Blogs

House of Mãe Joana: Bolsonaro passou a falar de si mesmo na terceira pessoa

A Banana Republic Original Series (ou o resumo semanal do hospício, porque este Brasil deixou de ser sério faz tempo

Greenwald é suspeito de fazer jornalismo
Greenwald é suspeito de fazer jornalismo
Apoie Siga-nos no

No mais recente episódio da série, o presidente Jair Bolsonaro invoca as forças ocultas. Ungido com o azeite da Igreja Universal, não se sabe se extravirgem, o mestre de cerimônia Edir Macedo atacou o “inferno da mídia”. Como um encosto que tivesse se apossado da bancada do Roda Viva, tal inferno se manifestou no dia seguinte, durante a entrevista com o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept, acusado de cometer jornalismo. Do ministro anti-globalismo que leva a esposa de carona em avião do governo para férias em Paris até o candidato a embaixador que só fala portunhol, a trama apresenta uma notável inflexão, de consequências ainda não sabidas: Bolsonaro passou a falar de si mesmo na terceira pessoa. Ihuuuu!  

Responsável pela revelação dos comprometedores diálogos da turma da LavaJato, o jornalista Glenn Greenwald deu entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira 2. Tratado pelos colegas como o bandido que teria invadido telefones alheios, acabou por dar uma aula de jornalismo à plateia desprovida de noção sobre o próprio ofício. O auge da inquisição a que se submeteu veio da editora do portal Metrópoles, Lilian Tahan, a quem ocorreu uma ideia salvadora para a crise da imprensa: 

“Não é mais fácil demitir os repórteres todos e contratar meia dúzia de hackers?”

O resumo da ópera-bufa foi feito pelo cartunista Ricardo Coimbra no Twitter:

“Eu acho que o Roda Viva podia ter economizado o tempo do telespectador e resumido tudo a uma pergunta só: ‘Glenn, você acha certo cometer jornalismo?’”

Como a previsão do déficit primário para 2020 já supera os 124 bilhões de reais, o presidente foi questionado na segunda-feira 2 sobre a promessa do ministro Paulo Guedes de zerá-lo ainda em 2019. 

“Pergunta pro Paulo Guedes, eu não manjo nada de economia. Nada. Zero”

Ainda assim, aprofundou-se, dado que manjar nada de nada não chega a ser um obstáculo a Tico e Teco, seus dois neurônios.

“O Brasil está no fundo do poço dado aos economistas, e não ao capitão Jair Bolsonaro”

Um inflexão importante: o capitão já fala de si em terceira pessoa. É grave.

Ungido com azeite. Estamos fritos

No domingo 1º, Bolsonaro recebeu a bênção do “bispo” Edir Macedo no Templo de Salomão, em São Paulo. Dez mil fiéis assistiram ao Bozo, de joelhos e de costas, ser ungido com o azeite da Igreja Universal. O dono da Record rezou contra o “inferno da mídia”. Depois do culto, o presidente foi assistir ao jogo do Palmeiras na casa de Silvio Santos, que o delator da Lava Jato Adir Assad acusa de lavagem de dinheiro. O Palmeiras foi goleado por 3 a 0.

O antiministro da Educação, Abraham Weintraub, não gostou dos números do Datafolha a respeito da popularidade do chefe. 

“Pensamento da semana: tem gente que acredita em Saci Pererê, em Boi Tatá e em Mula sem Cabeça; e tem gente que acredita no Datafolha da família Frias (esses últimos realmente existem) (sic)”

A mula com cabeça certamente acha que o Boitatá é um boi chamado Tatá. Para quem já fez a metamorfose de Kafka, normal.

As bolas divididas seguem a toda na várzea golpista/bolsonarista/lavajatista. O último entrevero deu-se entre Eduardo Bolsonaro, o diplomata sem nenhuma diplomacia, e Rodrigo Constantino, o ex-colunista de Veja e blogueiro da direita. No Twitter, o Zero Três perguntou:

“Rodrigo, surgiu uma dúvida aqui. De coração. Seu pai ou algum parente próximo era sócio do Marka? Marka era banco do Salvatori Cacciola”

A que respondeu o zero à esquerda: 

“Eu respondo, Dudu: não, não era. E eu nunca trabalhei lá. Agora surgiu uma dúvida aqui, de coração: seu irmão ou algum parente era sócio na rachadinha do Queiroz, amigão da família há décadas?”

Durante almoço no sábado 31, Jair Bolsonaro disse aos jornalistas que pretende conceder indulto a policiais presos, incluindo aqueles envolvidos nos massacres do Carandiru e de Eldorado dos Carajás, além do sequestro do ônibus 174, no Rio de Janeiro. 

“Os que se enquadrarem no indulto, eu vou dar. Estou pedindo a policiais de todos os estados uma lista de nomes, com justificativas. (…) Se o comandante do Carandiru (coronel Ubiratan Guimarães) estivesse vivo, eu dava indulto pra ele também”

Não há condenados pelo Massacre do Carandiru. Os dois policiais presos pelo Massacre de Eldorado dos Carajás foram enquadrados na Lei de Crimes Hediondos. PMs envolvidos na morte por asfixia do sequestrador do ônibus 174 foram absolvidos. Por conseguinte, em nenhum dos casos existe a possibilidade do indulto. É um asno.

Ainda no sábado 31, Bozo traçou o perfil que deseja para o comando do picadeiro em que sonha transformar a Ancine, a Agência Nacional do Cinema:

“Que conseguisse recitar de cor 200 versículos bíblicos, que tivesse os joelhos machucados de tanto ajoelhar e que andasse com a Bíblia debaixo do braço”

A diretoria colegiada da Ancine tem hoje três pessoas com mandatos de quatro anos.

“Não tivesse, em sua cabeça toda, mandatos, já teria degolado tudo”

BolsoDoria é aquele monstrengo que nasceu e cresceu nas últimas eleições, um casamento de conveniência entre o Bozo federal e o Bozo estadual. Morreu sexta-feira passada durante a live do presidente no Facebook.

“Eu vejo o Doria falando de vez em quando ‘minha bandeira jamais será vermelha’. Quando ele tava mamando lá, a bandeira era vermelha com foiçaço e martelo sem problema nenhum, né? Ihuuuu, tá ok?”

O governador de São Paulo financiou, pelo BNDES, uma aeronave de 44 milhões de reais em 2010.

A ala manicomial do governo em encontro nos Estados Unidos

“Autoridade dos EUA – que participou de reunião com Eduardo em novembro do ano passado em Washington – disse que sentiram dificuldade de prosseguir conversa em inglês e ofereceram se o deputado preferia seguir em espanhol. ‘Também não funcionou, foi em portunhol’— disse”

O embaixador monoglota foi revelado pela correspondente da Globo em Washington, Raquel Krähenbühl.

Fred Melo Paiva

Fred Melo Paiva
Editor-executivo online de CartaCapital, correspondente das Notícias do Hospício e apresentador da série O Infiltrado (History).

Tags: ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Um minuto, por favor...

Apoiar o bom jornalismo nunca foi tão importante

Obrigado por ter chegado até aqui. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, que chama as coisas pelo nome. E sempre alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se este combate também é importante para você, junte-se a nós! Contribua, com o quanto que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo completo de CartaCapital.