Psicodelicamente

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Incentivo de Trump a psicodélicos coloca ibogaína no centro do debate

Para o médico Bruno Rasmussen, iniciativa dos EUA pode gerar efeito dominó e impulsionar debates em países como o Brasil, onde a substância já tem uso clínico

Incentivo de Trump a psicodélicos coloca ibogaína no centro do debate
Incentivo de Trump a psicodélicos coloca ibogaína no centro do debate
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Jim Watson/AFP
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Uma medida assinada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevê aceleração regulatória para substâncias psicodélicas, destinando 50 milhões de dólares (cerca de 250 milhões de reais) para pesquisas e acenando com especial destaque para a ibogaína. No Brasil, o composto já é usado há décadas em clínicas voltadas ao tratamento da dependência química.

A decisão, anunciada no sábado, 18, recolocou os psicodélicos no centro da agenda internacional de saúde mental. A ordem executiva assinada por Trump determina que a agência reguladora norte-americana, a FDA, equivalente à Anvisa, acelere a análise de terapias com uso dessas substâncias.

A notícia traz novo impulso político e simbólico para um setor que andava em compasso de espera após um revés em 2024, quando a FDA recusou aprovar a terapia assistida por MDMA para transtorno de estresse pós-traumático, citando preocupações com metodologia e segurança.

Para o médico Bruno Rasmussen, que trabalha há mais de três décadas com a substância, o gesto da Casa Branca garante mais credibilidade para a ibogaína e para o campo psicodélico como um todo. “Tudo o que é levado a sério nos Estados Unidos tende a ganhar mais atenção aqui e no resto do mundo”, afirma.

Ao anunciar a medida, Trump destacou a ibogaína, defendida por grupos de veteranos de guerra como alternativa promissora para casos graves de trauma psíquico. Rasmussen avalia que houve também articulação política de grupos pró-ibogaína, como a Americans for Ibogaine.

Entre os nomes presentes no evento estava W. Bryan Hubbard, um dos principais articuladores da campanha em defesa da ibogaína nos Estados Unidos.

Segundo o médico, a principal estratégia foi mudar o foco do debate: tirar a ênfase da dependência química e colocá-la no transtorno de estresse pós-traumático em veteranos de guerra. “Isso abriu portas rapidamente”, diz. “Quando se mostra que há muitos suicídios ligados ao trauma de guerra e que existe uma substância capaz de ajudar, a receptividade muda.”

Segundo Rasmussen, o estigma histórico em torno da dependência química ajudou a travar avanços regulatórios por anos. “Quando o foco passa a ser o cuidado de veteranos, a resistência diminui.” Para o médico, a iniciativa norte-americana pode gerar efeito dominó e acelerar debates semelhantes em outros países.

Da raiz sagrada africana aos hospitais brasileiros

Rasmussen lembra que a história da ibogaína começa muito antes dos consultórios e laboratórios. Extraída da raiz da Tabernanthe iboga, planta originária da África Central, a substância é utilizada há séculos em contextos rituais e constitui um dos pilares da religião Bwiti, praticada por diferentes comunidades da região.

Segundo o médico, o uso tradicional está ligado a cerimônias de passagem, cura e contato com dimensões espirituais da existência. Jovens participam de ritos iniciáticos que podem durar dias, marcados por música, dança e consumo da raiz in natura. “É um sacramento de transição da infância para a vida adulta”, resume.

Ele ressalta que compreender essa origem ancestral ajuda a evitar uma visão reducionista da ibogaína apenas como molécula farmacológica.

No campo médico, ele afirma que a principal aplicação atual continua sendo o tratamento da dependência química. Rasmussen cita estudos observacionais realizados no Brasil e na Nova Zelândia que sugerem resultados promissores em casos de dependência de cocaína, crack, álcool, heroína e opioides, embora ressalte a necessidade de ensaios clínicos mais robustos, com placebo e duplo-cego.

Além da dependência, o médico vê potencial em quadros de depressão, transtorno de estresse pós-traumático e até Doença de Parkinson, ainda em estágios iniciais de investigação. Segundo ele, a ibogaína pode atuar tanto pela reorganização neuroquímica quanto por favorecer processos psicoterapêuticos profundos.

