Fora da Faria

Uma coluna de negócios focada na economia real.

Fora da Faria

Perdemos muito mais que um jogo

A derrota elimina a principal matéria-prima da economia simbólica: a expectativa. Quando ela morre, morre junto uma parte importante da atividade econômica construída ao seu redor

Perdemos muito mais que um jogo
Perdemos muito mais que um jogo
Eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 2026, em 5 de julho. Foto: Jewel Samad/AFP
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A eliminação do Brasil para a Noruega na Copa do Mundo de 2026 encerrou uma campanha esportiva que despontava, racionalmente, como desastrosa, mas tinha uma fagulha de expectativa emocional. A derrota também desligou, antes da hora, uma máquina de consumo cuidadosamente preparada durante meses. É um elemento simbólico capaz de movimentar a economia.

Quando a Seleção Brasileira entra em campo, deixa de ser apenas um time de futebol ese transforma em um ativo econômico. O mercado tem vida e humor, lembrem-se. Cada partida movimenta bares, restaurantes, supermercados, plataformas de streaming, emissoras de televisão, agências de publicidade, aplicativos de entrega, fabricantes de alimentos, cervejarias, empresas de logística e milhares de pequenos negócios que organizam sua operação em torno do calendário da Copa.

A derrota não afeta apenas a CBF: chega ao caixa de milhares de empresas e ao bolso de milhões de trabalhadores. A Confederação Nacional do Comércio estimava que bares e restaurantes faturaram 2,42 bilhões de reais durante este Mundial, um crescimento de quase 16% sobre a Copa do Catar. A projeção nunca dependeu apenas da paixão nacional pelo futebol. Dependia, sobretudo, de uma hipótese silenciosa: a de que o Brasil permaneceria vivo no torneio durante boa parte de junho e julho.

Essa hipótese acabou antes do esperado. Cada jogo eliminatório representava uma nova rodada de consumo, mais televisores ligados e cerveja vendida. Seriam muitos churrascos improvisados, encontros entre amigos e trabalho extra para garçons, cozinheiros, entregadores, seguranças e trabalhadores temporários. Quando o Brasil cai, todo esse calendário desaparece.

Existe um aspecto curioso nessa relação entre futebol e economia. A economia real colhe no futebol os resultados possíveis. No campeonato nacional, em que quatro ou cinco torcidas disputam a hegemonia da relevância, os movimentos tendem a ser desiguais e, normalmente, regionais. A Copa do Mundo tem a oportunidade de criar uma torcida única em todo o País, uma massa de diferentes que se tornam iguais.

A derrota elimina a principal matéria-prima da economia simbólica: a expectativa. Quando ela morre, morre junto uma parte importante da atividade econômica construída ao seu redor. O comércio esportivo oferece um exemplo direto. Nos meses anteriores ao Mundial, as vendas de camisas da seleção dispararam, embaladas pelo entusiasmo típico das Copas. Não é apenas uma compra racional. É um investimento emocional. O torcedor compra imaginando as próximas vitórias, a semifinal, a final, a possibilidade do hexacampeonato.

Quando essa narrativa acaba, desaparecem também as compras por impulso, as versões comemorativas, os brindes, as promoções e todo o ecossistema comercial que vive da esperança. Esse fenômeno ajuda a explicar por que o futebol permanece sendo um dos maiores ativos simbólicos da economia brasileira. Não porque produza uma parcela relevante do PIB, mas porque consegue sincronizar milhões de pessoas em torno do mesmo comportamento de consumo.

Poucos eventos têm capacidade de alterar simultaneamente a audiência da televisão, o movimento dos bares, a venda de alimentos, a procura por eletrodomésticos, a publicidade e até o trânsito das grandes cidades.

A eliminação também revela outra fragilidade brasileira. Nossa economia continua excessivamente dependente de ciclos curtos de entusiasmo — Black Friday, Natal, Carnaval, Copa do Mundo etc. Criamos sucessivos momentos de hiperconsumo que produzem receitas extraordinárias, mas incapazes de resolver problemas estruturais como produtividade, investimento, qualificação profissional e crescimento sustentado. É uma economia que frequentemente troca planejamento por euforia.

Talvez seja essa a derrota mais importante. Não a que apareceu no placar contra a Noruega, mas a constatação de que continuamos a depositar expectativas econômicas em eventos passageiros, enquanto seguimos incapazes de construir motores permanentes de crescimento.

A Copa acabou para o Brasil. O problema é que a ressaca econômica costuma durar mais que os noventa minutos, sempre alimentada pelos juros absurdos, o maior gol contra de todos.

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