peludo ou liso. Tudo muito prático, não? Incrível como a tecnologia veio para facilitar o encontro de pessoas que estão dispostas a ter um encontro casual para sexo sem compromisso ou quem sabe algo mais sério.

Acontece que toda essa dinâmica esconde também algo muito sério e que precisa ser discutido: o racismo, a homo/transfobia e a gordofobia estrutural que existe em nossa sociedade. Sob o pretexto de que é tudo questão de gosto, muitos não percebem que podem estar sim escancarando seus preconceitos camuflados de “preferências”, atingindo diretamente aqueles que se deparam com perfis dizendo: não a negros, gordos, asiáticos, nordestinos, afeminados, assumidos…

“Quer dizer agora que não posso mais escolher nem quem eu quero levar para a cama?” Não, graças a esses aplicativos ficou muito mais fácil encontrar o seu par perfeito, e você tem todo o direito de garimpar o homem dos seus sonhos. Acontece que deixar exposto tais preferências ou filtrar as pessoas pela etnia, formato do corpo ou pelo seu grau de feminilidade não vai facilitar essa sua procura.

Esfregar na cara dessas pessoas que elas não têm nem o direito de TENTAR estabelecer um diálogo só perpetua aquilo que já existe na sociedade há muito tempo: pessoas que são excluídas de oportunidades de emprego pela cor da pele, que não conseguem pegar um transporte público porque não tem assentos modificados para obesos e que levam lâmpadas na cabeça pelo jeito de agir e se vestir. Todas elas não tiveram nem a chance de TENTAR ser quem elas são.

Então vamos lá, gosto realmente não se discute. Procurar características que lhe atraem no outro faz parte do jogo e é totalmente permitido. Mas educação e bom senso são mais do que desejáveis quando você receber uma cantada de alguém que não te agrada fisicamente. E definitivamente NÃO é legal deixar escancarado essas preferências, muito menos banir aqueles que não se encaixam no seu padrão na sua descrição de perfil. Penso inclusive que ao agir assim elas podem estar afastando possíveis parceiros que lhe interessariam, devido a arrogância misturada de preconceito velado.

 A pluralidade de corpos e características físicas, principalmente no Brasil, deve ser valorizada e não encaixotada em padrões para compor novas galerias de perfis de mais do mesmo. Precisamos entender também que essa preferência por um modelo de beleza branco, heteronormativo e torneado de músculos também não é simplesmente uma questão de gosto individual. Reflete uma imposição social dominante, difundida amplamente pela mídias e atualmente pelas redes sociais. Portanto, essa mudança de comportamento é muito mais complexa do que se pensa, mas já é um começo cada um refletir suas atitudes individualmente.

Pense nisso na próxima vez que for montar seu novo perfil ou na hora de agradecer um biscoitinho ofertado por alguém que não lhe atrai. Pode ter certeza que caráter e moral vão compor uma beleza muito maior que os seis gominhos na sua barriga.

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Cirurgião do aparelho digestivo formado pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Atua também como coloproctologista no Ambulatório de Doenças Infecciosas Anorretais do HCFMUSP.

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