Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O segredo da loira hitchcockiana
Entre o silêncio de ‘Janela Indiscreta’, a sofisticação de um branco da Borgonha e um baile de escorpianos, Grace Kelly construiu o enigma de uma diva que trocou Hollywood pela realeza, sem nunca abrir mão de si mesma
A persiana sobe devagar sobre o pátio interno de um prédio em Greenwich Village. Verão de 1954. Um termômetro marca calor extremo. Um gato atravessa o beco. A câmera de Alfred Hitchcock entra pela janela do apartamento de um homem, encontra o rosto suado de um homem dormindo, desce pelo corpo até a perna engessada, onde se lê: “aqui jazem os ossos quebrados de L. B. Jefferies”. A câmera sobe de novo e passa por uma câmera fotográfica amassada, por uma foto na parede: um carro de corrida virando no ar, vindo direto na lente. Menos de cinco minutos, nenhuma palavra dita.
Foi Janela Indiscreta o filme do cineasta inglês que o escritor Luiz Fernando Veríssimo escolheu para uma mostra na Cinemateca Brasileira, em 2022, com seus filmes favoritos. Sobre um dos melhores inícios de filmes da história, escreveu: “Hitchcock fez uma abertura antológica: com uma única passagem pelos quadros na parede do personagem do James Steward no começo de Janela indiscreta, ele nos mostra quem é o personagem, o que ele faz na vida e como foi o acidente que resultou na sua perna engessada.” O filme também levou Grace Kelly ao superestrelato.
Ela entra em Janela Indiscreta pouco depois da abertura, também sem aviso: um rosto se aproxima do de Jeff adormecido, em câmera lenta, e o beija antes que ele, ou o público, entenda o que está vendo. Só depois vem o nome, Lisa Carol Fremont, numa voz que parece um sussurro. Hitchcock descreveria o efeito para François Truffaut, anos depois, no histórico Hitchock Truffaut Entrevistas (Companhia das Letras). “Se o sexo for muito escancarado ou óbvio, não há suspense. Sabe por que favoreço loiras sofisticadas em meus filmes? Estamos à procura do tipo para o salão, verdadeiras damas, que se tornam prostitutas quando entram no quarto”.
A cena que interessa a esta coluna vem pouco depois desse beijo. Lisa chega ao apartamento de Jeff com o jantar embalado, tira da sacola uma “quentinha”, uma lagosta, e ergue uma garrafa como quem exibe um troféu: “É um Montrachet.” Hitchcock sabia que parte da plateia reconheceria o branco mais cobiçado da Borgonha e do mundo, dezoito hectares e meio de vinhas nas mãos de cerca de dez produtores. A outra parte entenderia só pelo gesto que aquilo era luxo servido como sedução suprema. A cena dura menos de um minuto e resume a personagem.
Grace Kelly fez três filmes com Hitchcock — Disque M para Matar, Janela Indiscreta, ambos de 1954, e Ladrão de Casaca (1955). Ele a escalou para o primeiro sem nunca ter visto os filmes que já a haviam consagrado. Bastou um teste de tela de 1952, para um filme nunca lançado com ela, chamado Taxi. Foram cinco anos de carreira, onze longas, dos quais a própria atriz considerava metade esquecível. Em março de 1955, ganhou o Oscar de melhor atriz pelo filme Amar é sofrer, no mesmo ano em que Marlon Brando levou a estatueta por Sindicato de Ladrões.
Nove meses depois, O Cisne, em que ela interpretava uma princesa dividida entre um homem charmoso e um príncipe insosso, terminava as filmagens. Em 28 de dezembro de 1955, poucos dias depois, o príncipe Rainier III de Mônaco a pediu em casamento. Os dois haviam se conhecido meses antes, não durante as filmagens de Ladrão de Casaca, como repetem os perfis de revista, mas depois: em 6 de maio daquele ano, num encontro arranjado pela revista Paris Match, quando Kelly já cumpria a agenda promocional do filme em Cannes.
Deixou as telonas, mas não as páginas de revistas. Em 15 de novembro de 1969, no Hotel Hermitage, em Monte Carlo, Grace Kelly deu uma festa fechada aos amigos e conhecidos nascidos sob seu signo (escorpião), para celebrar os 40 anos. Elizabeth Taylor, que estava em outra página do zodíaco, entrou porque o marido, Richard Burton, era escorpiano. Liz Taylor chegou usando uma capa bordada com escorpiões de diamante.
Em texto publicado em The New Yorker no fim de 2009, o crítico Anthony Lane conta que a sua própria mãe lhe garantiu, quando ele era criança e nem sonhava que iria escrever sobre cinema, que o príncipe Rainier proibira a exibição de Alta Sociedade em Mônaco depois de ver a cena em que a esposa, embriagada, é carregada nos braços de Frank Sinatra sob a luz da lua. Lane admite, no mesmo parágrafo, que a história é apócrifa — sem fonte, provavelmente inventada por sua própria mãe. Mas não a descarta: registra que ela existiu, que circulou, que moldou a maneira como ele próprio, ainda garoto, entendeu quem era aquela princesa. Lendas vendem. O biógrafo Donald Spoto tentou o caminho oposto: desmentir, uma a uma, as histórias de casos atribuídos a Kelly com Gary Cooper, Ray Milland, Clark Gable. Consegue, no máximo, provar que ela tricotou um par de meias de Natal para Gable durante as filmagens de Mogambo.
Ao trocar o estrelato de Hollywood pelo protocolo de Mônaco, Grace Kelly não se deixou soterrar pela mística da realeza europeia. O filho, príncipe Albert II, contou à revista People que a mãe insistia em ter peru no Dia de Ação de Graças no palácio; quando não dava certo, “teríamos no Natal”. Peru era prato praticamente desconhecido na França dos anos 1960 e 70, disse Albert, mas a mãe, nascida na Filadélfia, não abria mão do hábito americano a quilômetros de distância dele. O prato favorito dela, segundo relatos da época, nem era o peru: era o hambúrguer, que fazia questão de preparar com as próprias mãos.
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