Pantagruélicas

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Quando Paris foi uma festa

Cem anos de ‘O Sol Também se Levanta’: a geração perdida entre ostras parisienses, leitão assado e a busca por sentido no pós-guerra

Quando Paris foi uma festa
Quando Paris foi uma festa
Ernest Hemingway trabalha no livro 'Por Quem os Sinos Dobram em Sun Valley', em Idaho, em dezembro de 1939. Foto: Domínio Público
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Uma das epígrafes mais famosas da literatura mundial celebra seu centenário. Retirada de uma conversa casual no pátio do número 113 da rue Notre-Dame-des-Champs, em Paris, a sentença proferida por Gertrude Stein definiu toda uma época de artistas que fizeram história nos anos 1920: a “geração perdida”.

Então um jovem jornalista, Ernest Hemingway assistiu à fúria de Stein numa oficina mecânica. Seu Ford Model T apresentava problemas na ignição, e o jovem encarregado do conserto não fora rápido o suficiente. O dono da oficina disparou ao rapaz que tinha tentado consertar o automóvel: “Vocês são todos de uma geração perdida”. Stein, capturando a frase no ar, virou-se para Hemingway: “É isso que vocês são. Todos vocês, jovens que serviram na guerra. Vocês são uma geração perdida”. “De verdade? Talvez o dono estivesse bêbado logo de manhã e fazendo boas frases”, retrucou o jornalista. “Não discuta comigo, Hemingway. Vocês não têm respeito por nada. Vocês bebem até morrer.”

Enquanto Stein usou o termo como veredito moral e sociológico – referência às cicatrizes da Primeira Guerra Mundial –, Hemingway reagiu com seu ceticismo característico, tentando dar um outro lado ao que haviam escutado. Divergências à parte, a frase tornou-se epígrafe de O Sol Também se Levanta, publicado em 1926. Hemingway adicionou ainda uma segunda epígrafe, extraída do Eclesiastes: “Uma geração vai, e outra geração vem; mas a terra permanece para sempre”. 

O romance permanece como retrato definitivo daquela geração de expatriados americanos que fez de Paris seu refúgio criativo nos anos 1920. Jake Barnes, o narrador ferido de guerra e para muitos um alter ego de Hemingway, e Lady Brett Ashley, a aristocrata inglesa emocionalmente devastada, circulam entre cafés parisienses e praças de touros espanholas em busca de sentido em meio ao vazio.

No pós-guerra, numa Europa em reconstrução, Paris era uma cidade barata para americanos com dólares. Essa vantagem cambial permitiu que toda uma geração de artistas – Joan Miró, Pablo Picasso, Salvador Dali, Scott Fitzgerald, Ezra Pound, James Joyce – pudesse perambular pelas ruas da Cidade Luz e dedicar-se a mudar a história da arte. 

Um dos passeios frequentes de Hemingway era ir à livraria Shakespeare and Company, onde mantinha conversas literárias. Foi nesse ambiente que forjou amizade com Gertrude Stein e sua companheira Alice B. Toklas. A residência que as duas mantinham na rue de Fleurus funcionava como verdadeiro centro gravitacional da vanguarda artística, um dos ambientes transpostos por Woody Allen em Meia-Noite em Paris

A cidade vivia então uma efervescência cultural alimentada por cubismo, dadaísmo e surrealismo. A relação de Hemingway com Paris era intensamente sensorial. Em Paris É uma Festa, suas memórias daquele período, ele descreveria os prazeres da mesa parisiense: as ostras gordas e frescas acompanhadas de vinho branco, o pão crocante comprado ainda quente nas padarias, os queijos descobertos nos mercados. Hemingway cultivava gosto por champagne e tinha preferência por truta e salmão, peixes que aparecem repetidamente em sua obra.

Para o jornalista Sergio Augusto, autor de E Todos Foram para Paris – que traça um roteiro pela capital francesa daquela época –, nenhuma outra obra de ficção fez tanto pela boemia parisiense quanto O Sol Também se Levanta. O romance ainda ajudou a revolucionar a literatura. O estilo de frases curtas, diálogos secos e descrições objetivas foi um antídoto ao excesso e à verbosidade que ainda dominavam a prosa inglesa. 

O Sol Também se Levanta não é apenas um romance parisiense. Parte substancial da narrativa se passa na Espanha. A paixão de Hemingway pelo país e pelas touradas permeia cada página. As cenas das corridas de touros não são mero exotismo, mas elementos estruturais que articulam os temas centrais: coragem, morte, ritual. Hemingway via na tourada não um esporte, mas uma tragédia na qual o toureiro enfrentava a morte com técnica e arte. A tourada talvez oferecesse o que a guerra havia destruído: a possibilidade de comportamento heroico dentro de regras estabelecidas.

Hemingway conhecia intimamente a geografia afetiva de Madri. O Restaurante Botín, fundado em 1725 e considerado um dos mais antigos do mundo até hoje, aparece no capítulo final do romance quando Jake e Brett jantam lá após o fracasso de todos os seus relacionamentos. O estabelecimento, com seu forno de lenha original ainda em funcionamento, serve o leitão assado crocante por fora e macio por dentro. Hemingway retornaria ao Botín inúmeras vezes ao longo da vida, tornando-se cliente tão habitual que era chamado de “Don Ernesto” e tinha sua mesa preferida, aquela mesma que aparece no romance não por acaso.

A escolha do Botín é alicerce de parte do romance. Enquanto as instituições humanas ruíam, o forno a lenha do Botín, aceso desde 1725, permanecia queimando. Três garrafas de Rioja talvez não sejam um vício, mas um rito de passagem para um homem que aprendeu que, na falta de um amor possível, resta a integridade de um assado perfeito.

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