Pantagruélicas
Ideias e memórias e de um jornalista apaixonado pelos vinhos e a gastronomia
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A geometria do crime: o paladar rigoroso de Hercule Poirot
Enquanto a Netflix prepara a chegada de mais uma versão de Agatha Christie, mergulhamos no paladar do detetive belga: um homem que exige vinhos encorpados, mas aceita o sacrifício do paladar em nome da justiça
Estreia na Netflix na próxima quinta-feira 15 a minissérie Os Sete Relógios, baseada em um mistério de Agatha Christie escrito em 1929 e que não conta com a presença de seu mais famoso detetive – Hercule Poirot e suas pequenas células cinzentas. Os rumores são de que o lançamento será usado para alavancar a audiência da série Poirot, que deverá chegar pela primeira vez ao streaming em alguns países em breve (esperemos que ao Brasil também).
Comida e bebida sempre estiveram relacionadas aos mistérios de Agatha Christie e, principalmente, aos de Poirot. Para ele, a desordem na mesa é o prelúdio da desordem na mente. O detetive particular não come apenas para se sustentar. Come para restaurar a harmonia do universo. Resolver um crime é encaixar cada peça do quebra-cabeça, assim como uma mesa bem-posta abre uma boa refeição.
Essa obsessão pela estética da ordem é descrita em A Casa do Lado, uma aventura ao lado de seu fiel amigo, o capitão Hastings, que explica um dos rituais: Poirot exige que as suas torradas sejam rigorosamente quadradas e que os seus ovos cozidos sejam perfeitamente idênticos em tamanho. Qualquer falta de simetria é um insulto às famosas “células cinzentas”.
O apetite, contudo, é deixado de lado quando ele precisa encontrar a verdade. A dedicação faz com que ele aceite um sacrifício: a renúncia ao próprio paladar. Em A Morte da Sra. McGinty, o detetive submete-se a uma provação ao hospedar-se numa pensão decadente. Ali, é obrigado a enfrentar correntes de vento, o chá diluído dos britânicos e uma comida que ele descreve como intragável. Tudo em nome da salvação de um inocente.
O sacrifício repete-se, de forma mais sombria, no seu caso final, Cai o Pano, escrito anos anos 1930, mas lançado apenas em 1976, em que Poirot faz sua despedida. Ao regressar à pensão Styles — o cenário do seu primeiro caso —, Poirot encontra um ambiente negligenciado e uma culinária que é a antítese do seu chocolate quente espesso e das suas infusões reconfortantes. Em Styles, a decadência da comida acompanha a decadência do seu próprio corpo, mas o seu apetite pela justiça permanece intacto, principalmente atrás de um assassino sofisticado que parece ter saído das páginas de Shakespeare.
Seu ritual vai além da geometria das torradas. Ele nunca compreendeu verdadeiramente o chá das cinco dos britânicos. Enquanto Hastings se delicia com o bule de chá, Poirot refugia-se no conforto de uma xícara de chocolate quente ou em suas infusões. Para o detetive, uma infusão de ervas não é apenas uma bebida, é um agente de ordem interna, um calmante para os nervos após o choque de um crime ou de um interrogatório. É o reconforto para a organização das células cinzentas.
No romance Os Relógios, Poirot afirma ser um conhecedor de vinhos, especialmente tintos franceses. Em um dos contos de Os Trabalhos de Hércules, chega a servir a um amigo um cálice do prestigiado Château Mouton Rothschild, um bordeaux reputado. Aprecia também uma taça de Jerez no início das refeições, além de licor de menta e licor de cassis, que são bebidas infalíveis em seu armário.
Contudo, nem só de triunfos se fazem o seu paladar e a sua carreira. O seu ego encontra o seu limite histórico no açúcar. No conto A Caixa de Chocolates, Poirot comete o seu erro mais famoso ao ignorar uma tampa de cor trocada em uma caixa de bombons — uma falha de percepção que quase deixou um culpado escapar. Por isso, deu a Hastings uma instrução sagrada: sempre que Poirot se sentisse excessivamente exultante, o amigo deveria sussurrar apenas: “A Caixa de Chocolates”.
Investigar, para Poirot, é um processo digestivo. Ele ensina-nos que a justiça, tal como uma boa refeição, deve ter a precisão de uma torrada quadrada, a doçura de um chocolate quente e a alma encorpada de um bom vinho. Afinal, a verdade é o único prato que ele se recusa a deixar malpassado.
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