Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Do front europeu ao terroir paulistano: a crônica de um importador
Marcada por missões secretas na Primeira Guerra e verões de colheitas em Pommard, a trajetória de Geoffroy de la Croix revela a história por trás das grandes garrafas
O vinho chegou cedo para Geoffroy de la Croix. Aos quatro anos, ele já observava o avô, Roger, colocar água na taça para o neto experimentar o que era servido às mesas. Homem de poucas palavras, o avô às vezes murmurava algo sobre a casta ou o terroir de origem da garrafa; noutras, limitava-se a dizer que o garoto gostaria do que estava prestes a provar. A economia nos gestos e na fala guardava o peso de quem havia combatido nas duas Grandes Guerras e sobrevivido aos campos de prisioneiros nazistas.
Se o avô pouco falava, os pais de Geoffroy defendiam à mesa lados opostos nos gostos. A mãe, uma das herdeiras do domaine Comte Armand, uma das mais tradicionais propriedades da Borgonha, defendia a elegância da região. Já o pai, embora sem vinhedos próprios, descendia de uma estirpe de devotos de Bordeaux.
A infância de Geoffroy ainda foi alimentada por histórias que ganharam livros. Seu bisavô, o conde Abel Armand, recebeu em 1917 uma missão secreta do governo francês: costurar uma paz separada com o Império Austro-Húngaro. Diante de uma guerra de trincheiras que sangrava a juventude europeia, Abel viajou à Suíça em agosto daquele ano para se reunir com o conde Nikolaus Revertera, emissário de Viena.
As tratativas estenderam-se por três semanas sob absoluto sigilo, mas falharam. O envolvimento de Abel no que os historiadores formalizaram como as “Negociações Armand-Revertera” cobrou um preço alto no pós-guerra, quando o conde enfrentou acusações infundadas de espionagem. Coube justamente a seu filho, Roger — o mesmo avô que anos mais tarde batizaria o paladar de Geoffroy —, mover a ação judicial que reabilitou a memória do pai.
Com esse histórico, Geoffroy seguiu a tradição jurídica: formou-se em Direito em Paris, onde concluiu o mestrado e o doutorado, e estendeu seus estudos aos Estados Unidos para uma pós-graduação voltada ao mercado americano. Foi em solo nova-iorquino que o destino mudou de eixo ao conhecer Beatriz, uma advogada brasileira. O casamento na Praia do Forte, na Bahia, selou a mudança definitiva para o Brasil e para São Paulo.
Na capital paulista, Geoffroy passou a prestar consultoria jurídica em operações comerciais. A rotina trouxe frustração. “Não sentia que participava de todo o processo; queria algo onde pudesse ter uma atuação muito mais ativa”, recorda ele, durante um almoço em uma quinta-feira no restaurante do hotel Emiliano, em São Paulo.
A resposta estava na memória afetiva e na rede de contatos construída desde a infância na Europa. Geoffroy decidiu trocar os pareceres pelos vinhos e fundou a importadora que leva seu sobrenome: a DelaCroix. “Na infância, eu participava das colheitas do domaine Comte Armand com meus primos e isso me deu um outro olhar para o mundo do vinho.”
Para desenhar o portfólio inaugural, Geoffroy valeu-se do auxílio de um sommelier que havia servido as mesas do ex-presidente francês Jacques Chirac. Juntos, avaliaram cerca de 600 rótulos para selecionar apenas 10 pequenos produtores de perfil artesanal.
Foi durante esse processo de seleção que Geoffroy percebeu um denominador comum entre os vinhos: a maioria se inseria na filosofia dos vinhos naturais e biodinâmicos. Apostar nessa linha fixou a importadora como precursora no mercado brasileiro. O portfólio nascia fincado em uma vanguarda conceitual muito antes de o tema virar tendência global.
Nem mesmo o sangue azul da Borgonha garantiu facilidades comerciais no início. Ao abrir as portas da importadora, Geoffroy enfrentou uma ironia: ele não conseguiu, de imediato, a alocação das garrafas da própria família, o Domaine Comte Armand. Os vinhos eram tão disputados e escassos no mercado internacional que o laço de parentesco direto não foi suficiente para pular a fila. Ele precisou esperar alguns anos para finalmente receber suas primeiras caixas.
O início da operação foi espartano. A importadora ocupava o andar de um prédio comercial no bairro de Pinheiros, sem grandes estruturas logísticas ou orçamentos de marketing. O crescimento da marca deu-se de forma orgânica, calcado no “boca a boca”. Hoje a importadora tem um espaço nos Jardins, que também serve de restaurante em eventos e aos sábados.
Geoffroy passa parte do tempo na ponte aérea entre Brasil e França. As viagens regulares servem para mantê-lo intimamente ligado ao Domaine Comte Armand, onde participa ativamente das degustações in loco. Em uma de suas visitas recentes, Geoffroy participou dos bastidores da transição de comando técnico no Comte Armand.
O domaine carrega a tradição de investir em jovens talentos ainda não plenamente consagrados. Para preencher o posto, organizou-se um processo de seleção com diversos candidatos. A enóloga australiana Jane Eyre sagrou-se vitoriosa. Não param aí as novidades.
A DelaCroix anuncia a chegada de dois novos produtores da Borgonha: o Domaine Castagnier e o Domaine Buisson-Charles. A escolha de ambos carrega uma particularidade: a contiguidade de seus vinhedos com o patrimônio do Domaine Comte Armand. O Domaine Buisson-Charles, por exemplo, possui parcelas em Volnay que são vizinhas com os vinhedos do Comte Armand.
À mesa, ele confessa um de seus grandes desafios atuais: o fato de ainda não ter conseguido fazer com que as filhas participem da alegria das colheitas na Borgonha. Replicar com as filhas a mesma imersão que ele desfrutou na infância é um plano em andamento, fundamental para manter viva a linhagem de afetos que liga a família à terra. Também pensa em abrir um restaurante.
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