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Hacker antirracista: conheça a história de Ana Carolina da Hora

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Vinte e três anos, criada por 5 mulheres, filha de 5 mulheres, irmã mais velha de três irmãos, cria de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, negra e cientista da computação em construção pela PUC-Rio. Para que comece a contar a minha história, preciso voltar 20 anos atrás quando tudo era mato e sonho.

Desde os 3 anos de idade eu já falava que queria ser cientista, lá pelos 12 anos, quando estava na 6ª série e ganhei meu primeiro computador, me direcionei para a computação. Não entendia muito bem o que era, o que fazia, mas achava impressionante as descobertas feitas nesta área. Comecei a me interessar muito por robótica e games. Assistia a tudo relacionado a tecnologia, minhas mães então professoras de ciências humanas, sempre me incentivaram para o estudo mesmo não entendendo o meu interesse para algo tão distante da nossa realidade naquela época.

Dois momentos que me fizeram ter certeza do que queria foram: quando minha mãe se reuniu com as minhas tias e avó para me dar de presente de 15 anos ingressos para o meu primeiro evento de tecnologia, que mesclava com audiovisual. Na época eu conheci a diretora de animação do Harry Potter e o criador do game Call of Duty. Melhor presente de 15 anos, meia-noite comi pizza com os amigos. O segundo momento foi aos 18 anos quando, já na universidade, ganhei meu primeiro kit de eletrônica completo.

Presentes totalmente atípicos para uma menina negra da Baixada Fluminense né?! Mas hoje, vejo o impacto deles em minha vida.

O que eu quero é algo tão difícil que hackear a sociedade teve que virar um hábito. O primeiro hacker foi contar com o apoio da minha família e lembrar deles em todos os momentos, sejam bons ou ruins. O segundo hacker foi estudar. Estudar até ficar doente, como aconteceu na época do vestibular. Eu queria cursar Ciência da Computação ou Engenharia da Computação. Ambas em universidades públicas. Ambas com notas de corte altas. Ambas distante da minha realidade da época.

O terceiro hacker foi de fato passar para uma universidade pública e logo depois ir para a PUC. Esse processo foi bastante cansativo, mas além da minha família, contei com bastante apoio de professores e amigos. Tudo que eu construí devo à base.

Ana Carolina da Hora

Durante o processo de descoberta da ciência da computação, percebi que quanto mais eu estudava, mais eu tinha que provar que eu estudava, que eu sabia. Quanto mais eu me aprofundava em programação de algoritmos, mais eu tinha que provar que eu sabia do que estava falando. Esse processo deu a origem ao meu terceiro hackeamento: hackear o conhecimento.

Como a todo momento eu era contestada, decidi fazer o mesmo: além de contestar quem me contestava, eu apresentava soluções. Neste mar de questionamentos, fui entendendo que às vezes a energia não precisa ser direcionada a provar nada para ninguém, mas para si mesmo.

Durante os questionamentos fui entendendo que parte deste sentimento é por na maioria das vezes ser a única negra nos ambientes científicos.  

De acordo com o Centro de Inovação e Talento, 77% das mulheres negras em empresas de alta tecnologia afirmam que precisam provar sua competência mais do que seus pares. Alguma semelhança com os meus questionamentos acima?

Outro dado que tive acesso foi do estudo “Por que tão poucas? Mulheres afro-americanas em Ciência, Tecnologia e  Engenharia”. Em 2010, 27.576 mulheres negras obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas, o que representa 10,7% dos diplomas concedidos a mulheres no Estados Unidos. Mas elas representavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessas indústria, com 75 mil engenheiras e cientistas trabalhando em qualquer nível ou posição em suas áreas.

Estes dados fazem parte do levantamento feito pela PretaLab sobre a necessidade e a pertinência de incluir mais mulheres negras na inovação e na tecnologia. Este projeto faz parte do Olabi, que é uma organização social que trabalha desde 2014 para democratizar a produção de tecnologias e tem como sede um makerspace no Rio de Janeiro da qual faço parte.

A relevância deste levantamento se faz pela necessidade de conscientizar e ajudar mais mulheres negras a entrarem nas áreas de exatas. Este levantamento foi lançado em 2017 e você pode encontrar mais informações no site pretalab.com.

Com dados que comprovam meus questionamentos e com projetos que estão tentando a todo momento mudar essas visões, comecei a pensar sobre como participar deste movimento.

Uma palavra: inserção

Desde que ingressei na universidade, procurei participar de projetos que ajudem na inserção de meninas na área de tecnologia, comecei pelas Pyladies por gostar muito de programar em python e foi super importante encontrar comunidades como essa durante a graduação.

Mas além desta vontade, sempre estive muito perto da área de educação por ser de uma família de professoras. Aliando isso à minha vontade de tentar explicar para a minha avó que quando eu me formar vou ser cientista da computação, ou melhor, tentando explicar para ela o que uma cientista da computação faz, pensei no Computação Sem Caô!

Eu encurtei um pouco a história, mas muitas coisas aconteceram durante este processo que me fizeram chegar até o momento que estou hoje. Fui percebendo que há uma deficiência no conhecimento básico para você ingressar nas áreas de computação, essa deficiência dificulta o entendimento do que realmente você faz nesta área, além disso, dificulta quem já está na graduação de entender conceitos mais avançados.

Você já experimentou explicar para uma criança de 8 anos o que você faz? Achou difícil? Imagina a gente tentando explicar computação.

Pois bem, a forma como você explica algum conceito influencia muito no entendimento da outra pessoa sobre esse conceito. Nos dias atuais, o entendimento sobre como funcionam determinadas tecnologias é muito importante, pois cada vez mais estamos imersos nelas, e a partir destes entendimentos é possível perceber a importância do pensamento computacional. Que é o que programadores usam, por exemplo, antes de começarem a programar algo.

Pensamento computacional é a forma de resolução de problemas e na expressão de soluções de forma que um computador (máquina ou ser humano) possa realizar. Este nome foi introduzido na comunidade pela cientista da computação Jeannette Wing como resultado de seu artigo da ACM Communications. O artigo propõe que o pensamento computacional seja uma competência fundamental para qualquer pessoa, não somente para cientistas de computação e argumenta sobre a importância da integração do pensamento computacional em outras disciplinas.

Bom o que vocês acham de uma mina negra, de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, ensinando computação e dizendo que a computação é para todos? Será que engaja?

Ainda não sei, mas desde a criação junto com Olabi, que foi em maio de 2018, até o momento algumas coisas legais foram acontecendo. Por exemplo: iniciamos 2019 sendo Grantee do Instituto Serrapilheira que é  uma instituição privada, organizada sob a forma de associação civil e sem fins lucrativos, criada para valorizar a ciência e aumentar sua visibilidade e impacto no Brasil. Fomos uns dos 50 projetos selecionados pela chamada pública de divulgação científica.

O Computação Sem Caô nasce com o objetivo de ampliar e democratizar o entendimento da ciência da computação no Brasil. Como funcionam as tecnologias que usamos no dia a dia? O que faz um cientista da computação?

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