Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Colunas

Sobre copas, derrotas e eleições

O debate sobre o futebol brasileiro surge como um terreno privilegiado de disputa política, mas em um nível que não se resume ao tempo curto das urnas

Sobre copas, derrotas e eleições
Sobre copas, derrotas e eleições
Eliminação da Seleção Brasileira da Copa do Mundo de 2026, em 5 de julho. Foto: CHARLY TRIBALLEAU/AFP
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Eleições 2026

A cada quatro anos aparece, no caderno de esporte ou de política, a tradicional matéria sobre a possível relação entre o desempenho da seleção na Copa do Mundo e a eleição. Os textos usualmente seguem roteiro semelhante. Depois de um questionamento sobre os efeitos do resultado futebolístico para o atual governo, alguns especialistas, usualmente embasados em pesquisas de opinião ou em trabalhos acadêmicos sobre motivações para o voto, refutam os vínculos entre os dois eventos.

É, de fato, ingênuo esperar um efeito tão direto entre os dois campos. O futebol pode influenciar os humores de boa parte da população, mas a percepção sobre o momento da sociedade ou do País envolve uma infinidade de fatores, muitos deles não conscientes e dotados de uma temporalidade bem diversa. A decisão do voto não passa por uma resposta imediata a uma competição esportiva, mesmo que seja a Copa do Mundo.

Há, contudo, relações mais complexas entre futebol e política. Elas não surgem apenas nos curtos meses entre a Copa e a eleição, ou dependem de um pênalti ou de algumas substituições nas oitavas de final, mas passam pelo papel da Seleção Brasileira na construção do imaginário nacional. O futebol é um dos elementos centrais na formação da ideia moderna de Brasil, influindo sobretudo em certa percepção do futuro e do lugar imaginado do País no mundo

Poucas expressões culturais são mais centrais para as imagens correntes sobre o que é ser brasileiro do que o futebol. O vínculo entre o esporte e a nacionalidade vai de protagonistas da cena intelectual – como Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues e Chico Buarque – a discursos comuns na imprensa, tornando-se um senso comum identificado à brasilidade. Nas representações sobre o jeito brasileiro de jogar futebol, as virtudes nacionais ocupam um lugar privilegiado, da habilidade dos corpos à malandragem no trato com as regras e os adversários, conformando o que nos distinguiria de outros povos. Se versões negativas da nacionalidade também eram mobilizadas para tratar do esporte, elas acabavam enredadas em certa ideia de sucesso, na qual o ser brasileiro transformava mesmo o que parecia atraso em vantagem, ou perdia seus talentos, que poderiam ser utilizados para algo mais relevante do que a preocupação com 22 pessoas correndo atrás de uma bola.

Como bem destaca José Miguel Wisnik em Veneno Remédio: o futebol e o Brasil, o futebol promoveu algo como uma inversão das hierarquias geopolíticas mais tradicionais, no qual o Brasil ocupava um papel de destaque, como grande potência global. Nas imagens otimistas das décadas de 1950 e 1960, nas quais o conceito de desenvolvimento vinha acompanhado de uma ideia do Brasil como país do futuro, o sucesso nas Copas do Mundo era dado como sinal importante de que não estávamos apenas diante de uma simples suposição, mas de uma realização latente e, ao menos, já concreta em um campo: o futebol. Afinal, não era trivial ser o país mais vencedor no esporte mais popular do mundo.

Quando Wisnik publica seu livro, em 2008, a ideia ainda parecia não somente crível, mas hegemônica no senso comum sobre o futebol brasileiro. O futebol surgia como algo capaz de ligar o passado ao futuro, um elemento da nossa história que ainda conservava, mesmo ante tantas mudanças, certa contemporaneidade. O fracasso de 2006 era atribuído a critérios externos ao jogo, sem qualquer questionamento à ideia de que tínhamos os melhores jogadores, o que frequentemente era referendado por eleições sobre o melhor jogador do mundo, que, ao longo das décadas de 1990 e nos anos iniciais do novo milênio, premiaram diversos brasileiros. 

Algo, porém, mudou nas últimas duas décadas. Disseminou-se na mídia e nas redes sociais a ideia de que não éramos mais o país dos melhores jogadores, o país do futebol. As causas são diversas. Por um lado, influem os seguidos fracassos nas Copas do Mundo, com destaque para uma quase inacreditável derrota nas semifinais em casa. A sequência de resultados decorre não apenas de escolhas pontuais, mas de efeitos mais profundos, que passam tanto pelo aspecto lastimável das mais diversas instituições do futebol brasileiro, da CBF à imprensa esportiva, quanto pela subordinação da formação e da carreira dos jogadores aos humores do futebol europeu. 

