Pantagruélicas

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Entre voos e vinhedos: A era Michel Rolland

Morreu aos 78 anos o primeiro enólogo verdadeiramente global, que encurtou as distâncias entre Bordeaux e o Novo Mundo, deixando um legado de vinhos moldados pela técnica e pelo movimento

Entre voos e vinhedos: A era Michel Rolland
Entre voos e vinhedos: A era Michel Rolland
Michel Rolland em registro de 5 de abril de 2016. Foto: Georges Gobet/AFP
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Era quase a hora do almoço quando Michel Rolland chegou a uma pequena propriedade vinícola em Bordeaux, mais precisamente em Pomerol, em que nascem alguns dos mais prestigiados vinhos do planeta. Tinha visitado outras seis propriedades pela manhã e tinha outras três pelo resto da tarde.

Viajava no carro do jornalista John Carlin, da publicação inglesa Observer. Estavam sentados no banco de trás da Mercedes, dirigida por um motorista, algo inusual para um consultor de vinhos. Mas havia uma razão prática: em cada parada, Rolland provava seis, sete vinhos. “Provo em média cem vinhos por dia”, disse, acrescentando que tinha se tornado um mestre no ato de cuspir. A quantidade de paradas era grande: a carteira de clientes somava dezenas de vinícolas. Primeiro na França, depois fora. 

Ao chegar à sala em que os vinhos eram feitos, o dono da propriedade em Pomerol estava nervoso, transferindo o peso do corpo de um pé para o outro. Rolland caminhou até as barricas, provou o primeiro vinho, inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e cuspiu. Disse que o vinho talvez fosse sério demais. Bebeu outra amostra. “Bom”. No terceiro, também elogiou o resultado. O dono dos vinhedos parou de se mexer. Deixou um sorriso envergonhado cruzar o rosto. O jornalista John Carlin, que acompanhava a ronda naquele novembro de 2004, o comparou a um pai orgulhoso com um filho recém-nascido.

Naquele mesmo mês, o documentário Mondovino (disponível na Apple TV), de Jonathan Nossiter, chegava aos cinemas do mundo para discutir como os vinhos tinham mudado e se havia uma mundialização do gosto. Um dos personagens principais do filme era Rolland. 

Uma cena virou polêmica: o consultor ria alto no banco traseiro de uma Mercedes preta, charuto entre os dedos, telefone no ouvido, prescrevendo micro-oxigenação para qualquer produtor disposto a pagar pelos seus honorários — que, segundo o The New York Times, começavam em 30 mil dólares anuais. O jornal francês Libération o descreveu como mefistofélico. Para Aimé Guibert, produtor em Languedoc que Nossiter tratou como um dos heróis da resistência, o diagnóstico era ainda mais definitivo: “O vinho está morto. Sejamos claros: o vinho está morto.” Para alguns, o culpado tinha nome.

Rolland morreu na madrugada desta sexta-feira 20, em Bordeaux, de infarto. Tinha 78 anos. A imprensa especializada registrou o fim de uma era. Depois de o Mondovino ganhar repercussão, em 2006 o jornal The New York Times fez um artigo sobre Rolland cujo título era contundente: “Satanás ou Salvador: Estabelecendo o Padrão da Uvas”.

Foto: Arquivo Pessoal

Toda história tem duas versões. Em uma, Rolland é o agente da padronização global do gosto, o enólogo que percorreu dezenas de propriedades em cinco continentes, da Índia à Argentina, da Bulgária à Califórnia, levando na mala uma receita: esperar as uvas amadurecerem mais, reduzir a produção, trocar as barricas velhas por carvalho novo, buscar aquela textura aveludada que o crítico Robert Parker aprendeu a amar e pontuar e fazer o mercado vender. 

Na outra versão, Rolland é o desbravador que fez vinhos em vários lugares do mundo e tinha talento para ser enólogo. Depois do lançamento do documentário, em 2005, a crítica de vinhos Jancis Robinson, que escreve há décadas no Financial Times, fez um perfil de Rolland. O enólogo acordava cedo. Começava a trabalhar às 7h30 e a última reunião terminava às 19h. Experimentava amostras e amostras de vinhos. Cuspia. Não titubeava em dar sua palavra final sobre o melhor. Foi descrito como “especialista em tintos extremamente maduros, concentrados, aveludados e, frequentemente, marcados pelo carvalho”. 

A jornalista destacava que o trabalho de Rolland consistia em seguir as instruções de seus clientes para produzir vinhos tecnicamente superiores e de fácil aceitação. “Em segundo lugar, sua competência é manifesta. Ele pode ter produzido vinhos desastrosos em sua longa carreira, mas, até onde se sabe, nenhum chegou ao meu conhecimento”, escreveu Robinson, destacando que o trabalho dele melhorou a qualidade de vinhos em países como Argentina (o Clos de los Siete é um exemplo), Chile e Índia.

O mundo em que Rolland fez sucesso, nos anos 1990 e 2000, reunia novos hábitos e a chegada de uma nova geração sem espaço e paciência para aguardar décadas de evolução de um vinho em uma adega. As classes médias americanas e os emergentes sul-americanos e asiáticos descobriram a bebida sem a memória afetiva das gerações anteriores. A técnica central que usava não era misteriosa. Ao estudar várias safras de diversas regiões, encontrou um denominador comum: sol abundante, produção baixa, uvas colhidas no ponto de maturação plena. 

Sua influência foi sentida por décadas, embora a partir da década de 2010 tenha sido declinante. Uma nova geração passou a buscar vinhos naturais, com mais acidez, o conceito de terroir se reforçou entre degustadores e a ideia de uma consultoria foi perdendo ímpeto. Ele continuou a assessorar, viajar e voar.  Primeiro enólogo verdadeiramente global, seu legado ainda será discutido por muito tempo.

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