Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O homem que respondeu ao hambúrguer com penne
Carlo Petrini e o legado internacional do slow food
Um debate se instalou na Itália, em 1986, quando o McDonald’s anunciou a abertura de um restaurante na Piazza di Spagna, um dos lugares mais concorridos de Roma e cuja escada é ponto de encontro de romanos e turistas e foi cenário de diversos filmes. Uns elogiaram o investimento de um gigante global, outros se insurgiram. Alguns políticos tentaram impedir a abertura, vizinhos do estabelecimento ameaçaram entrar com ações judiciais, pessoas saíram às ruas para protestar.
Em março de 1986, quando o restaurante com 400 lugares abriu as portas, Carlo Petrini e um grupo de amigos do Piemonte resolveram protestar — ao seu modo. Trouxeram tigelas de penne com molho ao sugo. Carlin, como todo piemontês o chamava, diminutivo herdado do avô paterno, queria protestar, mas não gritando ou estendendo faixas. Achou que devia comer, distribuir e passar uma outra mensagem. Era a ideia de que comer é um ato político, de que a resposta ao hambúrguer industrializado não era a abstinência, mas o prazer com a comida artesanal.
O McDonald’s não fechou, mas ali começaram a ser fincadas as raízes do movimento internacional Slow Food, que só seria formalizado três anos depois, em um congresso em Paris, em 9 de dezembro de 1989.
Carlo Petrini morreu aos 76 anos, na última quinta-feira 21, em Bra — cidade onde nasceu, em 1949. O presidente da Itália, Sergio Mattarella, disse que a morte deixou “um enorme vazio não só no mundo da gastronomia, mas também na sociedade como um todo, e não apenas na Itália”.
Foi sempre um militante, integrante do Partido Comunista Italiano e do Partido de Unidade Proletária. Estudou Sociologia em Trento sem concluir, “também porque na época parecia que era preciso agir, e o estudo formal podia abdicar à experiência do mundo”, como explicou ao Il Sole 24 Ore em setembro de 2023, numa das suas últimas entrevistas longas.
Enquanto boa parte da esquerda falava às linhas de montagem de Turim e Milão, Petrini falava com agricultores, donos de vinhedos e pomares do Piemonte. “Se tivéssemos falado a língua dos operários de Turim e Milão, ninguém nos teria entendido. Construindo aquela língua original, compusemos uma nova ideia de comunidade.”
Parte da filosofia veio de viagens à França nos anos 1970, sobretudo a Borgonha, onde o vinho havia modelado a economia e a cultura da região. “Quando voltava para casa”, escreveu Petrini em Il Manifesto, “entendia melhor que aqui a esquerda não havia percebido que na ‘civilização’ camponesa havia valores a cultivar, que ela não estava do outro lado.” Era uma observação que Petrini elaborava também com um conjunto de intelectuais que descia de Turim para beber na vinícola de Bartolo Mascarello, em Barolo. Era um grupo que reunia Norberto Bobbio, Primo Levi.
Com esse pano de fundo, Petrini buscou transformar uma ideia em movimento: o alimento como identidade. O Manifesto do Slow Food, redigido pelo poeta Folco Portinari e assinado em Paris por delegações de mais de vinte países, definiu o movimento como “Internacional pela Defesa e o Direito ao Prazer”.
O texto diagnosticava que o século do Fordismo havia “inventado a máquina e depois modelado seu estilo de vida à imagem dela”, espalhando “o mesmo vírus: a vida acelerada”. A cura proposta envolvia o prazer, a mesa sem hora para acabar, o sabor como ato de resistência. Contra Ford. A favor de Proust. Petrini elegeu-se presidente do movimento naquele congresso parisiense, em 1989, e ficou no cargo até 2022.
No intervalo, construiu uma estrutura que vai muito além de um clube de gourmets, embora o risco de se tornar um o tenha perseguido. O jornalista Mark Bittman, do jornal The New York Times, perguntou a Petrini, em 2013, se o Slow Food não era elitista por definição. “Um gastrônomo que não é ambientalista é simplesmente idiota. Um ambientalista que não é gastrônomo é triste. É possível mudar o mundo preservando o conceito do direito ao prazer.”
Em 2004 criou a Terra Madre, rede internacional que reúne agricultores, pescadores, artesãos e cozinheiros do mundo inteiro, e a Universidade de Ciências Gastronômicas de Pollenzo, nos arredores de Bra. Em 2008, o jornal The Guardian o listou entre as cinquenta pessoas mais prováveis de salvar o planeta. Em 2013, o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente lhe concedeu o prêmio Champions of the Earth. O Slow Food chegou a mais de 160 países.
Em setembro de 2000, quando o movimento tinha 60 mil integrantes em 55 países, Petrini disse ao Guardian o que entendia por política do prazer: “Se eu usar uma cueca Armani, ela não se torna parte de Carlo Petrini. Se eu comer uma fatia de presunto, ela se torna parte de Carlo Petrini. Por isso me preocupo mais com o presunto do que com a moda.”
O McDonald’s de Piazza di Spagna continua aberto. O movimento de Carlo Petrini se mantém vivo.
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