Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Sem celular, por favor
Em um mundo onde dois terços da população transforma as refeições em conteúdo, alguns restaurantes tentam resgatar a conexão humana
Recentemente, publicações dos dois lados do Atlântico têm destacado uma tendência entre bares e restaurantes na Inglaterra e nos Estados Unidos de proibir o uso de celulares à mesa. Em setembro, na capital americana, abriu o Hush Harbor, cuja publicidade é ser o primeiro bar de Washington em que o aparelho é proibido.
O nome do bar veio de uma conversa entre o chef Rock Harper e a mãe sobre raízes africanas americanas. Os hush harbors eram os pontos de encontro secretos onde africanos escravizados se reuniam na floresta para praticar sua espiritualidade fora do olhar do senhor de escravos. Espaços que só existiam porque ninguém os registrava.
A proibição de celulares à mesa não exatamente é novidade. Em outubro de 1994, Fergus Henderson pendurou um aviso na entrada de seu restaurante em Londres, requisitando que os clientes desligassem seus aparelhos móveis. O mundo digital engatinhava: o Google inexistia, o Facebook levaria mais dez anos para aparecer, o iPhone, treze, o Instagram, dezesseis. O celular proibido não tinha câmera, não tinha aplicativos, não tinha feed. Era apenas um tijolo que soava quando alguém ligava. Era.
O restaurante que Henderson abriu se chamava St. John. A cozinha servia tutano assado com salada de salsinha, orelha de porco, coração de pato — partes do animal que os restaurantes londrinos da época haviam deixado de prestigiar em favor de espumas e folha de ouro. Henderson chamou a filosofia de nose to tail eating: usar o animal inteiro, do focinho ao rabo, por uma questão de respeito à criatura. Trinta anos depois, o St. John é uma instituição nacional britânica, seus ex-funcionários lideram algumas das cozinhas mais importantes do Reino Unido. E o aviso sobre os celulares continua na entrada.
Em 1994, o celular era artigo de luxo. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, havia 11 milhões de assinantes de telefonia celular no mundo em 1990. No Brasil, era ainda item declarado no Imposto de Renda. A privatização do sistema Telebrás, em 1998, mudou a história, assim como o avanço da tecnologia derrubou os preços dos aparelhos.
Hoje são mais de 7 bilhões de celulares – algumas pessoas têm mais de um aparelho. São cerca de 5,5 bilhões de identidades ativas em redes sociais em outubro de 2025, segundo informações da DataReportal/Kepios — 68,7% da população global, ou seja, mais de 2 em cada 3 pessoas na Terra. No Brasil especificamente, o Instagram alcança 9 em cada 10 internautas — o que significa que qualquer jantar fotografado num restaurante do Brasil entra num feed que atravessa fronteiras. No início deste ano, um levantamento da Consumer Reports revelou que, em média, os usuários de telefonia móvel consultam seus aparelhos 144 vezes ao dia, dedicando quatro horas e trinta minutos ao uso desses dispositivos.
Em alguns casos, o restaurante foi convertido num estúdio onde as pessoas produzem fotos ou lançam modas. O mercado global de marketing de influência saiu de 1,7 bilhão de dólares em 2016 e chegou a 24 bilhões de dólares em 2024, segundo o Influencer Marketing Hub. Pesquisadores da publicação científica Technological Forecasting and Social Change identificaram esse mecanismo em 2024 — a relação entre produtor de conteúdo e seguidor como motor que converte imagem em modelo de comportamento. Quem fotografa o prato à mesa medeia a experiência para quem assiste. Quem come transmite. Quem assiste vive uma experiência.
No início deste ano, a escritora Maria Konnikova descreveu em sua newsletter um jantar num restaurante japonês de Paris que proibia celulares — inclusive fotografias de garrafas de champanhe. Ela o tratou como novidade refrescante, quase uma raridade. E terminou confessando que, sem o aparelho na mão, não sabia o que fazer com os dedos entre uma peça e outra de sushi. Mas achou a experiência excelente e gostou de se concentrar no que o chef servia. Fotografou a entrada do restaurante, não os pratos.
O problema que Henderson antecipou em 1994, quando Washington ainda não tinha um bar sem celular, quando o Instagram ainda não existia e os hush harbors eram apenas memória oral transmitida de mãe para filho, não era tecnológico. O celular foi apenas o dispositivo mais eficiente para uma ansiedade que já estava lá, para um sentimento de pertencer. E isso não para de crescer.
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