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Das vivências no Complexo do Alemão me formei um ativista

Raull Santiago, ativista nascido no Complexo do Alemão, traz reflexões no segundo texto da coluna PerifaConnection

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Eu sou o Raull Santiago, nascido e criado num lugar incrível, o Complexo do Alemão, onde a realidade me ensinou muito sobre humanidade, amor, coletividade, vida, coragem, esperança, sonhos… e também sobre o que é ser favelado num país desigual, preconceituoso e racista, que todos os dias insiste em criminalizar o meu endereço e as pessoas que lá vivem, sem ao menos conhecer a nossa realidade.

Entre amar a favela e sobreviver a essa sociedade, percebi nas tecnologias de informação e comunicação, uma ferramenta para tentar disputar narrativas sobre a minha realidade, mostrando a FAVELA como potência para a própria favela e também para o mundo, além de tentar expor o máximo possível, que a violência e o terror que vivemos nas favelas e periferias chegam para nós através da falta de política pública, reflexo de uma sociedade que não quer abrir mão de seus privilégios, inclusive usando de muita violência para mantê-los.

Eu tenho 30 anos e atualmente sou integrante de dois coletivos, o Coletivo Papo Reto, que usa a comunicação como ferramenta de busca e reafirmação de direitos para a favela, mobilização e organização da juventude periférica. E também faço parte do coletivo Movimentos – Drogas, Juventude e Favelas, que tem como objetivo debater novas políticas de drogas a partir da juventude periférica, que são as que mais vivem os impactos negativos dessa atual política sobre drogas.

Não acredito na e não aceito a ideia de “Guerra às Drogas”, que não passa de uma justificativa para o controle violento de quem vive nas periferias.

Sou aquele que não vai aceitar que chamem de “bala perdida” a forma como pessoas das favelas são assassinadas todos os dias. Dizer isso é apenas uma estratégia para reduzir ou normalizar, inferiorizando o significado grave do que acontece.

Afinal, como pode ser “bala perdida” os tiros disparados numa operação de “Guerra às Drogas”, onde essa ideia de “guerra” têm endereços específicos onde seus tiros serão disparados e, consequentemente, corpos específicos que serão atingidos, ao passo que as drogas estão por todos os lugares na cidade, no estado, no país e no mundo?

Ora, os 117 fuzis foram encontrados recentemente em um apartamento FORA DA FAVELA, mas quem levou e leva a pior ao longo da história é a favela, que não tem fábricas de armas, muito menos plantação de drogas, mas é explorada como palco da construção dessa falsa “segurança pública”, que se sustenta no nosso caos.

É isso que me motiva! Não podemos aceitar em silêncio a violência que recebemos todos os dias como política pública, que sufoca de todas as formas a riqueza do que é silenciado toda vez que isso acontece.

Pensemos: as operações policiais de helicópteros disparam tiros em cima das nossas cabeças; os blindados terrestres, os quais além de disparar armas de fogo em 360 graus do veículo, usam da própria blindagem dos mesmos para destruir pertences de moradores, como carros, motos, comércios de rua e equipamentos de som.

Como assim a presença (?) de política pública para a favela vem por meio da secretaria de segurança, tendo a polícia como principal intermediadora de um estado que escolha nos observar e “dialogar” através da mira do fuzil de um policial? Isso é inaceitável, não pode existir. O que poderia ser construído de uma relação como essa, se não, mais violência?

Gente, a FAVELA é potência, é criatividade, é coletividade, é desenvolvimento de tecnologias sociais que podem resolver demandas da própria favela e fora dela também.

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Porém, tudo isso fica travado a cada tiro disparado, a cada casa atingida, a cada corpo caído e esse silêncio se mantém contínuo diante da inércia de uma sociedade que finge que não vê, que finge não ter culpa e que lava suas mãos para o que mantém essa estrutura do terror funcionando como nossa única política pública para favelas e periferias, ao não se posicionar contra toda essa violência direcionada que recebemos.

O que acontece nas favelas não é um problema da favela, mas de toda a sociedade e reflete o que temos de pior, que a normalização e banalização da violência contra a maior riqueza que temos, a vida humana.

Precisamos valorizar e cuidar da riqueza que são as favelas e periferias, afinal, é ali que temos o resumo de Brasil. É onde estão pessoas do norte e nordeste, indígenas, negras e toda a diversidade cultural desta nação. Ou seja, cada vez que um corpo sangra em alguma rua, beco ou viela da favela, é o Brasil que sangra.

Escrevo e me apresento aqui como favelado convicto, formado nas práticas da realidade, que constrói teorias a partir das vivências e a cada caractere digitados em alguma rede social, a cada palavra dita em algum espaço, estou em constante movimento de construção de uma rede que busca garantir a vida na favela, para que as potências existentes neste lugar possam florescer com plenitude, sem a poda das rajadas de fuzil trazidas com dinheiro público.

Raull Santiago

De dentro do Complexo do Alemão, hoje conectado e conectando periferias por todo o Brasil e também no mundo, não me restam dúvidas de que a solução para as crises locais e globais estão nas favelas e periferias, porque é no conhecer da dor e do amor em sua máxima, se reinventando e reexistindo, é que estão aqueles e aquelas que insistem na esperança, no acreditar e no dia seguinte. Pessoas que transformam.

A maior inovação que podemos realizar neste momento é ouvir as vozes das favelas e periferias, com escuta ativa, empatia verdadeira, se desprendendo de estereótipos históricos, para perceber que a mudança não virá com blindados e helicópteros, mas com garantia de direitos e vida nas favelas e periferias. Aliás, o Brasil é uma grande periferia, com algumas bolhas de concentração de extrema riqueza, não o contrário.

É sobre isso que falaremos nos dias que eu estiver aqui, luta e existência na favela, reexistência e inovação em cenários desiguais, busca por justiça e memória, garantia de direitos e vida, enfrentamento ao privilégio e ao mito da democracia e meritocracia, num país quem em pleno 2019, consegue ser tão arcaico, inclusive nas atuais escolhas políticas.

#SÓVEM!

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