Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Criador e criatura
De martinis batidos a champanhes na temperatura exata, a estética de James Bond possui o espelho do rigor e das idiossincrasias de seu criador, Ian Fleming
No início de Goldfinger, James Bond está num quarto de hotel em Miami. Está de férias, mas uma missão logo aparece e em seguida ele tem seu primeiro flerte. Há uma mulher loira na cama. Ele se levanta. Veste o robe. Ela prefere que ele não saia, mas ele tem um compromisso inadiável. “Há certas coisas que simplesmente não se fazem, como beber Dom Pérignon 1953 acima de 38 graus Fahrenheit. É tão imperdoável quanto ouvir os Beatles sem fone de ouvido”, diz Bond, na voz de Sean Connery.
A cena do filme – lançado em 1964, primeiro 007 a arrecadar mais de 100 milhões de dólares no mundo – retrata não apenas as idiossincrasias de Bond, mas de seu criador: Ian Fleming, que visitou o set em que Goldfinger foi filmado, mas morreu antes do lançamento do filme, que inaugurou como produto de exportação global o agente secreto com licença para matar.
Em abril de 1962, Fleming estava sentado num restaurante em Nova York. O repórter Geoffrey T. Hellman, de The New Yorker, o encontrou no Hotel Pierre para um curto perfil. Na entrada, Fleming pediu um martini de vermute americano e gin Beefeater, com casca de limão. Depois pediu outro. Depois uma garrafa de cerveja. Em seguida, café e queijo Camembert. “O Camembert dos Estados Unidos é melhor do que o francês”, declarou peremptoriamente Fleming, que recentemente ganhou uma elogiada biografia, Ian Fleming: The Complete Man, de Nicholas Shakespeare.
Fleming tinha 53 anos naquele almoço. Usava terno azul-escuro, camisa azul e gravata borboleta com bolinhas azuis. Fumava cigarros Senior Service. O repórter anotou os detalhes do visual com a mesma precisão que Fleming usava para descrever os ternos de James Bond, feitos sob medida na famosa rua Savile Row, e o martini. Não eram descrições a esmo. Criador e criatura compartilhavam gostos.
Seis anos antes do almoço de domingo em Nova York, Fleming publicou na revista Holiday um texto sobre os melhores restaurantes de Londres. (A revista hoje se tornou item de colecionador e é vendida na internet). Inicia o texto com uma declaração: diz não ser um gourmet de carteirinha.
Diz também possuir uma primeira edição da Physiologie du Goût de Brillat-Savarin, um histórico livro dos primórdios da culinária moderna, mas tê-la aberto uma única vez, para ler o trecho sobre afrodisíacos. Sua opinião, no entanto, é sustentada por um princípio: nunca recebeu uma refeição ou bebida de graça em nenhum lugar do planeta. Não conhece o nome da maioria dos garçons de Londres.
Se em Virginia Woolf a cozinha britânica sofria críticas, Fleming enxergava outro lado. “O problema na Inglaterra reside em como desfrutar da boa culinária inglesa sem o revés do mau preparo inglês. Assim como considero que todos os americanos preparam bem ovos fritos com bacon, creio que, na Inglaterra, o melhor prato de ‘mínimo múltiplo comum’ seja o peixe com batatas fritas. Recomendo enfaticamente ao turista americano de espírito aventureiro que viaja pela Grã-Bretanha que almoce em uma modesta loja de peixe com batatas fritas, em vez de recorrer a hotéis ou restaurantes.”
Fleming tinha apreço especial pelos drinks. Escreveu que era extremamente difícil conseguir um bom Martini em qualquer lugar da Inglaterra. “Nos restaurantes e hotéis de Londres, a maneira de obtê-lo é pedir um Martini seco duplo feito com vodca. Já o método que utilizo para conseguir um que me agrade em qualquer pub é caminhar com calma e confiança até o balcão e, falando com clareza, pedir ao atendente que coloque bastante gelo na coqueteleira (quase todos possuem uma), despeje seis medidas de gim e uma de vermute seco (enunciando ‘seco’ com cuidado) e bata até que eu mande parar.”
Jessie e Georgia Grimond, sobrinhas-netas de Fleming e administradoras do espólio, disseram numa entrevista de 2019 que os coquetéis reuniam para ele tudo aquilo de que ele gostava: precisão de método, exatidão sobre ingredientes, um toque de luxo e um elemento de leve risco alcoólico. O livro de coquetéis oficial do espólio, Shaken: Drinking with James Bond and Ian Fleming (Mitchell Beazley), confirma a operacionalização dessa estética nos romances: champagne é a bebida mais mencionada nos livros de Bond — 121 vezes —, mas quase nunca descrita. O Dry Martini aparece 58 vezes.
No Casino Royale, o primeiro romance, publicado em 1953, Bond especifica o martini em um capítulo: três medidas de Gordon’s, uma de vodca, meia de Kina Lillet. Agitado, não mexido. Com uma casca fina de limão. Batiza de Vesper, o nome da mulher por quem se apaixona e depois o deixa tragicamente. Fleming não usa adjetivos como elegante, não classifica a qualidade dos taninos, não descreve o final de boca de um drink. A Dom Pérignon 53 é comparada aos Beatles.
Com a saúde se deteriorando, Fleming se viu em outra posição. Depois do ataque cardíaco em 1961, seu consumo de álcool foi reduzido a duas doses padrão de destilado por dia. Sua primeira providência foi escrever ao Ministério de Agricultura, Pescas e Alimentação do governo britânico para descobrir quais marcas de espirituosos eram as mais puras do mercado. Quando não se pode ter tudo, a variável a otimizar é a pureza.
Em março de 1964, Fleming visitou os estúdios Pinewood. As filmagens de Goldfinger estavam em curso. A cena de Miami — a da geladeira e da champagne — estava sendo rodada ali. Fleming conversou com Sean Connery e com Shirley Eaton, a mulher que logo seria pintada de ouro e estampada na capa da Life.
Morreu em 12 de agosto de 1964, aos 56 anos. Goldfinger estreou 36 dias depois. Em 1964, quase seis milhões de exemplares dos romances de Fleming foram vendidos no Reino Unido; só Goldfinger, o livro, vendeu quase um milhão de cópias. O mito que ele havia construído explodiu sem ele. Criador e criatura se tornaram mitos.
Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome
Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.
O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.
Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.
Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.



