Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
Pantagruélicas
Caviar, champagne, espiões e o declínio de Yalta
Há 80 anos, Churchill, Stalin e Roosevelt redesenhavam o mundo entre doses de caviar e caixas de Margaux. Hoje, o multilateralismo cambaleia sob líderes movidos a canetas emagrecedoras e Coca-Cola Diet
No corredor do segundo andar do Palácio Livadia, cada porta tinha um cartão pregado, que informava em que banheiro e a que horas o ocupante daquele quarto poderia tomar banho. Quem os distribuiu foi Norris Houghton, tenente da reserva da Marinha americana que tinha aprendido a falar mais ou menos russo em uma estadia de cinco meses em Moscou e que por isso tinha sido encarregado de organizar os aposentos da delegação dos Estados Unidos. Eram nove banheiros para cento e um homens e duas mulheres, como relatou anos depois em texto para a revista The New Yorker sobre como tinha sido a Conferência de Yalta. No andar de cima, o mundo do século XX era redesenhado.
O rodízio de banheiros não poupou nem o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt. Era o início de fevereiro de 1945. Roosevelt tinha vindo à Criméia, mais especificamente a Yalta, discutir com Yosef Stalin e Winston Churchill o redesenho de fronteiras e o equilíbrio de poder. A guerra ainda não tinha sido encerrada, mas havia sinais de que o fim estava próximo: o Dia D, em 6 de junho de 1944, havia sido um sucesso; em agosto de 1944, as tropas americanas e britânicas tinham libertado Paris e, em setembro, entraram na Alemanha. Os soviéticos, cuja resistência à invasão da Alemanha tinha sido ponto de inflexão do conflito, haviam reconquistado a Polônia e avançavam também sobre uma parte do território alemão.
Se faltava espaço para abrigar todos os participantes, Stalin quis impressionar em outros detalhes. O café da manhã de americanos e britânicos começava com uma travessa de caviar fresco por pessoa (um general americano que detestava peixe sobreviveu às custas das barras de chocolate Hershey que trouxera na bagagem). Não era cortesia reservada a altos funcionários. Na primeira noite de Houghton em Livadia, antes que qualquer figura importante chegasse, um velho garçom de fraque e avental serviu a ele e aos outros oficiais subalternos um monte de caviar; sobre cada mesa de carvalho havia uma garrafa de vodca e duas de vinho caucasiano, um tinto e um branco. Houghton recusou o espumante russo, que achava doce a ponto de enjoar, e pediu conhaque. A louça, a mobília, os garçons e os cozinheiros vinham todos de Moscou. Quando um dos britânicos reclamou da falta de limão para acompanhar o caviar de todos os dias, um limoeiro teria sido providenciado e plantado à vista de todos.
A abundância de alimentos contrastava com o cenário de racionamento imposto por grande parte do mundo. A secretária de Churchill, Jo Sturdee, escreveu para casa que comia manteiga demais e que gostaria de ser um camelo para estocá-la — na Grã-Bretanha, manteiga era artigo de luxo desde os bombardeios a Londres. Os três países estavam negociando a paz em clima de fogo amigo. Parte dos caminhos de cascalho que levavam ao palácio que era sede da delegação americana teria sido alisada de propósito, para aumentar a chance de que Roosevelt, na cadeira de rodas, os escolhesse. Nos canteiros laterais, escutas foram escondidas entre flores.
Os soviéticos e seu líder preferiam vodka a outras bebidas. A razão não seria o teor alcóolico, mas a cor. Em alguns relatos, Stalin mandava reabastecer seu copo com água quando achava que ninguém via e permanecia lúcido enquanto alguns convidados eram carregados para os quartos. No jantar que ofereceu em 8 de fevereiro, um participante contou vinte pratos e quarenta e cinco brindes. Churchill descreveu Yalta como uma “Riviera de Hades” e disse que pretendia sobreviver “levando um suprimento adequado de uísque, bom para o tifo e mortal para os piolhos”. Na verdade, levou mais.
No sétimo dia da conferência, os três líderes estavam perto de chegar à conclusão. O futuro da Polónia, a Organização das Nações Unidas (ONU) e a guerra com o Japão haviam todos sido decididos. Concordaram também em assinar o protocolo sobre a divisão da Alemanha e de Berlim. Churchill quis oferecer um banquete. O primeiro prato do jantar incluía caviar, salmão e leitão. Seguiram-se vols-au-vent recheados com caça, duas sopas, peixe em molho de champanhe, e cabrito selvagem. O terceiro prato incluía peru, perdiz e codornas assadas. Tudo devidamente harmonizado.
Uma encomenda especial (nome de código “Yalta Voyage 208”) havia sido recebida pela delegação britânica, segundo relato do livro Checkmate in Berlin, de Giles Milton. Incluía um carregamento de champanhe Veuve Clicquot de 1928, centenas de garrafas de vinho alemão. O embaixador britânico em Moscou também enviara uma caixa de Chateau Margaux 1928. Quando Churchill fez o seu brinde ao líder soviético, foi cortês como sempre. “Houve uma altura em que o marechal Stalin não foi tão gentil para conosco, lembro-me de ter dito algumas coisas rudes sobre ele, mas os nossos perigos comuns e lealdades comuns fizeram esquecê-las. Os mal-entendidos do passado arderam no fogo da guerra. Sentimos ter um amigo em quem podemos confiar, e espero que ele continue a sentir o mesmo em relação a nós.”
A conferência durou oito dias. Yalta redesenhou o mundo do século XX, abriu caminho para a criação da ONU, redefiniu fronteiras e manteve irresolvidos vários conflitos que seriam deflagrados nas décadas seguintes, diante de uma guerra fria que perdurou até 1989, ano em que Francis Fukuyama escreveu o texto Fim da História, em que argumentava que a derrota do fascismo após a Segunda Guerra Mundial e a derrocada do socialismo posicionavam o liberalismo como a ideia-força para organização político-econômica das sociedades. Os últimos meses, e os avanços dos governos de Donald Trump e de Vladimir Putin apontam que a configuração de Yalta e o multilateralismo estão em xeque.
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