Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Manta de Retalhos
Como o pioneirismo de um vinho de garagem desafiou o ceticismo local, profissionalizou o vinho no extremo norte de Portugal e transformou a uva Alvarinho em produto de exportação
Em 1974, em Melgaço, extremo norte de Portugal, um punhado de estacas de madeira cravadas de forma simétrica ao redor de vinhedos em um hectare de terra se transformou em assunto da população. Para alguns, a novidade se assemelhava a túmulos em um cemitério. Outros zombavam do que classificaram como “maluquice” de um funcionário público local chamado João Cerdeira.
Até aquele momento, as videiras na região de Monção e Melgaço ocupavam limites marginais dos campos destinados a outras culturas para alimentar as famílias. A Alvarinho, a uva hoje que se tornou um porto seguro de muitos enófilos que gostam de vinhos brancos com acidez, era um detalhe na paisagem. Inspirado no pioneirismo do Palácio da Brejoeira, no município vizinho de Monção, Cerdeira decidiu experimentar naquele pedaço de terra.
A história da Quinta do Soalheiro, que hoje comercializa mais de um milhão de garrafas entre Portugal e o exterior, nasceu dessa experiência. Em 1981, Cerdeira preparou o seu primeiro ensaio enológico sério em uma pipa de 500 litros. Avisado pela esposa de que a pipa não estava bem vedada, não deu muitos ouvidos à afirmação. Acabou perdendo todo o líquido por um fio de torneira esquecido aberto.
O contratempo não retirou o apetite pelo risco. No ano seguinte, em 1982, desalojou o automóvel Ford da garagem de casa para dar lugar a duas pipas. Nasceu ali a primeira colheita oficial do Soalheiro. As primeiras 300 ou 400 garrafas não foram vendidas. Tinham a função de escambo: serviam para trocar por azeite ou mantimentos na mercearia do vilarejo.
O pulo comercial surgiu de amigos, surpresos com o frescor e a elegância daquele “vinho aromático”. “Por que não rotular as garrafas e vender? Aí meu pai resolveu dar o próximo passo”, relembra Maria João Cerdeira, filha de João. Ela esteve essa semana em São Paulo em razão de eventos do Vinhos de Portugal e da importadora Mistral.
Veterinária por formação, ela conciliou por 25 anos o cuidado com os animais e a gestão da vinícola familiar. Sua entrada na empresa familiar, em 2004, deu-se sob um desafio. Ao ser convidada pelo pai para assumir as rédeas das vinhas, Maria João impôs uma condição que considerava audaciosa para a época: queria autorização para converter pelo menos uma parcela para a agricultura biológica. A resposta de João Cerdeira foi o sinal verde para voos altos. “Não tens uma, tens as vinhas todas.”
Há três décadas, muito antes de as palavras “sustentabilidade” e “biodinâmica” se tornarem jargões obrigatórios em relatórios corporativos, a Soalheiro já mapeava detalhadamente seus solos para reduzir o impacto ambiental. Hoje, após o irmão de Maria João ter vendido sua participação para se dedicar a novos projetos com o filho, cabe a ela gerir a propriedade, especializada em brancos com a uva Alvarinho.
A engenharia por trás do Soalheiro, no entanto, vai muito além de seus 15 hectares próprios de terra. Em uma região marcada historicamente pela fragmentação da propriedade, produzir 1,2 milhão de garrafas anuais exige trabalhar de perto com centenas de produtores locais. A vinícola transformou-se no que a própria família define como uma “família de famílias”: o Clube de Produtores do Soalheiro. O preço da uva — o quilo a quase dois euros — é o motor dessa relação.
Essa interdependência ganhou as páginas do livro Manta de Retalhos — Rostos do Alvarinho, lançado pela vinícola em 2023 para registrar em retratos e depoimentos de cada uma das 200 famílias que cuidam de mais de 750 microparcelas de terra cujas uvas fazem os 33 rótulos da vinícola.
Essa preocupação em humanizar a cadeia produtiva é tão estratégica que a Soalheiro realiza um monitoramento demográfico e antropológico na região: estudam-se as linhagens e as gerações descendentes dessas 200 famílias parceiras. O objetivo é entender se os filhos e netos manterão o compromisso com a terra e se permanecerão na região, assegurando a continuidade desse quebra-cabeça humano e enológico. “Tudo é o território, é preservá-lo”, diz Maria.
Enquanto expande suas fronteiras técnicas para experimentos de viticultura extrema em altitudes de 1.100 metros, a Soalheiro mantém o foco em suas origens. As vinhas velhas originais, plantadas pelo pai sob os risos dos vizinhos em 1974, foram preservadas e, desde 2006, são usadas a cada ano no rótulo Primeiras Vinhas. Uma safra recente foi eleita o melhor vinho português em uma premiação da revista inglesa Decanter.
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