Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O futuro do vinho em um mundo que janta sozinho e bebe cada vez menos
A mudança demográfica e o protecionismo forçam o mercado a se reinventar como ativo de luxo para mesas cada vez mais vazias
Para Pantagruel, o personagem criado por Rabelais que batiza esta coluna, o mundo era um banquete sem fim. Esse mundo, hoje, parece definitivamente confinado à ficção.
A leitura de jornais e relatórios de mercado neste início de ano desenha um cenário oposto. Entre a mudança de hábitos da geração Z, o colapso dos rituais corporativos e a nova guerra tarifária lançada por Washington, o setor vitivinícola enfrenta um paradoxo incômodo: nunca se produziu vinho com tamanha precisão técnica — e nunca foi tão difícil encontrar quem o beba.
O tempo, historicamente aliado do setor, começa a se converter em fardo.Cinco das maiores empresas globais de bebidas alcoólicas de capital aberto — Diageo, Pernod Ricard, Campari, Brown-Forman e Rémy Cointreau — acumulam hoje cerca de US$ 22 bilhões em destilados em processo de envelhecimento, o maior nível de estoques em mais de uma década, segundo dados analisados pelo Financial Times.
Parte dessa história passa pelos novos códigos culturais em torno do álcool. Beber deixou de ser rito de passagem, de integração social ou de celebração profissional para muitos jovens. Mas há um vetor ainda mais silencioso e profundo corroendo a base do consumo: a solidão doméstia. A parcela global de lares compostos por uma única pessoa deve aumentar de 28% em 2018 para 35% até 2050. Ou seja: mais pessoas agora fazem suas refeições e relaxam diante de telas. Em 2023, quase 25% dos adultos americanos fizeram todas as refeições sozinhos em um único dia — contra 17% em 2003. Entre jovens com menos de 30 anos, essa proporção praticamente dobrou, segundo dados da The Economist.
No vinho, o efeito é direto. As projeções indicam que o mercado global terá recuado cerca de 2% em 2025, o que configuraria a quarta queda anual consecutiva e levaria o consumo ao menor nível desde 1961. Um número que desmonta décadas de otimismo e expõe o esgotamento de um modelo baseado em volume.
Os vinhos de sobremesa talvez sejam o retrato mais cruel desse processo. Símbolos históricos de abundância, celebração e excesso, eles se tornaram anacrônicos em um mundo que evita açúcar, álcool e longos rituais à mesa. Sauternes, principal região desse estilo na França — exaltada por Thomas Jefferson e colecionada por George Washington — viu o preço de suas terras despencar cerca de 90% entre 1990 e 2023. O luxo que exigia tempo perdeu valor em uma economia que não o tolera mais.
“O consumo está em queda, mas temos buscado mostrar não apenas a versatilidade desses vinhos, como sua capacidade de fechar uma refeição com elegância”, diz Robert Kindl, diretor-geral da Tokaj Oremus, uma das principais vinícolas da Hungria. Historicamente associados à realeza francesa pré-Revolução e aos czares russos, os Tokajis ficaram conhecidos como “vinhos dos reis”. Seu açúcar residual, lembra Kindl, permite harmonizações com frutas, entradas ou pratos mais gordurosos.
A preocupação também alcança os vinhos tintos. Os estoques italianos subiram 8,6% em 2025, reflexo de vendas lentas e consumo em declínio que afetam tanto as regiões mais prestigiadas quanto áreas de alto valor. Na Toscana, o Castello di Ama, uma das referências nos vinhos de Chianti, busca aliar pequenos rendimentos e vinificar parcelas específicas. Escassez rima com luxo. Não se pretende expandir além da região local, como outras fizeram. “Temos buscado mostrar que o vinho é mais que a bebida, é história, é identidade, é cultura”, afirma Arturo Pallanti, que supervisiona os negócios da vinícola. O cenário ganha contornos extras com a guerra comercial aberta por Donald Trump. “Isso cria incerteza, os Estados Unidos são um mercado importante”, observa.
A incerteza em relação às tarifas dos Estados Unidos se soma ao acordo União Europeia Mercosul, o que deve fazer a concorrência no mercado brasileiro se acirrar em todos os elos da cadeia.
Talvez seja o caso de aceitar que se vive o crepúsculo de uma era. Uma era que deixa como herança armazéns cheios de bebidas feitas para envelhecer em um mundo sem paciência. Humphrey Bogart costumava dizer que “a humanidade está três doses de uísque atrasada; se todos tomassem essas doses, não teríamos tantos problemas”. A julgar pelos números, o atraso seguirá se aprofundando.
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