Pantagruélicas

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A nova Alemanha

Moritz e Jasmin Kissinger-Bähr personificam a geração que tenta resgatar o prestígio do vinho alemão

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Foto: Arquivo Pessoal
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Em 1912, quando o Titanic zarpou de um porto em Southampton rumo a Nova York, espumantes e brancos da uva Riesling rivalizavam em prestígio e preços com os mais famosos rótulos da França na carta de vinhos da primeira classe. O posterior naufrágio marcou um ponto de inflexão para o vinho alemão: duas guerras, a guerra fria e um erro de marketing levaram a uma derrocada.

Se os noruegueses criaram uma bem-sucedida estratégia de propaganda e tornaram o salmão um peixe comido de Tóquio a São Paulo, os alemães erraram feio. Responsável por até 60% das exportações viníferas da Alemanha, a invasão das garrafas azuis de Liebfraumilch acabou marcando negativamente a imagem do vinho alemão mundo afora. Muitos, até hoje, torcem o nariz, associando esses vinhos à imagem de um líquido doce, barato e industrial. Uma dor de cabeça assegurada.

Gradualmente a história tem mudado. Baseado em Rheinhessen, no sudoeste alemão às margens do rio Reno, uma região que para o vinho alemão é o que Bordeaux é para a França, Moritz Kissinger pertence a uma geração que busca incorporar as raízes da tradição trazendo inovações. Em 2018, assumiu parte das terras da família, cultivadas há quatro gerações, mas vinificadas e vendidas com o rótulo da propriedade apenas a partir de seu pai. 

Depois de estudar vinhos na França, mais especificamente na Borgonha e no Jura, decidiu trabalhar com Chardonnay, uma uva que faz sucesso mundo afora, mas cujo histórico na Alemanha é recente. A legislação alemã proibia até o meio dos anos 1990 o uso da uva em vinhos de qualidade certificados pelo órgão de controle. A barreira legal foi vencida em 1994.

Moritz aproveitou uma coincidência climática: o aquecimento global tornou a Alemanha menos fria. Regiões que antes não amadureciam Chardonnay completamente agora produzem vinhos com a acidez vibrante típica de climas frescos, mas sem a dureza de outrora. Isso permite criar vinhos com frescor mineral e que às cegas podem parecer franceses.

Com videiras plantadas em 1994, Moritz começou a vinificar uma parcela de um hectare de Chardonnay. O primeiro vinho saiu em 2020. O resultado atraiu a atenção. Uma das maiores lojas de vinhos da Alemanha chamou Moritz de garoto prodígio, o New York Times fez matéria sobre o renascimento do vinho alemão e destacou o Chardonnay dele. 

O vinho chamou a atenção ainda de Jasmin Bähr, que havia trabalhado como sommelière em Paris e estudado vinho na Borgonha e na Alsácia. Começaram a namorar. Casaram-se no ano passado: a vinícola passou a se chamar Kissinger Bähr. O Chardonnay continua sendo um dos principais destaques do portfólio. 

Agora os vinhos ganharam mais tempo de maturação, com dois invernos antes do engarrafamento e de chegarem ao mercado. Ganham mais complexidade. Tecnicamente, aproximam-se do estilo de grandes borgonhas, que descansam longamente sobre as borras para ganhar estabilidade e textura sem precisar de filtragem pesada. “Quis fazer Chardonnay porque eu achava que era possível fazer um de qualidade na Alemanha e a uva me encantou na França”, diz Moritz, que esteve em São Paulo nesta semana em evento da importadora Maison Sirino, que receberá em breve os vinhos. Os preços ainda não estão disponíveis. 

O Chardonnay foi apenas o começo, e Moritz queria ir mais longe: resgatar uma glória ainda mais antiga. No início do século 20, a Alemanha não era apenas um grande produtor, mas o maior mercado consumidor de espumantes do mundo. O prestígio era tanto que casas de Champagne francesas foram fundadas por alemães (Krug, Bollinger, Mumm, Piper-Heidsieck). 

O imperador Guilherme II instituiu imposto sobre o vinho espumante com objetivo de financiar a construção da frota de guerra imperial. O imposto sobrevive até hoje. A pressão tributária, somada às crises do pós-Guerra, forçou os produtores a reduzir custos para o espumante acessível à classe média. Isso levou ao uso generalizado da fermentação em grandes tanques de aço, um método mais barato e rápido, em vez do lento e trabalhoso método tradicional, em que cada garrafa fermenta individualmente, como na Champagne.

Depois de um estágio na Champagne, Moritz voltou com a vontade de vinificar espumantes com uvas locais e feitos com mais de 18 meses sob leveduras, o que aumenta a complexidade. Busca ainda usar uvas de Chardonnay, Pinot Blanc e Pinot Noir e de safras diferentes. “A Alemanha tem potencial para bons espumantes”, afirma Moritz.

Agora Moritz e Jasmin trabalham juntos na vinícola, que ganhou nova dimensão. Desde 2024, eles conseguiram arrendar algumas parcelas de Riesling nos melhores trechos de terra da região. Produzem ali cerca de mil garrafas em cada um dos terroirs. A expansão se deu sobre a terra chamada de “encosta vermelha”, um paredão de solo avermelhado que despenca em direção ao rio Reno. É tão íngreme (declives de até 70 graus, como uma rampa de skate radical) que trator não sobe. Tudo é feito à mão, do plantio à colheita.

Mas essa verticalidade é o que permite que as videiras capturem a luz solar refletida pelo espelho d’água do Reno, garantindo maturação em um clima que, de outra forma, seria hostil. “Os vinhos têm uma mineralidade distinta”, afirma Jasmin. “Os vinhos carregam o sabor característico do solo e da luz que se reflete na parcela.”

A chegada de Jasmin trouxe outras inovações: ela ajudou a tornar os vinhos ainda mais gastronomicamente versáteis. A decisão de estender a maturação para dois invernos passa por essa percepção: vinhos de prestígio precisam de tempo para integrar a acidez. Jasmin foi peça-chave na decisão de expandir para o Riesling na encosta vermelha, com vinhos de minúscula produção. Agora o casal também irá trabalhar uma parcela especial de pinot noir, buscando um tinto elegante e mineral, cuja primeira safra ainda deve levar dois anos para chegar ao mercado. Nas encostas onde só as mãos alcançam, o vinho alemão volta à tona em várias versões.

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