O fenômeno Sanders, a velha e as novas mídias nas eleições norte-americanas

A presença do socialista nas primárias obrigou seus adversários a tratar de temáticas que haviam sido negligenciadas por anos

Bernie Sanders (Foto: AFP)

Bernie Sanders (Foto: AFP)

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*Por Eduardo Amorim


A candidatura de um socialista para presidente dos Estados Unidos parecia inadiável até a semana passada. Bernie Sanders liderava as primárias do Partido Democrata, sendo o único candidato a ter vencido a votação nominal nos três primeiros estados em toda a história dos dois principais partidos americanos. Mas a força do estabilishment surpreendeu a juventude empolgada com o senador do pequeno estado de Vermont, que agora divide as chances de enfrentar Donald Trump com um fortalecido ex-vice presidente, Joe Biden. No resultado parcial, Biden tem 596 delegados e Sanders, 531. Outros candidatos abandonaram a disputa, incluindo Elizabeth Warren, que tem até o momento 65 delegados e ocupava a terceira colocação nas prévias democratas. Ficaram os dois e a Tulsi Gabbard, que tem menos de 1% nas pesquisas nacionais.

Analisando o papel das comunicações nas eleições, vale olhar para o caso americano e refletir sobre possíveis aproximações com o Brasil e os novos tempos da política, apesar de diferenças claras entre os dois países. Uma lição da última terça-feira 3, a chamada Super Terça, quando aconteceram as primárias do Partido Democrata em 14 estados, é que os investimentos de 500 milhões de dólares em anúncios de rádio e TV pela candidatura bilionária de Mike Bloomberg por enquanto só resultaram em uma vitória nas Ilhas Samoa.

Ao mesmo tempo, a enorme presença de Joe Biden e seus apoiadores na televisão fez a diferença. O ex-vice presidente de Obama, que já tinha vencido na Carolina do Sul, ganhou o apoio de figuras importantes do Partido Democrata, que atuaram para que dois candidatos até então fortes não só desistissem do pleito mas também se somassem ao comício no Texas para apoiá-lo. Sem debate nas vésperas da primária, a cobertura televisiva foi embalada pelo resultado positivo na Carolina do Sul, pelos discursos de Jym Clyburn, liderança democrata do sul dos EUA, e pelas adesões à campanha de Biden, em horário nobre, de Amy Klobuchar e Pete Butittieg. O resultado: vitória em 10 estados, incluindo o segundo mais importante do dia, o Texas, onde ocorreu o comício que anunciou as adesões a sua candidatura.

Levantamento sobre as aparições dos principais candidatos na TV (por múltiplos de 15 segundos), divulgado pelo The New York Times, mostra que Biden tem quase o dobro do tempo de televisão do líder nas pesquisas nacionais, que continua sendo Sanders. Menções dos candidatos nas emissoras CNN, Fox News e MSNBC: Biden – 85.221; Bernie Sanders – 45.434; e Tulsi Gabbard – 2.490.

Com o eleitorado dividido nessas primárias por uma questão etária, ficou claro que o poder de fogo do fenômeno Bernie Sanders se reduz diante de eleitores mais idosos e menos influenciados pelas redes sociais. Nesta terça, o senador de um frio estado do Leste acabou tendo sua grande vitória justamente na ensolarada Califórnia, sede de algumas das maiores plataformas de Internet do mundo. Se nas redes o debate estava dividido e Sanders emplacava a hashtag #VoteForBernie na liderança no Twitter, nos principais canais de televisão o discurso, especialmente às vésperas da Super Tuesday, favoreceu Joe Biden. Desapareceram Elizabeth Warren e Mike Bloomberg, que depois viriam realmente a abandonar a disputa.

Ou seja, o voto dos idosos, mais influenciados pela TV, tendeu ainda mais para Biden, e quem estava na Internet votou massivamente em Sanders. O candidato socialista teve, na faixa de 17 a 29 anos: 60% dos votos no Alabama, 57% na Carolina do Norte, 43% na Carolina do Sul (depois de uma importante adesão negra a Biden), 63% no Tennessee e 55% na Virgínia (a contagem demora dias em locais como a Califórnia). Tudo isso enfrentando a característica do processo norte-americano de não obrigatoriedade no voto, que tradicionalmente tem na juventude um grupo não muito assíduo no processo eleitoral. Aqui nos Estados Unidos, uma grande luta é para empolgar as pessoas e fazê-las se deslocar para as sessões de votações.

A agenda Sanders e o bolsonarismo no Brasil

Os Estados Unidos, assim como o Brasil, são um país continental. Se a vitória de Bolsonaro só não aconteceu no Nordeste, a disputa pelos estados do Sul, uma das regiões mais pobres dos Estados Unidos, tem se mostrado central nas eleições daqui.

