Pantagruélicas

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Sangue, trufas e alta gastronomia

Longe dos clichês de violência, ‘Pig’ usa o submundo real e implacável do comércio de trufas para entregar o papel mais refinado da carreira recente de Nicolas Cage

Sangue, trufas e alta gastronomia
Sangue, trufas e alta gastronomia
Foto: Divulgação
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Os últimos anos não têm sido fáceis para o ator Nicolas Cage. Premiado pelo Oscar de melhor ator em 1996 com Despedida em Las Vegas e um dos mais bem pagos artistas nos anos 1990 e no início da década de 2000, ele ganhou centenas páginas de tabloides com dívidas com a receita federal e hipotecas, gastos mirabolantes, abandonos de projetos e ações judiciais. Resultado: atuou em um punhado de filmes muito ruins nos últimos anos. Mas na recente filmografia alguns se salvam, caso de Pig, A Vingança (2021), disponível no Prime Video.

Cage interpreta um eremita chamado Robin Feld, que vive em uma cabana nas florestas do Oregon com uma porca farejadora de trufas. Caçar os tubérculos é a forma de sobreviver, mas a porca é mais que um objeto de trabalho. A floresta do Oregon aparece em tomadas longas, luz filtrada entre as árvores. Robin cozinha cogumelos numa frigideira para ele e para o animal. A trufa é a única raiz que o prende ao mundo que abandonou. Já foi o chef mais reverenciado de Portland, no Oregon, com um restaurante em que se sentar em uma mesa exigia meses de paciência para reservas. Seu isolamento se deu pela morte de sua esposa. 

Hoje, na floresta, tem apenas um cliente, um jovem que chega toda semana para comprar as trufas e mal conversa com o eremita. Logo depois de uma entrega das iguarias, a cabana de Feld é invadida por um casal que o deixa desacordado e ainda mais solitário. Sequestram a porca. Ao recobrar os sentidos na manhã seguinte, o eremita sai em busca de vingança. O que poderia ser mais um filme de ação com litros de sangue e membros decepados se transforma em uma película que mescla um drama e uma atuação em que Cage quase não fala, preenchendo as cenas com o silêncio e o seu corpo, quase sempre ensanguentado e sujo. 

Para se preparar para o papel, o diretor do filme, Michael Sarnoski, pediu que Cage lesse The Devil in the Kitchen, as memórias de Marco Pierre White, o mais jovem chef a conquistar três estrelas Michelin e o único a devolvê-las. “Esta é uma forma de arte em que você ingere a arte”, disse Cage sobre a cozinha profissional em uma entrevista à época do lançamento. Dois chefs de Portland lhe ensinaram a preparar uma torta de cogumelos e pombo assado, pratos que dão nome a capítulos do filme. “Espero que transpareça o amor pela comida nas mãos, o tempo que dedicamos e o modo como a apresentamos.” 

O roteiro é dividido em três capítulos, como três pratos de um menu. No primeiro, a porca é roubada e Robin parte para Portland com seu cliente. No segundo, Robin entra novamente na cena gastronômica da cidade pelo submundo, um clube de luta clandestino em que trabalhadores de restaurantes se espancam nos porões de um hotel demolido. Robin aceita uma surra em troca de informações. O sangue no rosto não sai até o fim do filme. No terceiro capítulo, Robin descobre que a porca foi roubada por ordem de Darius, um empresário que controla o mercado de alimentos raros de Portland e cujo filho, Amir, é o cliente de Robin.

A vingança de Robin envolve uma refeição. Na cozinha do sequestrador, Robin e Amir preparam juntos, em silêncio, o mesmo prato que Robin serviu a Darius e sua mulher anos atrás, uma refeição que Amir lembra como a única vez em que os pais voltaram felizes de um jantar. Sua mãe hoje está hospitalizada, o pai e rival nos negócios mora sozinho. Os três se sentam à mesa. Darius dá algumas garfadas, bebe o mesmo vinho que havia compartilhado anos atrás com sua esposa e levanta-se em lágrimas. 

Quando Robin o segue, diz apenas: eu me lembro de cada refeição que cozinhei e de cada pessoa que servi. Diante da confissão do que ocorre com a porca, Robin chora copiosamente. Vive o luto.

O submundo culinário não é invenção. Em 2014, uma reportagem de Ryan Jacobs para The Atlantic documentou o lado criminoso do comércio de trufas: fazendeiros que patrulham campos com espingardas, caçadores que envenenam cães farejadores de rivais com almôndegas, trufas chinesas vendidas como europeias, evasão fiscal endêmica. Jacobs expandiu a investigação no livro The Truffle Underground (2019). Meio quilo de trufas pode dobrar o salário mensal de um trabalhador. Um cachorro farejador (hoje muito mais empregado que porcos, que podem comer as trufas) pode valer mais de cinco mil euros. 

Ao fim, a caçada pela porca não visa ao lucro ou à reparação do orgulho, mas, sim, ao direito do protagonista de finalmente desabar diante do próprio luto.

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