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Petróleo reaparece no Nordeste: Quais perguntas a mídia deixou de fazer?

Após três anos da tragédia-crime, maré traz novas manchas e jornais têm cobertura tímida

Foto: Administração Estadual do Meio Ambiente (Adema)/Sergipe
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Três anos após aparecerem as primeiras manchas de petróleo cru na costa brasileira o que se tornaria o maior desastre ambiental a atingir nosso litoral —, resíduos de óleo foram encontrados em praias de Pernambuco, Bahia, Paraíba, Alagoas e Sergipe, reiterando a importância de uma ação urgente, séria e transparente do Estado brasileiro. São três anos sem respostas aos territórios que vivem das águas do Nordeste, três anos de silêncio institucional e desrespeito aos povos e comunidades tradicionais diretamente atingidos, que numa relação de harmonia com a natureza, retiram das águas o sustento das suas famílias. 

São também três anos de uma cobertura midiática que não faz aprofundamento investigativo sobre o caso e opta por silenciar vozes que são especialistas no tema, como as marisqueiras, pescadores e pescadoras artesanais e populações ribeirinhas. As pautas seguem, em geral, à luz do espetáculo midiático.

Os vestígios de petróleo começaram a reaparecer no último dia 25 de agosto e estão sendo monitorados pela Secretaria Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco, Agência Pernambucana de Meio Ambiente (CPRH), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Marinha. Até o fechamento deste artigo, os municípios que voltaram a ser atingidos foram: Serinhaém, Jaboatão dos Guararapes, Cabo de Santo Agostinho, Recife, Olinda, Paulista, Igarassu, Itamaracá e Goiana. O  estado vizinho, Paraíba, também já está sob alerta para um possível reaparecimento dos resíduos nas suas praias do litoral sul. 

Vozes silenciadas

Em 2020, buscando contribuir com a discussão sobre a cobertura da mídia brasileira a respeito do derramamento de petróleo, o Intervozes realizou uma pesquisa que envolveu a análise de 367 conteúdos da mídia nacional: 258 de veículos impressos, 57 de telejornais e 52 do webjornalismo. Além de fortalecer o clamor das organizações que exigem justiça para um crime que resultou na chegada de 4.700 toneladas de petróleo cru às praias, a pesquisa alertou para o papel nocivo do silenciamento de vozes das populações atingidas sobre o assunto. Os dados levantados pelo Intervozes mostram que, além do atraso de quase um mês na divulgação dos fatos pela mídia, seja nos veículos de alcance nacional ou nos de alcance regional, em média 60% das vozes ouvidas foram de autoridades públicas e apenas 5% aproximadamente representavam os povos e comunidades tradicionais diretamente afetados.

O estudo da série Vozes Silenciadas examinou a cobertura de veículos com grande audiência nacional como a Folha de S.Paulo, O Globo, O Estado de S. Paulo, o Jornal Nacional (Rede Globo), o Jornal da Record (Grupo Record), SBT Brasil (SBT) e a Agência Brasil (Empresa Brasil de Comunicação – EBC) – e  também  jornais impressos regionais, a saber: o Diário do Nordeste (Ceará), o Jornal do Commercio (Pernambuco), A Tarde (Bahia) e o Estado do Maranhão (Maranhão). 

De modo geral, ficou evidente que velhas fórmulas jornalísticas, como o jornalismo declaratório, não corroboram com o papel social que a imprensa deve cumprir, deixando a cobertura refém dos discursos oficiais e invisibilizando os principais segmentos afetados pelo desastre socioambiental, neste caso, as comunidades tradicionais. No caso da Agência Brasil observou-se que o veículo público foi utilizado como correia de transmissão do Governo Federal. As notícias detinham-se em reproduzir declarações oficiais e a noticiar as ações de contenção do petróleo. 

Até o momento, no caso atual do reaparecimento de óleo, com raras exceções de alguns veículos locais, o assunto continua preso a uma  espiral do silêncio, a mesma que se instaurou quando as autoridades nacionais decretaram segredo de justiça às investigações da tragédia-crime. Até o momento, nenhum conteúdo foi veiculado na Agência Brasil. Na Folha de São Paulo, Estadão e O Globo, apenas uma notícia em cada veículo dava conta do ocorrido até a manhã desta quarta-feira 31. Nos textos, repete-se a tendência do jornalismo declaratório com espaço para autoridades e especialistas e sem nenhuma fala de populações atingidas.

