Midiático

Demissão de jornalista no Paraná é alerta para liberdade de imprensa

Rogério Galindo foi demitido da Gazeta do Povo por suas posições independentes e críticas ao ex-capitão durante o processo eleitoral

Represália a jornalistas coloca em xeque um dos seus valores fundamentais da profissão: a independência
Represália a jornalistas coloca em xeque um dos seus valores fundamentais da profissão: a independência
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Conta a história que, nos tempos da ditadura, o todo poderosos Roberto Marinho enfrentou os algozes fardados em defesa dos jornalistas de O Globo. O general Juracy Magalhães, à época ministro da Justiça do marechal Castelo Branco, entregou a ele uma relação de profissionais considerados críticos ao regime militar que deveriam ser demitidos do jornal. “Dos meus comunistas cuido eu”, teria reagido Marinho ao general. Isso foi em 1964.

Em 2018, o patronato verde-amarelo não tem a mesma audácia de Marinho, um aliado da repressão. Silvio Santos, o CEO do grupo SBT, não esperou a posse de Bolsonaro para comemorar sua chegada ao Planalto. Na terça-feira 6, tendo como fundo musical o hino nacional brasileiro, o SBT exibiu vinhetas de boas-vindas ao ex-capitão dos tempos da ditadura com a imagem do slogan “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

Leia também: SBT recupera ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ e música ufanista da ditadura

Um dia antes, em Curitiba, o jornal Gazeta do Povo, ligado ao grupo RPC de rádio e televisão, afiliada da Rede Globo, demitiu o jornalista Rogério Galindo por suas posições independentes e críticas ao ex-capitão durante o processo eleitoral.

Em nota, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná afirmou que “Galindo foi o contraponto de uma cobertura favorável [do jornal] a Jair Bolsonaro e crítica a Fernando Haddad”. Lembrou que, em editorial de 26 de outubro, a Gazeta defendeu que o País fosse às urnas para dizer um inequívoco ‘não’ ao grupo político que governou por quase 14 anos e deixou uma herança maldita.

A gota d’água deu-se na noite de 28 de outubro, logo após o anuncio da vitória de Bolsonaro. Às 19:41, Galindo publicou em seu blog o texto “A imprensa elegeu Bolsonaro ao ser conivente com o ódio”. Nele, tocava o dedo na ferida de forma explícita.

Começou afirmando que “O ódio venceu. O ódio ao diferente, a intransigência com a pluralidade. Venceram a tortura, a misoginia, a homofobia, o racismo. Venceu o autoritarismo, o retrocesso de quem quer levar o País de volta ao ponto em que estava “40 ou 50 anos atrás”.

Depois, apontou para os responsáveis pelo equívoco eleitoral. “Mas é preciso neste momento dar nome aos bois e dizer que uma parte gigantesca da culpa por este retrocesso cabe aos barões da imprensa brasileira. E aqui cabe diferenciar entre veículos independentes e veículos do baronato. E cabe diferenciar entre o chão de fábrica e os donos.”

Lembrou que “em qualquer lugar civilizado, o discurso em que o candidato, há uma semana da eleição, promete mandar para a Ponta da Praia, um centro de tortura e extermínio, os seus inimigos políticos, teria levado às mais ásperas manchetes, aos editoriais mais incisivos.” Antes de concluir o texto, Galindo lembrou que “os mesmos jornais que foram tigrões diante de Dilma Rousseff se mostraram tchutchucas deparados com um capitão torturador.”

Foi o que bastou. O jornalista demitido tinha 18 anos de casa e era o principal articulista político do jornal. “Galindo está longe de ser um homem de esquerda. Apenas procura levar a ferro e fogo a ideia da isenção jornalística. Ele é um jornalista sensato, muito bem articulado e detentor de cultura e conhecimento invejáveis, que tanta falta faz nas atuais redações” afirmou Elson Faxina, jornalista, professor e pesquisador em comunicação da Universidade Federal do Paraná.

A medida, ainda segundo Faxina, mostra justamente aquilo que grande parte da imprensa brasileira tenta camuflar: ser isenta, imparcial ou neutra. “Será preciso acabar com esta hipocrisia. Agora o rei está nu de fato. A máscara caiu e a Gazeta se assume como um panfleto de estrema direita”.

Na opinião de Mário Messagi Junior, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas do Paraná, Galindo representa algo que é muito caro a profissão, um dos seus valores fundamentais: a independência. No entanto, a chamada grande imprensa nunca foi exatamente um espaço de pluralismo liberal, do mercado de ideias, de confrontação de visões de mundo antagônicas.

Para ele, o jornalismo brasileiro viverá, neste período, uma fase de grande pressão sobretudo às vésperas da posse do novo presidente, “pois não esconde que vai distribuir recursos publicitários para aliados e tentar sufocar a imprensa independente”.

O jornalista só se manifestou pelas redes sociais. Na segunda-feira 5, publicou um pequeno texto de despedida aos colegas de redação. “Fui demitido hoje da Gazeta do Povo, depois de 18 anos. Minha única ambição é que meus filhos, quando vierem a entender o mundo, achem que as decisões que eu tomei e que me trouxeram até aqui foram acertadas. (…) Boa sorte pra quem fica. O jornalismo precisa de vocês”. Procurada, a Gazeta do Povo afirmou que não comenta demissão pontual.

Para o Sindicato, perde o jornalismo, inexistente sem o contraditório. Perde a democracia. Perdemos todos.

CartaCapital

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