Black Friday: a queima de recursos pelo consumismo

O que vemos é a maioria de nós, consumidores, fazendo compras por sermos levados por impulsos gerados pela indústria da propaganda

A Black Friday oferece armadilhas sedutoras ao consumismo desenfreado (Foto: Tom Mitchell)

A Black Friday oferece armadilhas sedutoras ao consumismo desenfreado (Foto: Tom Mitchell)

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Por Dandara Valadares

Desde que o mundo é mundo, consumimos em excesso. As sociedades primitivas não viviam em função apenas de sua subsistência, mas usavam de objetos e adornos para criar uma hierarquia social. Entre as civilizações antigas, Roma era uma das que mais consumia em excesso. Contudo, foi após a Revolução Industrial que o consumo toma outras proporções.

As motivações para o consumismo são as mesmas: o hedonismo (viver pelo prazer), reconhecimento social e sentimento de pertencimento. Mas a oferta de bens muda de uma escala artesanal, como a perecibilidade de alimentos, por exemplo, para uma escala industrial e massificada.

Para entender como nos relacionamos com o consumo, é importante entender a nossa relação com o meio ambiente. A abordagem que vemos predominante é a antropocêntrica, ou seja, o ser humano como elemento central de importância e a natureza e recursos naturais como meios para levar a nossa satisfação de necessidades e desejos. O antropocentrismo, apesar de guiar o ser humano desde a passagem da Idade Média para a Idade Moderna, é uma visão muito frágil se considerarmos que o ser humano depende da natureza para existir, enquanto não podemos dizer o contrário.

Voltando ao consumismo, a Revolução Industrial massificou a produção, e quando as grandes fábricas ficaram saturadas, o liberalismo e a globalização tomam corpo para movimentar o mercado de forma internacional. Com o pós-guerra, vimos americanos usarem suas reservas para movimentar a economia através da compra de bens de consumo. Esse movimento, que teve seu boom nos anos 80, foi se sofisticando até chegarmos no consumismo desenfreado e descartável que vivemos desde meados dos anos 90.

Em pleno século XXI, o consumismo acontece, predominantemente, em função do status social, estilo de vida este que está causando consequências catastróficas e irreversíveis ao meio ambiente. Nos preocupamos com a compra, e não pensamos no descarte. Não entendemos nem assumimos a nossa responsabilidade enquanto consumidores.

Não há problema em esperar a Black Friday pra comprar um item que você esteja precisando, é importante investir nossos recursos com consciência. Contudo, o que vemos é a maioria de nós, consumidores, fazendo compras por sermos levados por impulsos gerados pela indústria da propaganda.

Precisamos tomar o controle das nossas escolhas, consumirmos conscientes da responsabilidade atrelada à compra de um produto, nos questionarmos se realmente precisamos desse novo item.

Essa responsabilidade passa pelo indivíduo, mas ela é da sociedade como um todo. A cultura do consumismo é mantida por todos os atores sociais, portanto, a pauta do consumo consciente deve entrar para a agenda de todos os agentes: escola, família, políticos, artistas, influencers, formadores de opinião.

 

O Código de Defesa do Consumidor e o CONAR (Conselho Nacional de autorregulação publicitária) precisam se adaptar aos novos tempos, e entender que a agenda consumista da grande indústria de bens de consumo, e por consequente, a de publicidade, precisa ser regulamentada e fiscalizada tendo o consumo sustentável como uma de suas prioridades.

O artigo 36 do Conar condena toda publicidade que estimule poluição, depreciação ambiental e o desperdício de recursos naturais, mas o estímulo ao consumismo não está previsto. Se pensarmos que o consumismo é um dos principais motores do sistema que causa os problemas ambientais, vemos que estamos lutando contra as consequências e não contra as causas do problema.

Estamos falando aqui de uma mudança cultural, que está acontecendo como resultado da macrotendência da sustentabilidade. Não temos escolha, a mudança precisa acontecer agora como condição para a continuação da nossa sobrevivência. Na campanha “The Rise of Lowsumerism”, a agência Box 1824 mostra que alternativas como economia solidária, apesar de válida, não é suficiente. Precisamos repensar nosso consumo.

Nesse período de promoções e liquidações, vamos nos questionar: por que mesmo estamos comprando?

Dandara Valadares integra a equipe de Comunicação Fashion Revolution Brasil

 

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