Não podemos, no entanto, naturalizar essa cobertura, sob pena de fragilizar ainda mais a nossa já instável e tão atacada democracia, entregue a ondas de desinformação, estímulo ao ódio e entreguismo colonial encabeçados por várias lideranças políticas nacionais. 

Inação do Estado, mídia cúmplice

O mesmo Estado que ataca as/os jornalistas, defensores de direitos humanos, indígenas, quilombolas e ambientalistas, é o que produz políticas de destruição socioambiental, em um país que possui uma dívida histórica com suas populações originárias e tradicionais. Trata-se, efetivamente, de um Estado em processo notório, acelerado e grave de desdemocratização. Neste contexto, o jornalismo não pode fechar os olhos, sob o risco de sucumbir, assim como as demais instituições sociais que sofrem processos de deslegitimação. Com isso, perdemos todos/as nós. 

Depois de três anos da aparição das primeiras manchas no nosso litoral e com novas manchas em diferentes partes do Nordeste, as várias perguntas que as mídias deveriam responder, por meio de apuração profunda e séria, cumprindo seu papel social, seguem no ar: quais os danos à saúde da população que teve contato com o petróleo cru? Quais as consequências do desastre-crime para a biodiversidade? A saúde humana pode ser afetada pelo consumo de frutos (e seus derivados) dos mares, mangues e rios afetados? Quais os danos à reprodução da vida de famílias de comunidades de pescadores/as e marisqueiras/os que sofreram os impactos da tragédia ambiental e depois vivenciaram a pandemia de covid-19? O Estado brasileiro tem cumprido as medidas de reparação aos atingidos/as?

Além desses questionamentos, feitos cotidianamente por movimentos sociais e organizações populares, a exemplo do Conselho Pastoral dos Pescadores, do Movimento de Pescadores e Pescadores Artesanais e Articulação Nacional de Pescadoras, entre outras, a imprensa não cobra do Governo Federal o cumprimento de suas responsabilidades, como 1) o monitoramento das águas da costa do país; 2) o acompanhamento da saúde das pessoas mais expostas aos resíduos de petróleo; 3) a responsabilização dos culpados; 4) a retratação por terem acusado, levianamente e sem provas, o Greenpeace e a Venezuela pelo desastre; e 5) o controle sobre a extensão do derramamento. 

Vale ainda denunciar que o próprio monitoramento  das áreas atingidas pelo petróleo foi parado em 20 de março de 2020. Uma outra pergunta advém deste fato: será que se o monitoramento tivesse continuado seria capaz de prever o aparecimento de novas manchas e conter os danos? À época da tragédia-crime um relatório do Conselho Nacional de Direitos Humanos recomendou ao Executivo brasileiro acompanhamento sistemático através de análise técnica da areia, água, peixes, mariscos, crustáceos e moluscos (que são elementos filtrantes) sobre a contaminação por petróleo nas regiões afetadas e avaliação destes impactos na saúde de pescadores e pescadoras, marisqueiras, ribeirinhos e ribeirinhas e população atingida.

 O documento apontava ainda para a realização de diagnósticos participativos com foco nos impactos à saúde coletiva das populações tradicionais “produzido por especialistas e por atingidos/as para a definição das medidas emergenciais e a longo prazo, de reparação com vistas à justa negociação, tratamento isonômico, conforme critérios transparentes e coletivamente acordados (…)”. 

O CNDH ainda recomendou às empresas de comunicação que observassem a responsabilidade social do setor ao observar o princípio do interesse público, investigando, apresentando informações confiáveis e dando voz aos setores da população mais diretamente atingidos pela tragédia-crime. 

 Agora, com o novo aparecimento de piche nas areias do litoral, mais uma vez o fantasma da tragédia socioambiental paira sobre a população. Até quando vamos conviver com a incerteza de que os estragos foram cessados? Até quando a mídia privada-comercial seguirá silenciando as vozes dos povos e comunidades que vivem das águas e com as águas tornando-se conivente com a injustiça socioambiental em curso?

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