Como funciona o tratamento

Se nos Estados Unidos a substância ainda busca espaço regulatório mais amplo, no Brasil a ibogaína já é utilizada há anos em clínicas e centros médicos, principalmente no cuidado de pessoas com dependência química.

Embora ainda não seja registrada como medicamento pela Anvisa, a ibogaína pode ser importada legalmente mediante prescrição médica individual, dentro das regras para acesso excepcional a produtos sem registro no país. Ou seja, médicos brasileiros podem empregá-la em contextos específicos, de forma off-label, dentro da autonomia profissional e com responsabilidade clínica. Isso transformou o Brasil em uma das principais referências mundiais no uso terapêutico da droga psicodélica.

Em geral, os protocolos brasileiros incluem exames prévios, avaliação cardiológica, acompanhamento psiquiátrico e suporte terapêutico posterior, já que a sessão isolada não costuma resolver quadros complexos sem continuidade de cuidado.

Segundo Rasmussen, o tratamento começa antes da administração da substância. O paciente passa por triagem clínica e psicológica, com exames laboratoriais, eletrocardiograma e avaliação de possíveis contraindicações. Entre os principais cuidados estão riscos cardíacos, alterações hepáticas e condições psiquiátricas que possam agravar a experiência.

Quando aprovado, o paciente realiza sessões preparatórias de psicoterapia. Depois, a aplicação ocorre em ambiente hospitalar, com acompanhamento médico e de enfermagem ao longo de todo o processo.

O médico divide a experiência em fases. Primeiro surgem alterações sensoriais e a percepção de que algo está mudando. Em seguida, há um período intenso de memórias, pensamentos acelerados e revisitação de eventos marcantes da vida. Na etapa final, muitos pacientes relatam reflexões profundas, revisão de hábitos e clareza sobre comportamentos autodestrutivos.

Após a alta, o acompanhamento terapêutico segue sendo considerado essencial. Rasmussen afirma que existe uma “janela de abertura mental” nas semanas seguintes, período em que o paciente estaria mais receptivo a mudanças de comportamento e reorganização da vida cotidiana.

O médico acredita que avanços de pesquisas clínicas no país podem abrir caminho para aprovação hospitalar da ibogaína pela Anvisa. Para Rasmussen, se isso ocorrer, o país poderá assumir protagonismo global no tema. “O Brasil já acumulou experiência clínica relevante. Agora pode também liderar a etapa regulatória e científica”, defende.

Movimento global dos psicodélicos

A decisão de Trump reforça uma tendência internacional de reavaliação científica e política dos psicodélicos. Nos últimos anos, universidades, hospitais e centros de pesquisa ampliaram estudos sobre essas substâncias, enquanto governos discutem modelos regulatórios para uso médico.

Se confirmados em estudos robustos, os resultados podem impactar não apenas os Estados Unidos, mas também países como o Brasil, onde parte desse debate já acontece na prática clínica.

Ao mesmo tempo, o avanço institucional reacende questões que vão além da ciência e do mercado farmacêutico. Substâncias hoje tratadas como promissoras pela medicina contemporânea, em muitos casos, possuem longa trajetória em contextos rituais, espirituais e comunitários, com raízes ancestrais em diferentes culturas.

Especialistas e lideranças tradicionais alertam que, quando esses compostos passam a ser reconhecidos apenas após validação laboratorial, corre-se o risco de invisibilizar povos que preservaram seus usos por gerações.

Outro ponto importante do debate envolve concentração econômica: quem se beneficiará financeiramente da medicalização dessas substâncias, e se haverá reconhecimento, proteção ou reciprocidade com as comunidades guardiãs desses saberes.

O novo ciclo dos psicodélicos, portanto, não envolve apenas patentes, ensaios clínicos e aprovação regulatória. Também coloca em jogo disputas sobre memória, autoria, justiça histórica e o lugar dos conhecimentos tradicionais em um mercado que movimenta bilhões.

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