Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
O acordo entre o Mercosul e a UE vai mesmo baratear o vinho no Brasil?
Com redução gradual de tarifas, acordo abre o mercado brasileiro à Europa e pressiona produtores locais
Após 25 anos de discussões, a assinatura do acordo Mercosul–União Europeia promete mudanças tectônicas nas mesas e gôndolas brasileiras. Com atraso, nasce sob a perspectiva de uma geopolítica internacional que combina instabilidade e a agressiva política comercial de Donald Trump.
O acordo sinaliza também o início de uma reconfiguração da enogastronomia nacional, criando janelas de exportação para uns… e desafios severos de competitividade para outros.
Com Trump erguendo barreiras e encarecendo vinhos de Bordeaux e azeites da Andaluzia nos Estados Unidos, a União Europeia vira o leme para o Sul. Com mais de 200 milhões de consumidores e o maior mercado da América Latina, o Brasil se torna a válvula de escape natural para a produção europeia.
O cronograma de desgravação prevê até dez anos para a eliminação total das tarifas. Ainda assim, a mudança começa a ser percebida aos poucos — no bolso e no paladar —, num processo que tende a democratizar produtos antes restritos a ocasiões especiais.
Nas prateleiras, a transformação começa pelo vinho. Nas contas de Otávio Lilla, da importadora Mistral, a redução de preços ao consumidor final tende a acompanhar o ritmo de queda das tarifas, podendo chegar a 20% quando as alíquotas estiverem zeradas. “Mas temos de observar a reforma tributária interna, que pode trazer um aumento de tributação para bebidas alcoólicas e contrabalançar esse ganho”, ressalva. Guillaume Verger, sócio da importadora Tanyno, reforça o otimismo: “O impacto será positivo. Se o importador não mudar a margem, conseguimos repassar uma redução de cerca de 20% no preço”. Hoje, as tarifas de importação podem representar até um quarto do custo de trazer uma garrafa ao país.
Nos próximos anos, o menu brasileiro tende a ser ainda mais europeu — enquanto o café europeu, enfim, poderá ter gosto de Brasil
No topo da pirâmide gastronômica, Ivan Ralston, chef do Tuju (duas estrelas Michelin), observa o movimento com o rigor de quem depende da circulação de excelência. Ralston espera preços mais baixos, mas levanta uma dúvida estrutural: “Fico em dúvida se as importadoras, como as conhecemos, continuarão existindo. Nesse novo formato, faz mais sentido que distribuidoras europeias montem operações próprias aqui e controlem toda a cadeia”. Lilla, contudo, pondera que o Brasil tem particularidades logísticas e tributárias que mantêm os importadores essenciais, citando o exemplo de vizinhos como Chile e Argentina, que, mesmo sem imposto de importação há décadas, ainda dependem de especialistas locais para chegar ao mercado.
O balcão dessa negociação tem dois lados. Se o vinho francês e o azeite espanhol ganham pista livre no Brasil, a agricultura brasileira também avança lá fora. O café finalmente vislumbra o fim da era das commodities cruas. Exportadores brasileiros passam a olhar para a Europa não mais apenas como destino de sacas de grão verde, mas como o mercado onde o café solúvel, torrado e moído — antes barrado por taxas de 9% — poderá competir de igual para igual com as torrefadoras de Trieste ou Hamburgo. É o salto para a industrialização que o setor aguardava há gerações, permitindo que o valor agregado permaneça no campo nacional. A indicação geográfica dos produtos, tão valorizada historicamente pelos europeus, pode abrir caminho para o Brasil avançar nesse terreno, de mélis amazonenses ao café mineiro.
Mas esse otimismo encontra resistência feroz na Serra Gaúcha. Luciano Rebellatto, à frente de entidades do vinho gaúcho, soltou o grito de alerta: os vitivinicultores nacionais, baseados em estruturas de agricultura familiar, temem que a abertura das comportas para o vinho europeu — altamente subsidiado e com impostos baixos na origem — dizime a produção local.
O vinho brasileiro pelo argentino Adolfo Lona. Foto: Arquivo Pessoal
Para o enólogo Adolfo Lona, o mercado ficará ainda mais agressivo para os vinhos do Mercosul, especialmente os chilenos, que hoje detêm quase 50% do consumo nacional. “Acho que os vinhos do Mercosul, em especial os chilenos, vão sofrer com vinhos italianos, espanhóis, franceses e portugueses mais baratos. O consumidor? Feliz com a notícia!”, diz. Lona aponta outros detalhes históricos. Em 1995, com a diminuição de tarifas externas e a estabilização monetária, observou-se um crescimento da importação de vinhos europeus e do Mercosul, sendo que os europeus cresceram duas vezes e meia mais que os dos países vizinhos ao Brasil. “E os nacionais ficaram estacionados em 3,5 milhões de caixas, ou seja, cresce o mercado e a participação passa a ser quase igualitária. Nos dez anos seguintes os europeus caem fortemente e os nossos vizinhos começam a ‘mostrar as unhas’”, afirma.
Nos últimos 15 anos, a Europa dobrou seu volume, impulsionada por Portugal, enquanto o Mercosul se expandiu com o crescimento do Chile, que representa metade do total de importados, destaca Lona. “O futuro? Impossível de prever. O mercado é muito competitivo e dinâmico. As novas regiões produtoras brasileiras das regiões de dupla poda poderão ajudar? Terão custos que permitam dispor de produtos competitivos? E as novas tendências de consumo vão ajudar ou não? Pessoalmente, acho que já passou o momento de considerar o vinho importado um inimigo”, pondera Lona. “Agora é lutar juntos, associados, unidos, buscando alargar o mercado, atrair novos consumidores, em especial entre os mais jovens. O vinho merece ocupar seu lugar de destaque nas mesas dos brasileiros, não como bebida alcoólica, sim como bebida alimento.”
A Espanha, que concentra 75% de suas exportações para o Brasil no azeite de oliva, já se movimenta para garantir que o “ouro líquido” ocupe o espaço que hoje óleos de soja e girassol dominam pelo preço. O que se desenha é um supermercado que passa a funcionar como campo de batalha cultural e econômico. De um lado, o reconhecimento das indicações geográficas forçará o consumidor a entender que o “tipo parmesão” nacional terá de buscar nova identidade, enquanto o Parmigiano Reggiano original pode ter seu preço reduzido.
No final, o que está em jogo é a sofisticação da mesa brasileira, que passa a integrar um circuito global com menos amarras, mas que exigirá da indústria interna uma modernização sem precedentes. Nos próximos anos, o menu brasileiro tende a ser ainda mais europeu — enquanto o café europeu, enfim, poderá ter gosto de Brasil.
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