Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Os pepinos de Oscar Wilde
Da peça com sanduíches de pepinos à taça inventada no leito de morte: em livro, o neto de Wilde revela quanto da vida do escritor é mito e realidade
Na noite de 14 de fevereiro de 1895, no palco do teatro St James’s, em Londres, o empregado Lane justificava a ausência de legumes na mesa de chá de Lady Bracknell. Seu patrão, Algernon Moncrieff, havia comido todos os 12 sanduíches de pepino encomendados para a tia aristocrática, mas quem assumiu a culpa foi o criado. “Não havia pepinos no mercado esta manhã, nem com dinheiro vivo”.
Enquanto a plateia que lotava a estreia de A Importância de Ser Fiel ria da farsa, do lado de fora do teatro, o Marquês de Queensberry, impedido de entrar, rondava a bilheteria portando um buquê de vegetais. Pretendia arremessar contra o autor da peça. Foi o estopim de uma crise. Em menos de dois meses, Oscar Wilde processaria o marquês por difamação, dando início ao processo que resultaria em sua própria destruição jurídica e financeira.
Em 3 de abril de 1895, no banco de testemunhas do tribunal, Oscar Wilde foi submetido a uma série de perguntas sobre seus hábitos. O advogado queria detalhes das contas de hotel, dos jantares, dos nomes dos homens com quem o escritor tinha se relacionado. No meio do interrogatório, ao ser questionado sobre sua bebida preferida, Wilde respondeu: “Champanhe gelado, mesmo terminantemente contra as ordens do meu médico”.
O advogado retrucou. “Não se importe com as ordens do seu médico, senhor”. Wilde deu a última frase. “Nunca me importo”. A ostentação do gasto e do prazer, que o autor considerava um exercício de coerência intelectual diante da sociedade vitoriana, foi utilizada pela promotoria como evidência do crime. Em maio, foi condenado a dois anos de prisão.
Da humilhação pública e da prisão começaram a circular ainda mais histórias sobre o autor, sua vida privada e a sua obra. Mesmo condenado, teria conseguido enviar para a prisão uma caixa de champagne da casa Perrier-Jouët, da safra 1874. Ainda teria escrito que seu último desejo teria sido uma taça de “PJ”. A safra é real, mas o próprio crítico da revista World of Fine Wine que repete a história põe em dúvida a veracidade do fato, ao escrever que “presumivelmente, espera-se, ele tenha conseguido contrabandeála para dentro”. Lendas rendem.
A morte recebeu o mesmo tratamento. Em muitos textos, Wilde está nos seus últimos dias “tomando champanhe no leito de morte.” Quando escutou os rumores, não teria perdido o humor. “Estou morrendo acima das minhas posses.” A frase talvez seja dele.
Executor literário do espólio e neto de Wilde, Merlin Holland passou quarenta anos editando as cartas completas do escritor e avô, montando a transcrição integral do julgamento de 1895 sem os cortes das primeiras edições e reunindo histórias sobre seu avô. Recentemente lançou o livro After Oscar, ainda sem lançamento no Brasil.
A obra cataloga o que jornalistas, críticos, biógrafos, falsos memorialistas e a própria família inventaram em nome do autor, inclusive a história de que Wilde teria morrido de sífilis. A revisão dos prontuários médicos aponta em outra direção: meningite.
“Tanta coisa após a sua morte foi inventada de uma forma ou de outra”, disse Holland ao The New York Times. “Senti que precisava dar a ele uma voz póstuma. Havia sempre um sentimento de injustiça, já que as pessoas o usavam para vender livros, fazer sensacionalismo.”
Em De Profundis – longa carta a Lord Alfred Douglas, seu amante e o pivô da ação judicial que levou o autor à sua ruína –, ele relata sua ruína financeira: diz que gastou “mais de cinco mil libras em dinheiro vivo” com “os prazeres de comer, beber e afins”. Gostava de frequentar a alta sociedade, as melhores mesas, comer e beber bem. Detalhava, na solidão da cela, suas paixões e escolhas. Não se arrependeu da maioria delas.
Depois de dois anos de prisão, sonhou em se restabelecer com sua família, mas o futuro foi diferente. Sua esposa levou os filhos para o exterior. Mudou o sobrenome deles para Holland, um antigo nome de família. Eles nunca mais voltaram a usar o sobrenome original. Cruzou o canal da Mancha para tentar viver incógnito.
Passou os últimos dois anos em Paris. Adotou o pseudônimo de Sebastian Melmoth. Deixou as festas de lado. O bolso fez que adotasse padrões mais simples. Às 11 da manhã, pão, manteiga e café no hotel. Às duas, uma costeleta e dois ovos cozidos, regados a conhaque Courvoisier. Depois, passava o dia fumando e bebendo em velhos endereços, pedindo dinheiro emprestado a conhecidos que passavam.
Morreu aos 46 anos. Menos de 20 pessoas presenciaram o caixão ser enterrado em uma vala comum alugada em cemitério na periferia de Paris. Somente em 1909, com a doação anônima de uma admiradora da obra do escritor, os restos mortais foram transferidos para o cemitério Père Lachaise, um dos mais famosos da cidade. Sobre a pedra esculpida por Jacob Epstein, peregrinos imprimiram beijos de batom durante décadas, até a gordura dos cosméticos penetrar o calcário e exigir a aplicação de solventes corrosivos. Em 2011, o monumento ganhou uma redoma de vidro, isolando-o dos admiradores.
Não publicou epitáfio, mas, em 1891, publicou um ensaio A Alma do Homem sob o Socialismo. Nele, escreveu em um trecho que “viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe, e isso é tudo”.
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