La Casa De La Madre Juana: lá vem a paranoia anticomunista aí, gente!

A Banana Republic Original Series (ou o resumo semanal do hospício, porque este Brasil deixou de ser sério faz tempo)

Jair Bolsonaro em visita à Abu Dhabi. Foto: AFP

Jair Bolsonaro em visita à Abu Dhabi. Foto: AFP

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Irradiada do Brasil, como um Césio 137, a demência espalha-se pela América do Sul. Enquanto o populacho literalmente quebra o pau (e incendeia shoppings e McDonald’s) nas ruas, los dueños del poder redescobrem a paranoia anticomunista. E a ameaça está mais perto do que se imagina, prova esta edição especial dedicada a todas as casas da Mãe Joana abaixo da Linha do Equador. Do Palacio de Miraflores, acusam os homens e mulheres de bem, saem as ordens do “ditador” Nicolás Maduro, que visam destruir os valores cristãos no subcontinente. Hasta la victoria siempre.

Não colou a teoria de “invasão alienígena” aventada pela primeira-dama chilena em uma conversa privada. O levante que levou mais de 1 milhão de manifestantes às ruas no Chile tem sido agora atribuído a agentes secretos de Cuba e da Venezuela, chefes de uma intrincada trama cujo objetivo final é a instauração de um regime socialista. O boato ganhou corpo após o jornal La Tercera, atribuindo a fontes policiais, dizer que venezuelanos e cubanos estariam por trás das manifestações violentas. O promotor responsável pelas investigações sobre os ataques, entretanto, negou que estrangeiros figurem entre os suspeitos.

Lá como cá, as mulheres são as principais vítimas da boataria. A deputada comunista Camila Vallejo foi obrigada a desmentir um falso post no Twitter na qual agradecia ao “Comandante Maduro e a seus agentes” pelo apoio da “Revolução de Outubro no Chile” e comemorava uma iminente troca dos cartões de crédito por cartões de racionamento (antes de rir da desgraça alheia, lembre-se dos brasileiros que acreditaram na mamadeira de piroca).

Em resposta, a verdadeira Camila Vallejo escreveu no Twitter:

“A direita está simplesmente descontrolada e já não sabe mais o que fazer para nos desacreditar. Não foi com [o tradicional jornal chileno]  La Tercera ou com a teoria da invasão alienígena… Não insistam, as pessoas não são estúpidas. ”

Sobraram ainda uns caraminguás chavistas para espalhar petróleo pela costa brasileira. Ao menos é o que sugere o ministro Ricardo Salles. Sempre que pode, no Twitter, o ministro tem se referido ao “óleo venezuelano” sem mencionar que a investigação não aponta indício de que o vazamento tenha ocorrido por ingerência daquele país. A teoria conspiratória não ficou só nas cercanias da internet. Salles anunciou em pronunciamento na tevê que pedirá, por meio da Organização dos Estados Americanos, para que Maduro se manifeste sobre o tema.

Sobrou também para o Greenpeace. Na mesma rede social, Salles sugeriu que um navio da entidade, chamado Esperanza, teria derramado o óleo no mar brasileiro. Disse o ministro:

“Tem umas coincidências na vida né… Parece que o navio do #greenpixe (sic) estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano…”

Não é verdade. Quando o navio partiu da Guiana Francesa rumo ao Brasil, todos os estados do Nordeste já haviam sido atingidos pelo óleo.

Na Bolívia, a reeleição de Evo Morales tem sido alvo de questionamento. A vitória apertada tem acirrado os ânimos. O candidato derrotado Carlos Mesa e a OEA pedem um segundo turno. Morales diz que aceita, desde a que auditoria confirme se houve mesmo violações nas urnas. O terceiro colocado, um pastor sul-coreano a la Bolsonaro, vai além. O candidato Chi Hyun Sung defende a anulação do primeiro turno, e a exclusão de Morales de uma nova disputa.

“Tem que haver uma nova eleição. Não podemos falar sobre o segundo turno, porque, se um segundo turno é introduzido, está sendo dito que (o primeiro turno) não era válido. Segundo turno, teoricamente, significa que o primeiro e o segundo lugar são válidos. Mas podemos mostrar que não houve uma contagem correta aqui” 

Em Santa Cruz de la Sierra, a mais rica cidade do país, os apoiadores de Hyun Sung sugerem uma intervenção ainda mais radical: expulsar da cidade os apoiadores do presidente. É o que mostra um dos muitos memes compartilhados pelo WhatsApp desde a vitória de Morales.

“Peçam trabalho a Evo. Santa Cruz não os dará mais de comer”

A vitória de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina inspirou reações lastimosas, especialmente no Brasil. Bolsonaro passou o domingo 27 resmungando. Direto de Abu Dabi, disse que o argentinos “escolheram mal” e prometeu não cumprimentar o novo presidente do maior parceiro comercial do País. Seu chanceler Ernesto Araújo seguiu a mesma toada. E assim escreveu nas redes sociais: 

“As forças do mal estão celebrando. As forças da democracia estão lamentando pela Argentina, pelo Mercosul e por toda a América do Sul. Mas o Brasil continuará inteiramente do lado da liberdade e da integração aberta”

Agora, o governo quer ir aos EUA reforçar o contraponto a Fernández. Não parece ser essa, contudo, a intenção dos americanos. O secretário de governo Mike Pompeo, em nome da Casa Branca, saudou o novo presidente argentino e celebrou as boas relações entre os dois países. Repetiram o gesto outros líderes “comunistas” como o equatoriano Lenín Moreno, o chileno Sebastián Piñera e o premier britânico Boris Johnson. Teriam sido abduzidos por Maduro?

Em tour pela Ásia, Bolsonaro disse que a passagem pelos Emirados Árabes teve um “simbolismo especial”. A razão? Os brasileiros dominam o mercado de trabalho em um setor bem específico. São “quase mil profissionais trabalhando em jiu-jitsu”, esclareceu o presidente a uma agência de notícias local, antes de completar, com inesperada sinceridade:

“Passou por aí, e levando-se em conta também, com todo o respeito, o fuso horário, para nós aproveitarmos o melhor possível a nossa viagem (sic)”

Depois de passar algumas horas com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, o presidente brasileiro ainda desrespeitou as jornalistas envolvidas na cobertura:

“Todo mundo gostaria de passar a tarde com um príncipe. Principalmente vocês, mulheres, né?”

Foto: José Dias/PR

Pegou mal, mas foi a visita do ex-capitão à China que despertou a fúria do ex-astrólogo e autointitulado filósofo Olavo de Carvalho, um dos principais consultores do governo: 

“Seria lindo ver o governo brasileiro se erguer heroicamente contra a mais perversa e macabra ditadura de todos os tempos, mas, por enquanto, só o que podemos fazer é vender frangos”

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