Simpatizantes da campanha de Sanders afirmam que as maiores chances de vitória contra Trump seriam dele em função do forte movimento de jovens, latinos, asiáticos, negros, trabalhadores organizados e de feministas como Alexandria Ocasio-Cortez, que o apoiam. Afinal, o buzz que alguém que empolgue um grande contingente faz nas redes e na Internet em geral eleva a possibilidade da campanha chegar a ainda mais gente – muitas vezes, até mesmo o vizinho ou familiar que nem liga para eleições é afetado.

Mais que isso, Sanders teria força justamente nos cinco estados do Meio-Oeste americano, onde Trump ganhou em 2016 e que eram tradicionalmente disputados pelos democratas. Wisconsin, Michigan e outros estados têm um eleitorado que perdeu muito economicamente nas últimas décadas. Há 40 anos, Sanders se opõe a acordos de livre comércio, que incluem desregulamentação trabalhista, e ele sempre repete isso para defender sua popularidade com o eleitor do Meio-Oeste. Ganhador do Oscar de melhor documentário, o filme American Factory mostra justamente o drama de trabalhadores de uma cidade extremamente industrializada, que perdem seus empregos e depois são contratados por uma fábrica chinesa de vidros, com salários bem mais baixos. Sanders é dos poucos políticos americanos identificados com a luta sindical, que aparece neste filme, curiosamente financiado por Barack e Michelle Obama.

Tratar de temas polêmicos como a criação de um sistema gratuito e universal de saúde também pode ser um fator importante para o sucesso de Bernie, especialmente agora que o coronavírus ganhou as manchetes em todo o mundo. Ao tentar rebater os argumentos dos defensores da saúde pública, os opositores de Sanders acabam trazendo para o debate mais pessoas que já se sentiram fortemente lesadas pelos caríssimos planos de saúde e hospitais americanos.

Neste ponto, por mais contraditório que pareça, as campanhas de Sanders e Bolsonaro se aproximam. Os dois foram impulsionados nas redes por propostas polêmicas em seus respectivos países. Certamente, muita gente não sabia que existiam tantos defensores da liberação das armas ou mesmo da ditadura militar no Brasil até o então parlamentar impulsionar tais agendas de todas as maneiras possíveis no ambiente online. A campanha de Sanders em 2016 gerou o mesmo efeito, e agora ele ganha de todos os demais democratas no quesito redes sociais.

A campanha de Bernie, no entanto, não utiliza as mesmas ferramentas de Internet – questionáveis, para dizer o mínimo – usadas para eleger o presidente do Brasil, que teve apoio de Steve Bannon, um dos idealizadores da campanha de Trump. Em vez de disparos em massa pelo Whatsapp, Sanders inova ao criar uma rede de colaboradores para ligar e mandar mensagens para eleitores em todas as línguas imagináveis. Afinal, os Estados Unidos são cada vez mais destino de brasileiros, latinos, asiáticos, africanos e essa população, ao se legalizar no país, se torna potencialmente parte do eleitorado. Sem surpresa, vai tender a apoiar um candidato que defenda direitos como a saúde dos imigrantes, por exemplo.

Essa tática vinha fazendo bastante efeito durante as primeiras primárias. Mas aparentemente o contingente de estados que foi às urnas na Super Tuesday foi grande demais para um trabalho de voluntários praticamente individualizado. É um tipo de tática inovadora que precisa, no caso, ser adaptada para tentar enfrentar a desinformação em futuras eleições.

A escolha entre temas mais simples e complexos, não facilmente assimilados pelo público, também deve influenciar nos resultados. No Brasil, o discurso simples de Bolsonaro certamente ajudou sua eleição. Nos Estados Unidos, antes das eleições, os partidos passam meses discutindo quem serão seus candidatos majoritários. O processo das primárias é longo, passa por todos os estados e por isso possibilita um debate sobre programas de governo – que, pelo menos superficialmente, entram na pauta, especialmente durante os debates. Neste contexto, temas mais complexos como as mudanças climáticas, que devem ser abordadas pela maioria dos possíveis adversários de Trump, vão entrar na disputa. Se efetivamente os americanos derem uma resposta eleitoral ao Trumpismo, será uma demonstração de que, com o tempo, o discurso científico ou as mudanças sentidas na pele também são definidoras para o eleitorado.

A verdade é que a presença de Sanders nas primárias obrigou seus adversários a tratar de temáticas que haviam sido negligenciadas por anos, inclusive entre os democratas. O senador socialista pode até ficar para a história como o candidato que empolgou duas vezes e não conseguiu ser candidato pelo Partido Democrata. Afinal, todo o sistema bipartidário americano foi criado para potencializar candidaturas centristas. Mas será modelo para futuras gerações, que podem ver figuras como Alexandria Ocasio-Cortez e tantas Marielles virem a ser eleitas com bom uso das redes e pautas renovadoras em todo o mundo.


*É jornalista, integrante do Intervozes e doutorando em Comunicação na Tulane University/UFPE.

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