O crescente interesse no futebol europeu, que hoje atinge patamares inéditos, produz transformações profundas no imaginário nacional. Da ideia de que os melhores estão em clubes europeus logo se caminha para um questionamento sobre o próprio lugar do futebol brasileiro, que passou a ser visto como algo de uma segunda prateleira. Como forma de confirmar a mudança, temos um longo domínio de Messi e Cristiano Ronaldo em prêmios individuais, o que deslocou os jogadores brasileiros do seu usual destaque, e um desempenho ruim da seleção em competições dos últimos 20 anos.

Em tempos de forte circulação das imagens e representações, tais discursos afetam fortemente uma geração que não apenas não ousa pensar no Brasil como o país do futebol, mas ataca frequentemente essa imagem nas redes. É difícil imaginar que tal transformação na representação da nacionalidade não tenha repercussões políticas. Não estamos falando do resultado da Copa, mas da perda de um dos elementos centrais para a representação do Brasil no mundo. Um olhar mais detido para o campo da direita permite vislumbrar algumas consequências. 

É central para a identidade de vários dos protagonistas de ultradireita brasileira certa ideia de “terra arrasada”, que representa o presente e o passado nacional de modo profundamente negativo. Trata-se de estratégia para, por um lado, distinguir as lideranças e militantes dos seus adversários e, por outro lado, justificar a radicalidade das propostas apresentadas. Nas redes é, por exemplo, comum a referência ao País como “bostil”, em representação que, a partir de critérios que vão dos explicitamente morais às métricas econômicas, tomam o País como pior dos mundos. O esforço concertado de construir uma imagem negativa não inova, dada a longa tradição de visões deste tipo, mas se destaca pela virulência e profunda agressividade.

Essas ideias podem soar curiosas ao leitor, à primeira vista, dada a identificação do bolsonarismo e de boa parte da ultradireita com a camisa da seleção, tomada como símbolo do patriotismo. Tal uso, contudo, é profundamente ambíguo. A estética sugere uma retórica nacional, a partir de valores e de certa ideia de coletividade, mas frequentemente decorre mais de tomada de posição em uma guerra imaginada, enquanto manifestação contrária aos que supostamente desejariam tornar vermelha a bandeira do Brasil, do que como valorização positiva da cultura nacional. A performance anticomunista expressa uma recusa, não qualquer valorização do que a camisa representaria. Seja como rejeição de qualquer coisa nacional, seja, em perspectiva mais suave, como crítica radical ao atual estado de coisas da pátria, o discurso de desvalorização nacional se tornou um terreno fértil para lideranças da ultradireita.

O futebol, neste sentido, surge como exemplo privilegiado da decadência nacional, por vezes mobilizado em registro mais recente — com a sugestão de que nem mesmo o futebol sobreviveu a uma suposta hegemonia da esquerda —, em outros momentos como marca da nossa miséria secular, afinal nem mesmo no terreno antes favorável, exceção em meio a série de mazelas, conseguimos mais nos destacar. As representações da derrota da seleção são bem exemplificativas. As críticas vão de certo discurso de decadência moral contemporânea – que, de modo caricato, por vezes atribui a derrota a decadência do catolicismo, da masculinidade ou certos valores – à retomada de velhos motes de fundo racial sobre a má índole do brasileiro, particularmente populares antes da Copa de 1958, mas sempre presentes nos momentos mais duros da seleção.

Não é somente a direita que fala, a partir do esporte, de aspectos mais amplos da sociedade e do País. Bem antes dos usos mais contemporâneos da camisa da seleção, parte da esquerda em muitos momentos já criticou o futebol brasileiro, usualmente a partir de uma perspectiva que requenta velhos motes da alienação e do “ópio do povo”. Os discursos, porém, sempre encontraram resistência no campo por sua verve claramente antipopular e elitista, o que coloca em questão elementos importantes da sua identidade. Mais recentemente, com a forte recusa de ideias de vanguarda dentre boa parte das esquerdas, tal tipo de perspectiva se mostra ainda menos relevante.  

No atual cenário, o debate sobre o futebol brasileiro surge como um terreno privilegiado de disputa política, mas em um nível que não se resume ao tempo curto das eleições. Com seus efeitos de manada, dinâmica de imitação de afetos e propensão a crítica radical, as redes sociais surgem como terreno favorável à ultradireita, de modo que o futebol se torna um modo de construir um mal-estar generalizado, que começa nos campos e nas redes, porém alcança instituições, valores e pessoas. 

Ante todos esses movimentos, não é o caso de renunciar à crítica ou de ignorar os problemas das últimas duas décadas, que mudaram imaginário futebolístico e certo lugar do Brasil no mundo. Convém, contudo, prestar bastante atenção ao modo pelo qual as análises são feitas. Ou se corre o risco de contribuir para algo que vai além do Ancelotti, do Neymar ou das quatro linhas. 

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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